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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Esquecemos do que há entre o excelente e o horroroso?

Pintura de Jacob Cornelisz. - Reprodução
Pintura de Jacob Cornelisz. Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

25/04/2022 04h00

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Gosto de um vídeo da participação de Chico Buarque numa Flip. Nele, o escritor e compositor fala sobre o gosto por ler seus pares contemporâneos. Também tira um barato de quem diz dedicar o tempo apenas a Flauberts, Kafkas e Dostoiévskis da vida. É uma mensagem importante. Ninguém se torna um grande apenas por conta dos livros publicados. São as leituras, o registro de impressões, os olhares críticos que, com o passar dos anos, transformam o sujeito num imortal da literatura. Pode ser tarefa de bons leitores olhar para o que está sendo feito no seu tempo, tentar identificar potências e contribuir para que novos gigantes se ergam. Rigor e certo ceticismo são bem-vindos nesse processo invariavelmente moroso.

Outro lado. Conversa sobre o Nobel de Literatura. Entre elogios e pedradas nas decisões da Academia Sueca, compartilhava algumas de minhas impressões. Agraciado para quem jamais daria o Prêmio? Pablo Neruda, o cafona. Nobelizado que não me desperta interesse algum? Patrick Modiano, o insosso. Brasileiro que mereceria ganhar o Nobel? Bem, dos históricos temos vários, mas questionaram quem poderia ser dentre os escritores vivos. Milton Hatoum, Conceição Evaristo e Alberto Mussa, nomes lembrados. Improvável a vitória? Certamente. Daí alguém tirou da cartola: e o Itamar Vieira Junior?

Pô, vamos com calma. Não convém passar a vida sentado sobre a obra de escritores já consagrados, mas não é porque alguém desponta com um bom romance e conquista centenas de milhares de leitores que devemos achar esse autor, ainda em começo de carreira, já merecedor do maior prêmio do universo literário. A empolgação, no entanto, está em consonância com a maneira deslumbrada que há na recepção de diversos autores - e não só autores, os exageros parecem marcar o nosso tempo.

Lembro tudo isso por conta de mais um nome que chega ao Brasil apontado como fenômeno literário. O da vez é Benjamín Labatut, mas já foram outros, como recordei na última coluna. É um alarde que faz bem para a divulgação do livro e, como disse, capta uma festividade pouco crítica bastante na moda em redes sociais e botecos. Tanto em um quanto em outro, parece que tudo (de escritores a jogadores de futebol) passou a ser dividido entre o que é uma porcaria, um lixo, um horror e o que é incontornável, imprescindível, magnífico, fenomenal.

Perdemos as nuances? Perdemos a noção? Ninguém mais é razoável? Ninguém pode ser fraco sem ser horrível? Não há como falar que um livro é ótimo sem colocar o autor como o grande nome a ser lido urgentemente por todos os leitores do país? Às vezes parece que definir um livro - ou qualquer outra coisa - como bom é quase que dizer que o troço é sem graça, tedioso. Para muitos, o bom virou sinônimo de insignificante, dispensável, evitável. Querem o auê abobalhado. É uma pena. Como alguém que, por obrigação, lê muito, digo: ser bom já é coisa pra caramba.

Estou com Chico: ler nossos contemporâneos é fundamental. Mas olhar para essa produção com calma, razoabilidade, evitando adesismos tolos e, principalmente, dispensando rotulagens que pouco dizem sobre literatura também é importante. A construção e a compreensão do tamanho de um autor são processos muito mais lentos do que o exigido pelas planilhas, pelas redes sociais e pelos leitores mais preocupados com etiquetas do que com a arte.

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