Luciana Bugni

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Opinião

Quantas mulheres precisam morrer para que obsessão por imagem magra acabe?

A última foto que a assistente de palco do SBT Lu Andrade postou estampa a academia que ela frequentava. A legenda afirma que ali é seu lugar favorito em São Paulo. O post foi feito 24 horas antes de seu falecimento em decorrência de um procedimento cirúrgico estético no hospital São Luís. O boletim informa que ela não resistiu a uma das paradas cardíacas antes da operação.

É difícil não se incomodar com o próprio corpo em um tempo que a comparação com tais shapes impossíveis de se alcançar chega o dia todo, pelas redes sociais. Lu Andrade queria mais. Ser mais magra, mais bonita, mais forte, mais gostosa? Não se sabe. Nos comentários de suas últimas postagens, os fãs lamentam a perda com mais estereótipos: "Ela já era magra", "Fez plástica por que se tinha esse corpo perfeito?", dizem.

Ué, se ela fosse gorda, tudo bem morrer para ter um corpo diferente? Se ela tivesse mais de 40 anos, seria plausível morrer para retirar rugas?

A publicidade vende um padrão que nem todo mundo tem e qualquer manequim diferente pode parecer "errado". Lu Andrade estava incomodada, apesar de ter as curvas e a magreza que muita gente almeja. Não é a primeira — há muitas histórias de mulheres que passam por procedimentos violentos para conquistarem corpos inalcançáveis. Na televisão, então, a obsessão triplica. Não há dançarinas ou assistentes de palco gordas, ou velhas.

E mesmo que o conceito plus size esteja sendo difundido há mais de dez anos, ainda se nota um certo padrão ali: até o corpo da modelo americana Ashley Graham tem o formato violão, o rosto é fino, sem papada... É diferente das mulheres magérrimas, sim. Mas nem por isso fácil de se conquistar.

Ashley se diz satisfeita em ser fora do padrão, mas ostenta uma cinturinha de pilão espremida num espartilho em uma revista de moda brasileira. Fora de que padrão? Da Barbie que não é, parece muito a cintura da boneca, inclusive.

Não dá para dizer que as Lus que passam horas na academia estão erradas — esporte e musculação são, inclusive, a chave para uma vida mais feliz e saúde mental em dia. Mas cada vez que alguém morre por querer ter uma aparência diferente, vem uma tristeza coletiva de pensar para onde estamos indo.

A ex-modelo Claudia Liz entrou em coma em 1996 após uma lipo. No meio da febre das plásticas dos anos 1990, foi um choque ver que a vaidade oferecia risco de morte. Ela sobreviveu, hoje é artista plástica e diz que vive de maneira saudável para seu bem-estar. Mudar o corpo? Nem pensar.

Na mesma época, Xuxa passou por operação para colocar silicone e "ganhou" várias plásticas durante o período anestesiada. Ela só falou sobre isso mais de 20 anos depois e até hoje lida com um corpo que não é o dela porque foi transformado. Até onde o estereótipo pode ir?

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No caso de Lu, foi longe demais para voltar atrás. Uma pena. Você pode discordar de mim no Instagram.

PS: Esse texto foi escrito a partir das sempre ótimas conversas com a jornalista Camila de Lira.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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