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Pedro Antunes

Adele não foi um delírio coletivo. Mas repetir sucesso é improvável

Adele repetirá o sucesso de 2011? - Montagem: Pedro Antunes
Adele repetirá o sucesso de 2011? Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/10/2021 04h00

Acordei assustado. Coração pulsando com tanta força que quase se podia ouvi-lo bater fora do peito. Tomei cuidado para não acordar a minha companheira deitada ao lado, peguei o celular e abri minha plataforma de música por streaming. Digitei: A-D-E-L-E. Ao ver o rosto da artista autora de "Someone like You", "Hello" e "Mulheres" (risos), me acalmei.

O que me despertou foi um pesadelo. Naquele mundo fictício, Adele nunca existira; era um delírio coletivo. Me assustava pensar na tonelada de textos escritos sobre a inglesa baseados em uma mentira.

Pode até parecer improvável para quem acompanha as tendências da música pop que cantora inglesa com bases tão potentes no R&B e soul fosse tamanho sucesso. Mas o álbum "21" (2011), de hits como "Rolling in the Deep", teve realmente 12 milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos (segundo a Billboard) e 31 milhões no mundo todo.

Eis 3 motivos para entender o que aconteceu.

1º motivo: a má fase do pop

O ano de 2011 foi particularmente ruim para o pop.

Além de "Rolling In The Deep", de Adele, o top 5 da Billboard tinha: "Party Rock Anthem" (LMFAO feat. Lauren Bennett & GoonRock), "Firework" e "E.T." (ambas de Katy Perry) e "Give Me Everything" (Pitbull feat. Ne-Yo, Afrojack & Nayer).

Os feats começavam a decolar, mas as batidas ainda eram genéricas e superficiais.

O ano anterior foi ainda pior. O top 5 de 2010 era formado por: "TiK ToK" (Ke$ha), "Need You Now" (Lady Antebellum), "Hey, Soul Sister" (Train), "California Gurls" (Katy Perry feat. Snoop Dogg) e, em quinto lugar, "OMG" (Usher feat. will.i.am).

Com tanta música de plástico e sem alma, Adele tinha um coração que batia e sangrava. Isso tinha importância.

2º motivo: a chegada do streaming

O mundo todo era outro naquela época.

Em 2011, o Spotify não havia chegado aos Estados Unidos e a indústria fonográfica ainda precisava entender como garantir fonte de renda sem a venda de discos e lidava com a pirataria crescente.

"21", especificamente, foi o canto o cisne de uma indústria que definhava. Um álbum que soava como a representação daquela época.

Tinha ar retrô, temas universais (a sofrência e dor de amor) e batidas modernas, "21" foi a fotografia perfeita desta transição de gerações. Era antigo e moderno ao mesmo tempo - exatamente o que sentíamos na transição da primeira e segunda década deste século, com tantas transformações tecnológicas surgindo por todos os lados.

Se fosse lançado dois anos antes ou dois anos depois, possivelmente o álbum não fosse o absurdo que foi.

Não por acaso o sucessor do disco, "25", também tenha sido um hit (com 22 milhões de cópias vendidas), mas com um impacto cultural menor.

Tão menor que uma música como "Million Years Ago", tão parecida com "Mulheres" (famosa na voz de Martinho da Vila), tenha passado despercebida por 6 anos - o álbum saiu em 2015 e só em 2021 vieram as conversas sobre um possível plágio, entende?

3º motivo: álbuns importavam

Por dia, são em média 60 mil músicas novas publicadas nas plataformas de streaming. Todo esse consumo mudou desde aquele 2011 e os singles são mercadologicamente mais importantes.

Naturalmente, o peso de um disco se foi. E embora Adele possuísse ótimos singles, o conjunto da obra que fez dela um estouro: a fartura de boas canções em um mesmo tema (coração partido) e estética sonora semelhante entre eles a transformaram em pauta para jornais, revistas, programas de TV, rádio, etc. E as pautas levaram-na para o estrelato.

Isso sem falar na comunicação de massa que perdeu força e, logo, é difícil criar ícones globais como outrora.

Hoje, o mercado consome muito, mas em pequenas porções de cada um. E o jornalismo musical não dá conta de acompanhar o lançamento de singles, com uma ou outra exceção.

Se em 2011, a informação já se pulverizava em nichos, nove anos mais tarde, ela é completamente outra - a ponto de duas pessoas podem ser consideradas bem informadas de atualidades culturais apesar de não terem muitos conhecimentos em comum.

Tudo isso afeta na criação de um novo furor midiático musical como foi "21".

Foi delírio ou não?

Claro, Adele é uma titã da música. Furacão de sofrência soul da melhor qualidade, mas de outra época. Dez anos se passaram. Para a indústria da fonográfica atual é como se fosse um século.

Não foi um delírio. Mas imaginar que vá ser um acontecimento cultural como foi dez anos atrás beira o delírio dos grandes porque nada daquele mercado ainda existe.

Encerro com uma pergunta filoso-musical: se os Beatles surgissem hoje exatamente como nos anos 1960, com os mesmos álbuns, mesma evolução musical e talentos intactos, repetiriam o sucesso de 50 anos atrás?

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes), no Twitter (também @poantunes) ou no TikTok (@poantunes, evidentemente).