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Pedro Antunes

Billie Eilish acorda dos pesadelos. E a vida real segue difícil e saborosa

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

30/07/2021 00h01

Sem tempo?

  • Com uma tonelada de estatuetas do Grammy na estante, Billie Eilish tinha tudo para fazer um segundo disco que desse sequência ao primeiro.
  • Em vez disso, a artista deixou o universo onírico do trabalho anterior e, de olhos abertos, cantou a vida real.
  • Happier Than Ever é um dos discos mais corajosos do ano. Billie se doa em carne e sangue, enquanto canta com vocais surpreendentes e estimulantes.
  • Se você não se lembra o que é estar na pós-adolescência, ouça este disco.
  • Estamos diante de um dos álbuns do ano? Tenho certeza que sim.

Billie Eilish tinha duas opções diante de si. A queridinha do Grammy de 2020 poderia seguir sonhando os pesadelos intranquilos que deram luz ao primeiro e excelente álbum "When We All Fall Asleep, Where Do We Go?", de 2019.

Ou poderia acordar e dar de cara com a vida real, cruel, mas também mais saborosa.

E a jovem estrela da música pop prova, com isso, ser, a maior de sua tão jovem geração.

Fenômeno que assinou o contrato com uma gravadora ainda aos 15 e dois anos mais tarde já liderava as paradas com "When We All Fall Asleep, Where Do We Go?", Eilish criou uma estética própria com batidas graves e soturnas acompanhadas por letras sobre de saúde mental, angústias adolescentes e sentimentos agridoces.

Ganhou toneladas de estatuetas do Grammy, lotou shows em estádios e ginásios. Assisti a um show em Chicago (contei mais aqui) e vou dizer: tive completa certeza que Billie era um talento puro.

Faltava uma lapidação que nenhuma interferência externa poderia induzir. Faltava à Billie viver mais a vida e, a partir dela, ganhar a experiência necessária para evoluir como compositora e como artista.

Com a chegada de "Happier Than Ever" (via Universal Music), Billie prova ter vivido dez anos em dois, acredite se quiser.

E a temática de suas composições acompanhou a nova experiência adquirida. Impactante "Getting Older" é um petardo de voz rouca contida, quase sussurrada, sobre ser vítima em uma situação de abuso.

"Estou ficando mais velha e tenho mais peso nos meus outros, mas estou melhorando em admitir quando estou errada. Estou mais feliz do que nunca, pelo menos é isso que tenho tentado fazer"
Trecho de "Getting Older", de Billie Eilish.

Se as letras são infinitamente mais dolorosas, é importante reparar também que, agora, até os momentos mais solares são ligados aos eventos reais. Nada está mais no mundo da fantasia. Estamos diante de uma Billie com os dois pés bem fincados no chão.

Interessante pensar em "When We All Fall Asleep..." e "Happier Then Ever" como este yin-yang. Eles se completam e integram um mesmo ciclo. Um lado a noite, outro o dia. O fictício e o real. A fantasia e o concreto.

E faz sentido. Crescer é desapegar, pouco a pouco, do mundo da fantasia. Crescer é encarar a que nem tudo é o que a gente imagina. Crescer é sacar, da maneira mais dura possível, que a jornada é deliciosamente difícil, mas inevitável.

E, neste meio tempo, Billie sorri mais. E isso é ótimo (afinal, é bom lembrar que ela apareceu em clipes com lágrimas pretas saindo dos olhos). Ao se permitir viver, Billie também descobre novos sabores e novos sons.

Não por acaso os momentos mais solares do álbum também estão entre os mais brilhantes. A "bossa nova de gringo" "Billie Bossa Nova" é divertida, enquanto "Lost Cause", single lançado antes do álbum, ainda soa como uma das melhores do disco.

Fazer um segundo álbum é difícil. A pressão do mundo estava sobre os ombros de Billie Eilish, mas este peso parece ser nada se comparado com as transformações da pós-adolescência.

O ano 2021, tão estranho, merece um álbum assim. Parece solar, mas não é exatamente assim. É esse misto de esperança e desespero.

Billie Eilish fez o disco pop do ano? Fez mais do que isso. Sem cair nas imposições da indústria fonográfica de criar um segundo álbum como continuação direta da bem-sucedida estreia, a artista fez um álbum de carne e osso, com uma irresistível vulnerabilidade, batidas quentes e inevitáveis questionamentos sobre, afinal, o que é se tornar adulto?

Se você não se lembra da sensação, ouça "Happier Then Ever".