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Pedro Antunes

Música inédita de Cazuza canta o "wild side" nem tão selvagem assim do Rio

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

09/07/2021 05h58

Sem tempo?

  • Uma música inédita na voz de Cazuza? Temos!
  • Trinta e quatro anos depois de gravada, "Mina" ganha as plataformas digitais na semana em completaram 31 anos da morte do artista.
  • A faixa não é uma canção de amor, pelo contrário, é uma crônica urbana.
  • A composição, criada por Cazuza, Nilo Romero e George Israel, foi criada para o álbum de 1987, mas acabou deixada de lado.
  • Depois de ganhar versões de Leo Jaime e do próprio George Israel, a voz de Cazuza ganha as plataformas de streaming.

O dia 7 de julho tem uma melancolia, não é? Foi nesta data, em 1990, que perdemos Cazuza. É vazio que fica, mesmo, eu entendo. Sofro por ídolos que se foram, caso de John Lennon e David Bowie, como se fossem amigos perdidos. Em tempos sombrios como estes, em que a poesia do Agenor faria tão bem, a ausência parece ainda mais sentida.

Mas o 7 de julho deste 2021 trouxe uma boa notícia: uma música de Cazuza inédia na voz do artista ganharia vida em dias depois.

Esta é "Mina", faixa composta por Cazuza, George Israel e Nilo Romero, que chegou hoje às plataformas.

E não pense que mergulharemos em versos românticos, deliciosamente exagerados e hiperbólicos aqui. O que temos é um gostinho do Cazuza pés no chão, vida real, o cronista de uma noite qualquer e, ao mesmo tempo, muito louca.

"Mina" é narrada do ponto de vista de um homem moralista insignificante, que percebe ao longo da noite o próprio tamanho. Este personagem tem a voz de Cazuza, mas não entenda errado, a protagonista real da música é a garota que confronta o sujeito. Aí está a genialidade da história.

A estrela é ela, a Mina, aquela que está em outra, que vive dona do próprio nariz, íntima de quem quiser e tirando o sujeito do sério por não se submeter às imposições sociais. Rainha da barra pesada, como diz a canção.

Cazuza está na sua melhor forma. É aqui um cronista nos moldes de Lou Reed em "Walking on the Wild Side" (em uma versão menos "wild", evidentemente), retratando o Baixo Leblon dos anos 1980, a partir de uma história que vivida por ele.

Nilo Romero, responsável por produzir o álbum "Ideologia" (1988) ao lado do próprio Cazuza e o mestre Ezequiel Neves, e um dos autores da canção conta o que houve:

"Saímos pra comer uma pizza e a determinada altura apareceu um cara querendo mandar numa das meninas que estava ali. 'Esse aí me viu crescer e acha que é meu dono', ela disse. Lá pelas tantas, o cara pegou uma faca, Cazuza defendeu todo mundo, jogou uma mesa nele, o segurança chegou? Um tempo depois, veio 'Mina'."

A composição foi criada para o álbum de 1987, "Só se For a Dois", mas não entrou na versão do disco que apresentou "O Nosso Amor a Gente Inventa (Uma Estória Romântica)".

Nilo, que tocou baixo naquele disco, dá mais detalhes:

"Eu e George tínhamos uma mesinha de quatro canais, que gravava em fita cassete, e vivíamos fazendo músicas, gravando ali e dando as fitas pro Cazuza. Ele era uma usina de fazer letra. Quando ele ouvia já cantava alguma coisa na hora, levava a fita e no dia seguinte trazia a letra pronta. Podia mexer depois, mas nunca sofria pra fazer, era muito solto."

A música já está disponível nas plataformas digitais e o vídeo, assinado pelo também músico Humberto Barros, chega no YouTube a partir das 16h de hoje.

É importante dizer/lembrar que "Mina" é inédita, sim, mas na voz de Cazuza. A faixa já foi gravada por Leo Jaime, no álbum "Sexo Drops & Rock N Roll", de 1990, e Israel também gravou a canção em 2007.

Este registro de Cazuza tem um arranjo refeito pelo Nilo e traz uma vibe oitentista legítima.

Tão anos 80 e, ao mesmo tempo, tão atual. Como é bom ouvir Cazuza narrar uma história cheia de detalhes, nuances e viradas. E o conservadorismo que volte da night sozinho para casa, pois Mina estará sempre bem acompanhada dos piores tipos possíveis. Ainda bem.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado na versão original do texto no resumo inicial, a morte de Cazuza completou 31 anos, e não 21. A informação foi corrigida.