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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ignore o Luciano Huck e confie em mim: 7 biografias que valem a pena

Carolina Maria de Jesus - Acervo UH/Folhapress
Carolina Maria de Jesus Imagem: Acervo UH/Folhapress
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

15/09/2021 10h05Atualizada em 16/09/2021 09h25

Luciano Huck insiste para que as pessoas leiam o livro dele. Segundo o colega Maurício Stycer, já foram quatro os domingos em que o apresentador indicou a própria obra na televisão. Em "De Porta em Porta" (Objetiva), o homem que até outro dia tinha dúvidas se pegava o lugar do Faustão na Globo ou tentava substituir Bolsonaro em Brasília reúne suas memórias e "faz um chamado à responsabilidade de cada um de nós pelo cuidado com o mundo" (é o que está na descrição do produto). Vale a pena? Tenho minhas dúvidas.

Ruy Castro, mestre no assunto, é taxativo: biografia só de gente morta. Não sou tão radical. Entendo que registros biográficos de pessoas vivas podem ter seu valor, seja de autoria de terceiros ou do próprio protagonista. Pondero: fora uma exceção ou outra, como o ótimo "Instrumental", de James Rhodes (Rádio Londres), convém que o biografado ou autobiografado já tenha trilhado a maior parte de sua trajetória. Quando Jô Soares se aposenta e resolve registrar suas lembranças, acerta no momento.

Mas há um outro tipo de história biográfica que tem circulado bastante pelas nossas livrarias. São obras que partem das memórias ou trajetória de vida de certas celebridades para, pesando a mão em alguns pontos e ignorando outros tantos, estabelecer certa imagem do sujeito.

Num mundo de "influencers", vende-se ao leitor a forma como aquela pessoa deseja ser vista e a potenciais clientes uma pataquada supostamente bem-sucedida ao qual podem associar marcas e projetos. "Os Dias Mais Intensos" (Planeta), memórias de Rosangela Moro ao lado de Sergio Moro (que indiscutivelmente merecerá uma biografia bem feita no futuro), e "Tem que Vigorar", de Gil do Vigor (Globo), são exemplos de trabalhos desse tipo.

É essa propaganda biográfica que encontramos no livro de Huck? Não li, não sei. Mas se é história de vida que o leitor quer, tenho algumas boas recomendações.

Começo por "O Tiradentes - Uma Biografia de Joaquim José da Silva Xavier", de Lucas Figueiredo (Companhia das Letras). De cara, é um livro que impressiona pela forma como leva o leitor a cidades mineiras do final de século 18. Por meio da trajetória do revolucionário, temos uma viagem no tempo na qual encontramos gente que tentava livrar o país das mãos da Coroa Portuguesa enquanto ideais iluministas começavam a se espalhar pelo Ocidente.

Biografias - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

A história de Carolina Maria de Jesus também começa por Minas Gerais e está muito bem contada em "Carolina: Uma Biografia", de Tom Farias (Malê). Escritora que levou o duro cotidiano da favela do Canindé, em São Paulo, para livros como o incontornável "Quarto de Despejo", Carolina tem uma história de vida marcada pelos conflitos, preconceitos, sacanagens e injustiças que persistem em nossa sociedade.

São problemas que também aparecem tanto na obra quanto ao longo da trajetória de Jorge Amado, que teve a vida contada por Joselia Aguiar em "Jorge Amado: Uma Biografia" (Todavia). O predomínio é da literatura no livro sobre o autor de "Capitães da Areia", mas também há muito sobre as tensões políticas do país ao longo do século 20 e da relação de Jorge, que chegou a ser deputado federal eleito pelo Partido Comunista Brasileiro, com diferentes vertentes da esquerda e com nomes importantes de outros lados do espectro político.

Agora, se o leitor está em busca de uma biografia profundamente marcada pela política, daí a dica é "Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo", de Mário Magalhães (Companhia das Letras). Não, não é preciso ser socialista, comunista, petista ou qualquer coisa do tipo para se interessar pela vida do também escritor e ex-deputado federal. Após ter seus direitos suprimidos, Carlos Marighella rumou para a luta armada contra o Estado. A biografia é uma grande narrativa sobre o homem que avisou: "Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação [?.] ou se conformam com ela. O conformismo é a morte".

Para aliviar o clima sem abobalhar nas indicações, títulos sobre dois grandes artistas. "Prólogo, Ato, Epílogo", afetivo livro de memórias de Fernanda Montenegro escrito em parceria com Marta Góes (Companhia das Letras), carrega em si, além de passagens marcantes da vida da atriz, muito da história do teatro no Brasil. Já "Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelson Motta (Objetiva), reúne uma grande história de vida contada com uma pegada bastante autoral e com boas doses de escracho. É das biografias mais divertidas que conheço.

Para fechar a lista, não perderia a chance de recomendar "Leonardo Da Vinci", história do grande nome do Renascimento escrita por Walter Isaacson (Intrínseca), um dos biógrafos mais incensados da atualidade. Além da imersão naquela Europa dos séculos 15 e 16, é ótimo ver como o gênio que pintou "Monalisa" vivia entre dúvidas e perrengues. Num momento de utilitarismo talvez excessivo, no final do volume o autor ainda reúne lições que podem ser aprendidas a partir das experiências do italiano.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL