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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Carolina de Jesus, a fome e um povo que só é feliz quando dorme

Carolina Maria de Jesus - Acervo UH/Folhapress
Carolina Maria de Jesus Imagem: Acervo UH/Folhapress
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

21/04/2021 10h06

"15 de julho de 1955 - Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimenticios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar".

Sonho, frustração, o peso do sistema em forma de garrote econômico, revolta, o improviso como única saída possível, a tensão da linguagem. O primeiro parágrafo de "Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada", de Carolina Maria de Jesus, pode estar em qualquer seleção de grandes inícios da literatura.

Livro responsável por projetar Carolina, uma das escritoras fundamentais de nossa história, "Quarto de Despejo" nasce de registros feitos em seus diários entre 15 de julho de 1955 e 1º de janeiro de 1960. Moradora da favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, a autora tinha a literatura como uma paixão e confiava na escrita para registrar e escancarar o que presenciava e vivia. A edição da obra que tenho em mãos, publicada pela Ática em 2020, respeita a linguagem utilizada por Carolina, como vocês podem notar nas aspas selecionadas.

De alguns meses para cá, "Quarto de Despejo" não sai da minha cabeça. Talvez ninguém tenha escrito com tanta pungência e propriedade sobre a fome. Carolina nos apresenta uma vida condicionada a, basicamente, procurar por comida. Penso na autora e no livro a cada vez que vejo uma das muitas mensagens em redes sociais de pessoas pedindo ou propondo doações de alimentos.

É inacreditável que um país saia do Mapa da Fome e poucos anos depois volte bovinamente a ver sua gente sem ter o que comer. Dados indicam que no último trimestre de 2020, mais de 125 milhões de brasileiros passaram fome ou estiveram na iminência de passar fome, sem saber se teriam comida na mesa ou poderiam comer decentemente num futuro quase imediato. Pelo nosso constante degringolar, podemos imaginar que o quadro piorou. Como escreveu a colega Keit Lima ao também relacionar a tragédia à obra de Carolina: é preciso um grito de socorro.

Quarto de Despejo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

É a fome que dita o ritmo de "Quarto de Despejo". Por meio do diário, notamos vidas amarradas à necessidade de suprir a necessidade elementar. Para colocar alguma comida na boca de seus filhos e, quem sabe, também conseguir comer algo, Carolina recolhia lixo da rua e coletava materiais recicláveis. Sua literatura mostra uma miséria repetitiva, cotidiana, com dias muito iguais, mas cada vez mais cansativos, mais desgastantes, mais frustrantes. O mal da fome é acumulativo.

Nas páginas encontramos gente que vasculha o lixo de frigoríficos em busca de algum descarte de carne e se decepciona ao receber sádicas doações com ratos mortos embrulhados em papel. "O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada. Temos que imitar os animaes", constata a autora que não esconde seus pensamentos suicidas. Em outro momento, Carolina questiona se Deus sabe das pessoas que passam fome nas favelas. Olhando aqui ao redor, é de se espantar que mais crentes não tenham (ou não manifestem) a mesma dúvida.

Há o sonhar com um bacalhau, a felicidade de conseguir comprar uma carne, a alegria de cozinhar um feijão, mas mesmo os momentos de certo alívio de Carolina são muito duros. "Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha. Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé. Estou com frio. E graças a Deus não estamos com fome. Hoje Deus está ajudando-me".

Problemas estruturais do país, como a miséria, a violência e o racismo ("que Deus ilumine os brancos para que o pretos sejam feliz"), e fantasmas que voltam a nos assombrar, como a inflação ("O açucar aumentou. A palavra da moda, agora, é aumentou. Aumentou!"), também são tratados pela escritora. Outra questão familiar é a descrença com o sistema político. Cansada do descaso aos pobres e de ver candidatos dando as caras na favela apenas para pedir votos, em certo momento Carolina, que tinha um olhar atento para os mandatários, trata as eleições como um "cavalo de Troia que aparece de quatro em quatro anos".

Não é por acaso que a autora, seis anos antes do golpe de 1964, escreve: "A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso país tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia". Ouço ecos desse discurso a cada vez que ligo a televisão ou vou até a esquina. Tem uma outra frase de Carolina que parece feita sob medida para os nossos tempos: "O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL