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Pedro Antunes

Até quando Anitta precisa lidar com complexo de vira-lata brasileiro?

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/09/2021 07h21Atualizada em 14/09/2021 07h37

Quando o jornalista Nelson Rodrigues cunhou o termo "complexo de vira-lata" para tratar da baixa autoestima do brasileiro, não existia VMA, a premiação da MTV norte-americana, é claro. Larissa Machado, a Anitta, só nasceria décadas depois também.

Afinal a ideia dele era falar da derrota da Copa do Mundo de futebol de 1950 - aquela na qual o time brasileiro perdeu para o Uruguai em casa, em pleno Maracanã historicamente aglomerado.

E esta história se repete. Cada nova tentativa brasileira de sucesso é acompanhada de um derrotismo profundo. Se um artista filho tupiniquim tenta "make it happen" no mercado exterior, o nervo fica ainda mais à mostra. Tudo é tão sensível que qualquer aparente flop é visto como mais um Maracanaço (apelido dado à tal derrota para o Uruguai no futebol).

Oras, até Alexandre Pires passou por isso apesar do sucesso absoluto no mercado latino-americano de língua espanhola.

Já Anitta vem lutando contra este complexo desde que percebeu que seu futuro estava além das fronteiras daqui.

É bom frisar que o complexo não é dela, já que a autoestima da artista vinda de Honório Gurgel é, corretamente, elevadíssima.

Mas trata-se de um complexo do povo brasileiro. Ou melhor, o povo tuiteiro brasileiro.

Anitta fez história no VMA 2021, ao se apresentar durante o intervalo do programa. A primeira artista brasileira a chegar tão longe neste tal olimpo do pop de plástico que é a premiação norte-americana.

E o fez com "Girl From Rio", o single mais recente que substitui antigos estereótipos do Rio de Janeiro por novos que fariam o próprio Nelson Rodrigues gargalhar com a ironia toda.

A apresentação, pré-gravada, pode ser assistida abaixo.

Por culpa de décadas de "complexo de vira-latas", a turma chiou. "Ah, mas apresentação no intervalo não é a mesma coisa do que tocar no palco principal". Não é, mesmo, mas e daí?

Com tantas derrotas no lombo (desde o tal "descobrimento" pelos portugueses), o povo brasileiro vê fracasso até no sucesso. Claro, é mais fácil aceitar a derrota quando você a aceita antes.

Estar preparado para apanhar não deixa o tabefe mais macio e menos ardido.

Anitta faz a caminhada dela pelo mercado internacional com cautela e faz todo o sentido. É um mercado arisco à gente que não é de lá, que coloca artistas não-estadunidenses na bolha dos "latinos" ou "internacionais" justamente para se proteger.

E Larissa ainda precisa carregar um novo som junto com ela para o mercado gringo, este funk com menos tempero, mas mais palatável para bocas estrangeiras. É necessário um trabalho enorme aí.

Shakira é um grande exemplo de artista da América do Sul a conseguir emplacar na música pop internacional. Mas só chegou ao topo da parada norte-americana uma vez, com o clássico "Hips Don't Lie" (uma parceria com Wyclef Jean), de 2006.

J Balvin, ídolo mais recente, também só conseguiu alcançar o primeiro lugar uma única vez, com "I Like It" (uma parceria com Cardi B e Bad Bunny).

Devagarinho, sem querer pisar no calo de ninguém, Larissa/Anitta entra no mercado internacional do jeito que ele se apresenta e se permite. E está certíssima.

Os vira-latas que lidem com as frustrações na terapia.

Anitta fez história, portanto, em uma noite histórica.

Noite histórica porque estamos diante do acontecimento chamado Lil Nas X. Vindo de um hit extremamente popular, "Old Town Road", o rapper se mostra o artista mais lascivo, diruptivo, corajoso e impactante de sua geração da música pop.

Aos poucos, o artista deixa de ser só um "one hit wonder", nome dado àqueles com somente um sucesso, e passa a apresentar uma personalidade musical complexa, talhada por uma comunicação em redes sociais exemplar e uma transformação visual e estética de dar inveja aos artistas que, por décadas, tentam imitar Madonna.

A apresentação no VMA, com versões de "Industry Baby" e "Montero (Call Me By Your Name)", foi carregada de referências e easter eggs (que fazem um sucesso enorme entre a garotada que curte estes quebra-cabeças).

Mais do que aquecer o hype para a chegada do álbum "Montero", a ser lançado na próxima sexta-feira (17 de setembro), Lil Nas X se mostra diferenciado a pensar no além-música. Muito além. E sem medo.

Afinal, nos Estados Unidos, não existiu Nelson Rodrigues e, muito menos, o tal "complexo de vira-lata". E isso facilita muito as coisas.

Você pode reclamar comigo aqui, no Instagram (@poantunes) ou no Twitter (também @poantunes).