Luciana Bugni

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Opinião

Natuza Nery não deixa herança a filho: o que você não vai fazer pelo seu?

Se tem um ponto comum nas rodas de mães maduras, é começar a conversa com a pergunta "onde foi que a gente errou?". Falar mal da geração Z é um desabafo que depõe contra os próprios educadores. Se meu filho não está correndo atrás da vida agora, como eu corri com a idade dele, fui eu que errei?

Não raramente, chegamos à conclusão que demos demais para a classe média nascida nas últimas duas décadas. O resultado, a gente vê nos corredores de nossos escritórios: é frequente ouvir relatos de reclamações sobre a nova geração não se concentrar, não prestar atenção, não aceitar crítica. Que tipos de valores passamos para essa turma?

Natuza Nery, a comentarista de política da Globo, deu sua solução dela no Papo de Segunda, da GNT. Já avisou que vai investir na educação do filho, mas ele não vai contar com a herança — tudo será gasto em vida. Ou seja, ou ele corre atrás de manter o patrimônio, ou... não tem outra opção.

O que você NÃO vai fazer pelo bem do seu filho?

Parece um jeito radical de lidar com a falta de ambição do que a gente chama de "criançada" mesmo depois de virarem adultos. Mas tem outro jeito?

Somos de uma geração que cresceu querendo comprar um carro e sair de casa. Para isso, ditava o capitalismo, era preciso trabalhar. O sistema ainda dita suas regras, mas a galera nem pensa em sair de casa. Deitados nos oceanos que viraram suas próprias camas e sofás, é possível navegar letargicamente na horizontal. Você quer sexo com uma mulher ruiva? Tem na internet. Você quer ver sua banda favorita? Tem no YouTube. Você quer procrastinar sua vida por 15 horas por dia? Tá fácil. Entra no TikTok.

Essa semana fui arrebatada pela sugadora leitura de Nação Dopamina, livro de Anna Lembke que descreve a ação das substâncias viciantes em nosso cérebro. De maconha e vapes aos iphones e videogames, não há como fazer com que o jovem entenda o quanto está escravizado pelo próprio prazer, porque seu cérebro foi alterado — com nosso consentimento — nos últimos anos. Seria uma educação rígida como a que tivemos a solução? Seguramente é uma forma de fazer com que entendam que existe a frustração, mas não dá para saber se é a maneira ideal de tocar esse barco.

Falar de ambição financeira parece uma solução triste para os valores que sonhamos em passar para nossos filhos. Miramos no ajudar ao próximo, acertamos no "levanta daí e vai trabalhar para poder comprar seu próximo iPhone". Será que foi a certeza de que não teria esses privilégios em casa que me impulsionaram a sair aos 17 anos para trabalhar — coisa que faço todos os dias desde então?

O filho de Natuza cresce cercado de privilégios. Como ensinar que é preciso se esforçar quando é possível levar o jovem para passar as férias fora do país? Deve haver um jeito de mostrar, pelo exemplo de nossa batalha diária, que nada vem fácil. Todos os pais com quem converso sobre o assunto parecem tão perdidos como eu. Por quanto tempo a gente consegue manter esse celular na bolsa no restaurante enquanto entretém de maneira lúdica uma criança entediada? E precisa entreter? Será que não é assim que a gente começa a explicar que a vida também tem frustrações e que a formação do caráter depende delas? E como não deixar a peteca cair quando tudo o que quero é sentar e relaxar como a adulta que sou e mereço?

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Não deixar herança, não permitir que use o celular na infância, não deixar que passe o dia deitado na juventude... Tantos nãos desequilibram a harmonia familiar em um tempo em que não temos disponibilidade ou disposição para conflitos.

Educar é difícil. Negar é amor. Limite é formação de caráter. E eu tento evitar, mas acabo citando o poeta: disciplina é liberdade.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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