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Pedro Antunes

Martinho da Vila: Faixa a faixa de 'Rio Só Vendo a Vista'

Martinho da Vila lança o disco 'Rio: Só Vendo da Vista'
Martinho da Vila lança o disco 'Rio: Só Vendo da Vista'
Leo Aversa / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

20/11/2020 12h00

Martinho da Vila ri ao saber que São Paulo estava nublado naquele início de tarde de terça-feira (17). "Vem logo para o Rio, rapaz", diz ele, do outro lado da linha.

Apaixonado pela cidade, Martinho criou o novo álbum, "Rio: Só Vendo a Vista" (Sony Music), lançado nesta sexta (20) - e destaque do Sextou (lista com os lançamentos mais quentes da semana daqui do UOL Splash), em homenagem ao Rio de Janeiro.

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Difícil não se empolgar com a paixão com a qual Martinho canta (e fala) sobre a cidade que o acolheu aos quatro anos de idade, vindo de Duas Barras, no interior do estado.

"O Rio de Janeiro é uma cidade tão alegre, mas ultimamente tem estado tão triste. O mundo está triste"
Martinho da Vila

Martinho iniciou o álbum "Rio: Só Vendo a Vista", faz "quase dois anos", ele conta. A ideia era que o álbum saísse mais cedo, ainda em 2020, mas a pandemia do novo coronavírus mudou todos os planos.

"A Sony [Music] decidiu fazer um lançamento digital agora com esse disco, e eu achei ótimo", diz Martinho. Com ele, realmente, não tem estresse.

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Perguntei ao sambista como um álbum sobre o Rio de Janeiro criado quase dois anos atrás faria sentido em um 2020 tão maluco, politicamente, sanitariamente, enfim, vocês sabem que se contassem que este ano seria assim, ninguém acreditaria.

"Se encaixa perfeitamente, porque é um disco que fala do Rio." Martinho faz uma pausa e volta: "Porque a intenção é falar do Rio de Janeiro, mas não uma exaltação ao rio. A gente foi colocando outras ideias e tal. Então, está enquadrado."

É, acima de tudo, um disco afetivo para Martinho da Vila. Além da temática, é um disco que tem música criadas em parceria com o antigo companheiro Candeia, morto em 1978, e tem a participação dos sete dos oito filhos - inclusive, a estreia da filha caçula Alegria. O clã está quase completo.

"Gosto de estar com eles", explica Martinho. "Só o Tunico não participou porque se mudou para Vitória [no Espírito Santo] e eu precisava terminar o disco. Acabou que não precisava dessa pressa toda [risos]."

Abaixo, Martinho da Vila explica, faixa a faixa, as inspirações, detalhes e segredos de "Rio: Só Vendo a Vista", o novo álbum dele, lançado nesta sexta-feira (20).

Vamos lá?

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Capa de 'Rio: Só Vendo a Vista' - Reprodução - Reprodução
Martinho da Vila lança o disco 'Rio: Só Vendo da Vista'
Imagem: Reprodução

1) 'Vila Isabel Anos 30'

"Pensei muito no Rio de Janeiro dos anos 1930, o período áureo da cidade. Tudo acontecia por aqui. E eu fiz esse samba enredo pra [Unidos de] Vila Isabel, não tinha gravado ainda. Era um Rio de Janeiro de boêmios e intelectuais. Todo mundo vinha para cá, era um tempo bom.

2) 'O Rio Chora, o Rio Canta'

"Esse era para ser o samba-enredo do ano passado, que a Vila Isabel apresentou um enredo sobre Brasília. Resolvi fazer uma história do Rio de Janeiro, de quando deixou de ser a capital, mas ganhou o título de estado da Guanabara. O Rio chorou e depois riu."

"Como essa é uma música que fala do pandeiro, nós colocamos ele como figura central. Ele é muito evidente nesta música."

