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Bajulação e propaganda: o livro de Rosangela Moro sobre Sergio Moro

Ronsagela Moro e Sergio Moro - Pedro Ladeira/Folhapress
Ronsagela Moro e Sergio Moro Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

25/11/2020 09h53

Escrever as próprias memórias ao lado de uma figura pública de relevância é um trabalho sempre delicado. Em "Minha História" (Objetiva), por exemplo, Michelle Obama se sai relativamente bem. Não fica à sombra de seu marido, Barack Obama, e tem coragem de apresentar alguns conflitos, contradições e elementos menos nobres do passado de ambos. Peca, porém, ao contornar temas realmente importantes, como estar ao lado do presidente que manteve os Estados Unidos em guerra permanente durante oito anos, desestabilizando e destruindo países, despejando bombas até em hospitais.

Diferente de Michelle, Rosangela Moro não almejava traçar a própria biografia tendo o marido como um importante coadjuvante. Ao ler "Os Dias Mais Intensos - Uma História Pessoal de Sergio Moro", fica claro que a advogada registra, acima de tudo, sua visão da trajetória do ex-juiz, ex-ministro e ex-pilar de sustentação do governo de Jair Bolsonaro. Nesse ponto, como o subtítulo indica, a obra que acaba de sair pela Planeta é honesta. Ninguém comprará o relato supondo estar diante de um livro com alguma isenção, me parece.

Mesmo num trabalho chapa branca, normalmente há a tentativa de colocar elementos aqui ou ali para disfarçar a subserviência da narrativa. Em alguns casos, o leitor atento até consegue pescar algo mais interessante nas entrelinhas. Não é o caso de "Os Dias Mais Intensos". A vontade de projetar Moro como um ser etéreo, um bastião da moral, a retidão encarnada num corpo humano, não deixa espaço para questões mundanas ou eventuais deslizes. Contradição, então, parece ser algo que jamais fez parte da vida de Sergio Moro - ou da vida de Sergio Moro na visão de sua esposa.

Rosangela pinta o marido como um homem praticamente infalível. Um imparcial que nunca aceita nada de ninguém. Alguém que jamais sai da linha e toca os dias com uma retidão capaz de fazer inveja aos mais caricatos heróis da ficção. Se integrou o governo de alguém com um histórico tão repugnante como o de Bolsonaro, é porque acreditou no papo de governo técnico que salvaria o Brasil. Se há suspeitas e denúncias sobre a Lava Jato, a simples palavra do juiz é suficiente para que Rosangela se tranquilize. Afinal, o homem não comete desvios - na ótica da autora, reitero.

Os Dias Mais Intensos - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

São muitas as páginas que Rosangela gasta para pintar Moro como um cara família. O incômodo com seguranças particulares e preocupações financeiras (mesmo com o marido recebendo o teto do funcionalismo público, então por volta de R$30 mil, mais uma série penduricalhos e Rosangela recusando salários de R$20 mil) tentam colocar o ex-ministro próximo do mundo ordinário. As homenagens e a projeção internacional que Moro alcançou são exaltadas com a mesma intensidade usada pela autora para nos fazer crer que o ex-juiz é desprovido de qualquer traço de vaidade. Palavras como "transparência" são exaustivamente marteladas, bem como as preocupações com a "agenda anticorrupção e anticrime organizado e violento".

Não bastasse esse olhar, digamos, apaixonado demais, Rosangela ainda desperdiça a chance de explorar momentos que poderiam ser interessantes aos leitores. Em diversas situações, indica que algo ocorreu, mas não entra nos detalhes que interessam. Um exemplo. Em 2019, após o Fórum Econômico Mundial em Davos, "segundo Moro, o tema que dominou a atenção do Presidente na viagem de volta foi a saída do Brasil do Deputado Federal Jean Wyllys, desafeto de Bolsonaro". E é tudo. O que foi dito? Em quais termos? Com qual tom?

"Os Dias Mais Intensos" ainda é recheado de frases de efeito que parecem tiradas de uma peça publicitária. "Moro não brinca em serviço e não poupa ninguém no que diz respeito ao alcance da lei", lemos num momento. "Eu acho constrangedor ver como algumas pessoas perdem a essência na disputa por cargos, matam seus valores e dignidade. Graças a Deus, nós não fomos criados assim", encontramos em outro. Uma terceira talvez abra portas para eventuais reaproximações: "Moro não leva nada para o lado pessoal, tampouco cultiva animosidades".

Mais do que um livro chapa branca, "Os Dias Mais Intensos" soa mesmo como parte da campanha do político Sérgio Moro. É um livro que sai em 2020 mirando 2022.

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