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Quem é o brasileiro autor de murais afro que viralizaram ao redor do mundo

Artista goiano viralizou após ter imagens compartilhadas por atrizes como Viola Davis e Taís Araújo - Reprodução/Instagram
Artista goiano viralizou após ter imagens compartilhadas por atrizes como Viola Davis e Taís Araújo Imagem: Reprodução/Instagram

De Splash, em São Paulo

24/10/2021 09h00Atualizada em 25/10/2021 08h43

O artista Fábio Gomes, de 30 anos, viu sua vida mudar na segunda metade de 2020, quando suas artes em muros de Trindade, no estado de Goiás, ganharam repercussão internacional em páginas de famosos como Viola Davis, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, e Tina Knowles, mãe da cantora Beyoncé.

Os compartilhamentos deram evidência à obra do pintor goiano, que decidiu investir em uma carreira nas artes há 8 anos, quando ainda trabalhava como servente de pedreiro na cidade goiana. Agora, após pintar muros por "200 ou 300 reais", no início de sua trajetória, Fábio planeja iniciar um projeto em um muro de 900 metros quadrados.

Desde criança eu sempre gostei muito de desenhar, eu desenhava na sala (de aula), não gostava de estudar. Aí como eu não tinha estudo, arrumei um serviço de servente. E eu sempre levava minha pasta de desenhos para o trabalho, para mostrar para o pessoal, aí eles falavam: 'Você tem muito talento, tem que começar a pintar'.

Fábio conta que seu primeiro contato com as artes em muros ocorreu durante visitas rotineiras à capital do estado, Goiânia, que fica a apenas 26 km de Trindade.

"Aí eu decidi começar a passar minhas artes para as paredes também. No começo, não foi fácil, eu passei muita dificuldade, até para comer. Eu pedia nas casas para fazer os desenhos, e o pessoal pagava bem pouco, porque não tinha esse tipo de trabalho aqui".

Do dinheiro que Fábio ganhava pelo trabalho, que levava cerca de uma semana para ficar pronto, o lucro ficava em torno de apenas R$ 100, com o desconto do material usado. Ganhando menos do que como servente de pedreiro, o artista conta que pessoas próximas falavam que ele "estava ficando doido".

Apesar das críticas, o goiano continuou o trabalho apoiado pela mulher, Cleia. Ele conta que, além de ter buscado inspiração em seus conterrâneos, seu maior ídolo no mundo da arte urbana é o muralista Eduardo Kobra, nascido no Jardim Martinica, bairro periférico da zona sul de São Paulo.

"Meu sonho é poder conhecer ele, mostrar meu trabalho. Me espelho muito na história dele porque parece um pouco com a minha. As dificuldades que ele passou e hoje o cara já conseguiu vencer, já rodou vários países, meu sonho é chegar aonde ele chegou", detalha Fábio ao falar sobre a admiração por Kobra, autor do maior mural do mundo, o "Etnias", feito para as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, e premiado pelo Guinness Book, o Livro dos Recordes.

Mas o ânimo do artista com o mundo da arte foi abalado com o início da pandemia. Em uma fase de ligeira ascensão em sua vida profissional, o goiano conta que ficou preocupado com as repercussões do isolamento em seu dia a dia, mais foi surpreendido pela publicidade gratuita dos famosos estrangeiros.

"Eu fiquei preocupado de: 'Nossa, agora eu vou ter que parar de trabalhar, não vai ter mais serviço', e foi bem nessa época que a mãe da Beyoncé e a Viola Davis compartilharam. E eu não parei um dia na pandemia, consegui fazer vários trabalhos", comemora Fábio, definindo seu trabalho sob um pé de acerola, compartilhado pelas celebridades, como o mais importante de sua carreira.

"Eu pedi uma parede sem ganhar nada, pedi um espaço, porque eu sempre quis fazer esse trabalho, montei mais ou menos uma imagem e desenhei. E foi a que mais me marcou: Em uma época de crise, com um trabalho que eu não ganhei nada, eu consegui ganhar muito dinheiro", explica.

Para 2022, Fábio tem planos de realizar seus primeiros trabalhos no exterior. Ele conta que já recebeu convites de empresas na Itália, Portugal e Estados Unidos para realizar novos murais. Além disso, ele celebra o reconhecimento de seus ídolos nacionais, como Taís Araújo, que também compartilhou uma arte do goiano, com o rosto da atriz, em suas redes sociais.

Minha arte fala muito sobre questão racial, sobre o preconceito com cabelo crespo, cor de pele, e eu vejo que a Taís Araújo luta muito contra o racismo, e eu quis fazê-la para retratar a mensagem que eu quero passar. Ela gostou demais da homenagem, até o Lázaro Ramos disse que queria o muro pra ele.

Com a repercussão, os muros do artista viraram uma atração turística em Trindade. Este ano, ele se dedicou a uma galeria a céu aberto nos muros de várias residências vizinhas, para facilitar a vida dos visitantes que querem posar ao lado de suas obras.

"Hoje, em todo final de semana vem gente de longe visitar a rua, conhecer a galeria. Os moradores também ficam felizes, por verem as pessoas elogiarem, falarem que a casa deles está bonita. Meus trabalhos são muito espalhados pela cidade e vários são do lado de dentro das casas, em áreas de lazer, e aí surgiu a ideia de fazer essa galeria, que é quase vizinha a arte da árvore de acerola", detalha.

E os próximos meses de 2021 ainda serão de trabalho intenso para Fábio, que levará seus desenhos para muros no Rio de Janeiro e São Paulo.

Além disso, ele está em fase de negociação final com uma fábrica de tintas de Aparecida de Goiânia para pintar um paredão de 90 metros de largura e 10 de altura. "Eles querem que leve um pouco da minha arte para esse mural, que vai ser o maior que eu vou fazer, se tudo der certo", completa.