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3) 'Rio: Só Vendo a Vista'

"Fiz a melodia, mandei para o Geraldo Carneiro. É uma música que fala do Rio, mas não de uma maneira só de exaltação, sabe? Fala da Zona Norte, da Zona Sul, é um passeio pelo Rio de Janeiro. Cada um pode fazer a própria leitura."

Se você pensar, o título tem múltiplos significados, né? Pode ser algo como "dou risada só de ver a vista da cidade" ou "só vendo o Rio de Janeiro se for pagamento a vista", entre outros.

4) 'Minha Preta, Minha Branca'

"A minha esposa Cleo, que te atendeu, é conhecida como a Preta, aqui, na intimidade da família. Não fui eu quem colocou o apelido nela, é coisa da família dela. Queria agradá-la, então fiz a música e mandei para ela por e-mail"

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"E agradou?", pergunto.

"Ela adorou. Agradou muito! [risos]"

5) 'Na Ginga do Amor'

"Essa é uma música divertida. Fiz a letra e o Moacyr Luz fez a melodia. Pensei nos [músicos] Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Vi no YouTube um videozinho com eles três, tentado dançar, cada um da sua forma. São três cariocas, então a música está inserida na ideia do disco."

6) 'Você, Eu e a Orgia'

"Essa é uma parceria que fiz com o Candeia. Quem lançou essa música foi a Beth Carvalho [sambista morta em 2019]. Eu não tinha gravado ainda. É inédita na minha voz. Analimar, Mart'nália, Maíra e Juliana, minhas filhas, versam comigo."

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7) 'O Caveira'

"A imagem do 'caveira' não é criadas por mim. Minha mãe falava: evite dívida, pedir dinheiro emprestado só morrendo, porque a capa pessoa que você deve é uma caveira que te assusta'. E é verdade."

"Se a gente deve para alguém e está feliz das vida em algum lugar, daí o credor chega e te assusta. Convidei a Veronica Sabino e ela faz uma bela participação."

8) 'Pensando Bem'

"A Veronica também participa dessa música. São duas faixas que mantêm um diálogo entre marido e mulher, né? Coloquei ela aqui também e foi uma perfeição."

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9) ' Menina de Rua"

"O disco vem na alegria, vai para a brincadeira com 'O Caveira', fica sério com 'Pensando Bem'. 'Menina de Rua' é mais dramático, é um retrato do Rio de Janeiro. A Mart'nália quase tudo, eu só faço umas intervenções. Ela tem uma voz maravilhosa, canta qualquer coisa. É incrível"

"Pensei que se queria fazer um retrato do Rio, deveria colocar esse lado também. Tinha feito essa música há um tempão, quando eu e o Rildo Hora fizemos músicas com a intenção de fazer um musical infantil. Mas as minhas letras ficaram pesadas. Quem sabe um dia a gente faz."

10) 'Eterna Paz'

"Depois dessas músicas mais sérias, dramáticas, chega essa outra música que fiz com o Candeia. Ele chegou com essa melodia, disse que gostava quando eu fazia aquelas letras românticas. Demorei para trabalhar na música, mas não ficou romântica, mas ficou sentimental."

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11) 'Assim Não Zambi'

"A Maíra Freitas é a minha filha mais culta musicalmente, em termos acadêmicos, é formada, maestrina, pianista clássica e popular. Ela chuta, cabeceia e agarra no gol. Pedi para que ela fizesse 'um arranjozinho' dessa música e chamei-a para cantar junto. Ficou maravilhoso."

12) 'Umbanda Nossa'

"A umbanda é uma religião brasileira criada no Rio de Janeiro, então ela também se enquadra muito bem no espírito do disco. O samba nasceu dos batuques da umbanda, nos terreiros."

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E, assim, chega ao fim "Rio: Só Vendo a Vista", certo, Martinho?

"Saímos de Vila Isabel e chegamos aos terreiros de umbanda", ele diz.

E ri, claro.