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Pedro Antunes

Filme de David Bowie: sem sal e a culpa é de Bohemian Rhapsody

Johnny Flynn é David Bowie em Stardust - Divulgação
Johnny Flynn é David Bowie em Stardust Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

29/10/2020 06h45

Sem tempo?

  • David Bowie ganhará uma cinebiografia não-autorizada: 'Stardust'
  • E, logo no primeiro trailer, o filme desagradou
  • Houve quem culpasse o ator Johnny Flynn, que vive David Bowie em 'Stardust'
  • Mas o problema vai além: é a 'higienização das histórias do rock'
  • E a culpa, pessoal, é do filme 'Bohemian Rhapsody'

Em pouco mais de 2 minutos de trailer, o filme Stardust, a cinebiografia não autorizada de David Bowie já incomodou muita gente. O que é justo. Sobram críticas até ao ator escolhido (Johnny Flynn, protagonista da série inglesa disponível na Netflix Lovesick), mas ele está longe de ser o problema.

A questão está mais na raiz do filme. No conceito de cinebiografias sem sal, com excesso de açúcar.

Assistir ao trailer de "Stardust" é como pedir um belo prato de macarrão em um restaurante e o molho de tomate vir doce demais. Cadê o sal? Por que tanto açúcar para tirar a acidez desse molho?

Vou deixar o trailer para vocês assistirem também, caso queiram:

A higienização das trajetórias do rock

E a culpa por essa limpeza das histórias dos ícones da música, uma espécie de "filtro Disney" que deixa tudo mais colorido, menos polêmico e mais romantizado, é de "Bohemian Rhapsody".

Depois que a história de Freddie Mercury e do Queen, filme de 2018, ganhar tantos prêmios (inclusive 4 estatuetas do Oscar, uma para o ator que viveu o vocalista Rami Malek) e bater a marca de mais de US$ 1 bilhão em arrecadação de bilheteria ao redor do mundo, esse se tornou o novo padrão.

A realidade é que "Bohemian Rhapsody" é um filme medíocre em termos de cinema, mas que conquista corações já conquistados pelas músicas e história do Queen. Era um jogo ganho, daqueles que só se perde se você realmente entregar a bola para o adversário e disser: "Pronto, agora faz um gol contra a gente".

"Bohemian Rhapsody" entregava falhas de roteiro (pra quem curte cinema e não a banda) e falhas históricas (para quem curte a banda e não cinema). Para quem amava ambos, o problema é ainda maior.

O filme de Freddie Mercury e Queen abriu uma porteira para a higienização das histórias da música. E isso é, realmente, perturbador. Personagens humanos se tornam mitos em jornadas bregas de reconstrução.

Freddie Mercury era um alguém muito mais complexo do que Rami Malek e os roteiristas de Bohemian Rhapsody fizeram parecer.

E o Elton John?

O mesmo aconteceu com a história de Elton John nos cinemas. O filme "Rocketman", que tinha uma participação mais ativa do próprio astro inglês, minimiza todos os problemas com drogas e álcool. E, pior, romantiza essa parte da narrativa quando ela surge, como se quisesse dizer: "Viu só como falamos sobre as drogas?".

Para quem queria algo mais próximo da realidade, como o título "cinebiografia" sugere, isso passa longe.

Sobrou para o Camaleão

E aí chegamos em "Stardust", filme cuja ideia é mostrar o nascimento do personagem Ziggy Stardust, de David Bowie, lançado com o álbum "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", de 1972.

É um recorte histórico definitivamente bem "Disney" da história de Bowie, das inúmeras tentativas do artista (antes conhecido como Davy Jones) de alcançar a fama. E as muitas derrotas também.

Antes de Ziggy Stardust, o personagem alienígena deliciosamente andrógino que vinha ao planeta Terra para se tornar um grande rockstar, Bowie levou inúmeras pancadas da vida. Obteve sucesso, também, como com a música "Space Oddity", na qual apresentava o primeiro personagem de sucesso dele, o Major Tom, astronauta cuja missão espacial tem um final trágico.

Teriam outros recortes melhores para entender a vida de Bowie? Sim. Nos meados dos anos 70, quando o abuso de cocaína o levou a fazer um "retiro" em Berlim e lançou uma trilogia de álbuns experimentais - e icônicos, "Low" (1977) "Heroes" (1977), "Lodger" (1979).

Ou mesmo os últimos anos de vida de Bowie, quando ele decidiu se afastar dos palcos ao ter um problema cardíaco diagnosticado, mas voltou uma década depois com o álbum "The Next Day" (2013) e o último da carreira, "Blackstar" (2016), lançado poucos dias antes de morrer.

O que assistimos no trailer

Infelizmente, o que o trailer de "Stardust" mostra está longe de ser fascinante como a trajetória real de David Bowie. O vídeo mostra a relação do astro em construção com o executivo Ron Oberman (interpretado pelo incrível Marc Maron), alguém com importância na construção de ídolos como o próprio Bowie e Springsteen, e a chegada dele nos Estados Unidos.

Sem os recursos lúdicos exibidos em "Rocketman" desde os primeiros vídeos e distante da grandiosidade exagerada de "Bohemian Rhapsody", "Stardust" apresenta um Bowie assustado e frágil.

"Tenho medo", ele diz. Oberman, então, sugere que o artista se transforme em outra pessoa. Mesmo se fosse uma cena real, é imensamente frustrante perceber que a construção de um dos personagens mais fascinantes da música pop, o Ziggy Stardust, se reduzisse a isso.

Poderia ser o trailer de um filme da Sessão da Tarde qualquer, no fim das contas, e não uma história sobre David Bowie. As inúmeras transformações daquele que foi chamado de Camaleão ofereceriam um caráter fantástico à história.

Na previsível ideia de mostrar um universo "realista", damos de cara com rapaz sem graça em busca da fama como artista. O trailer também não emociona o suficiente para a gente comprar essa ideia.

Dá tempo de trocar?

David Bowie é o personagem mais fascinante entre os gigantes da música pop. Sofreu quedas terríveis com o abuso de drogas e álcool. Transformou sua música e, a cada uma delas, mudaram também a moda, o rock, o pop, a dance music.

"Stardust" soa como um filme de origem limpinho demais, um reflexo do movimento das cinebiografias de sucesso (entenda-se: boa grana vinda da bilheteria) de Freddie Mercury e Elton John.

Pouco sal e com excesso de açúcar.

"Garçom, você se importa de trocar esse prato pra mim?"

Disponível na 44ª Mostra de Cinema

"Stardust", é bom lembrar, também está dentro da programação digital da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com ingresso virtual a R$ 6. O filme está disponível até o dia 5 de novembro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.