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Leonardo Rodrigues

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A história da ultrassecreta coleção de LPs escondida pela Casa Branca

O álbum Blood on the Tracks, de Bob Dylan - John Chuldenko
O álbum Blood on the Tracks, de Bob Dylan
Imagem: John Chuldenko
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

19/05/2022 14h50

Durante a administração de Barack Obama (2009-2017), uma notícia atiçou curiosos e colecionadores. Entre os corredores da Casa Branca, local de decisões que mudaram a história americana e do mundo, existe uma ultradescolada e secreta coleção de discos de vinil, com milhares de fantásticos LPs.

Mas não é para qualquer bico. Você precisa ser residente ou ter uma boa desculpa para ter acesso a tal discoteca, que é mantida pelo departamento de preservação artística da Casa Branca —nem todos lá sabem da existência dela— e, ao contrário do que muitos suporiam, não foi criada pelo "cool" Obama.

A origem dos discos

O "museu" sonoro da presidência americana começou a ser montado em 1973. Os álbuns foram dados de presente pela RIAA (Recording Industry Association of America, grupo que representa as gravadoras nos EUA e tem sede em Washington). A iniciativa foi inspirada na biblioteca doada anos antes pela American Booksellers Association.

Se livros viraram acervo oficial, por que a música não poderia?

Na época, a RIAA montou uma equipe comandada pelo compositor e empresário Johnny Mercer (compositor de "Moon River"), que recebeu a incumbência de selecionar cerca de 1.800 discos. A ideia era oferecer aos mandatários americanos um panorama da música global. Das claques eruditas às guitarras do rock, passando pelo jazz e outros gêneros de sucesso.

30.mai.2016 - Agente do Serviço Secreto dos EUA trabalha na segurança da Casa Branca, em Washington. Cercas mais altas e mais resistentes devem ser instaladas na residência oficial do presidente do país até 2018 - Zach Gibson/The New York Times - Zach Gibson/The New York Times
Imagem: Zach Gibson/The New York Times

Mas, no que dependesse das primeiras escolhas, talvez a discoteca da Casa Branca nunca tivesse virado notícia

Em meio aos primeiros trabalhos The Doors e Elton John, Mercer optou por misturar dezenas de álbuns de "easy listening", com hits radiofônicos dos anos 1970. Lawrence Welk, Don Ho e Perry Como. A cadeira presidencial era ocupada pelo conservador Richard Nixon, e havia pouco espaço para ousadias. Havia a mesma quantidade de discos de Beatles e do cantor Pat Boone.

Esse problema foi corrigido alguns anos depois, durante o governo do democrata Jimmy Carter, quando a RIAA ofereceu um segundo lote. O produtor John Hammond liderou o projeto, dessa vez convocando especialistas para supervisionar cada gênero.

John Lewis, do histórico Modern Jazz Quartet, selecionou álbuns de jazz. As escolhas do pop ficaram a cargo do crítico Bob Blumenthal. Bingo! Nascia ali uma das mais incríveis coleções de discos dos EUA. Discos que até hoje figuram em listas de melhores da história.

O que há no acervo

Exemplos: "Blood on the Tracks" de Bob Dylan, "Who´s Next" do The Who, "Astral Weeks" de Van Morrison, "My Aim Is True" de Elvis Costello e tantas outras pepitas do soul, rock, punk, salsa, gospel, funk, disco.

Há ainda clássicos da primeira era do rock (Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley), hits menos óbvios dos anos 1970 (Donna Summer, Fleetwood Mac e Earth, Wind & Fire), latinidades diversas (Beny Moré, Joe Bataan e Johnny Pacheco) e até obras com conteúdo político/anárquico, o que pode ser um dos motivos do sigilo que ronda a coleção.

"Hardcore Jollie", do Funkadelic, "Never Mind the Bollocks", dos Sex Pistols, e "The Clash", estreia da banda punk britânica, integram a discoteca

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Você conseguiria imaginar o presidente Biden soltinho, empunhando um dry martini e descendo as escadas da Casa Branca para curtir um happy hour ao som de "Teenage Lobotomy", dos Ramones, "Macho Man", do Village People, ou "I'm so Bored with the USA", do Clash? Isso até poderia acontecer hoje, em segredo, a não ser por um detalhe.

Infelizmente, segundo o escritor e diretor John Chuldenko, neto do ex-presidente Jimmy Carter, que chegou a produzir um documentário nunca lançado sobre o acervo de discos da Casa Branca, eles não estão mais lá.

Há quatro décadas, permanecem acomodados em um depósito externo, com acesso restrito a fins de pesquisa e documentação. Caso o pedido do pesquisador seja aceito, os discos são transportados temporariamente para a própria Casa Branca, em caixas de papelão, e a visita é monitorada e cronometrada por agentes federais.

 John Chuldenko com a coleção de discos da Casa Branca -  John Chuldenko -  John Chuldenko
Imagem: John Chuldenko

Álbuns estão "zerados"

Em entrevista à revista Washingtonian, Chuldenko diz que, por incrível que pareça, esse maravilhoso segundo lote da RIAA, inaugurado em 1981 nos últimos dias do governo Carter, provavelmente nunca foi usufruído. Após a posse de Ronald Reagan e família, ocupantes do espaço nos dois mandatos subsequentes, os álbuns teriam partido diretamente para depósito. E por ordem dele.

Longe do Salão Oval, os LPs são conservados nas capas originais, acondicionados em pastas codificadas por cores (azul claro para pop, amarelo para clássico etc). Cada uma possui um selo presidencial e o aviso de propriedade da Casa Branca —não importa quem seja o presidente.

John Chuldenko descobriu a existência desse tesouro discográfico por acaso, ao conversar com um tio em um dos famosos encontros da família Carter. Ele é uma das únicas pessoas, fora funcionários, a já ter posto as mãos nos discos. Em sua visita em 2010, enquanto Barack Obama administrava o país no pavimento superior, ele filmou e reproduziu alguns deles em um toca-disco.

John Chuldenko toca discos na Casa Branca - Reprodução - Reprodução
John Chuldenko toca discos na Casa Branca
Imagem: Reprodução

Em cada caixa havia um novo tesouro dentro. Eu sabia o que estava lá, mas é diferente quando você tem os discos à disposição. Nunca haviam sido tocados. Foi como entrar em uma loja de discos em 1979. Estavam absolutamente imaculados
lembra ele

Lamentavelmente, por problemas de financiamento e agenda, esses registros acabaram não virando documentário. Até agora

Abismado com o descaso da Casa Branca, que nunca propôs nenhum projeto para os discos, Chuldenko quer retomar seu filme em breve. A ideia agora é lançá-lo junto de um livro que "atualizará" a biblioteca, incluindo virtualmente álbuns lançados nos últimos 40 anos, que não estão lá. Os títulos serão escolhidos por time de especialistas, assim como fez o jornalista Ricardo Alexandre em sua recente lista de maiores discos da música brasileira.

"Não há música eletrônica na Casa Branca. Não há boy bands, Madonna, Britney Spears. Não há Michael Jackson! Impossível pensar em uma terceira parte de acervo sem pensar em 'It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back', do Public Enemy, ou em discos do N.W.A. São discos marcantes que ajudaram a moldar nossa cultura", justifica-se John Chuldenko.

Três interrogações

Esses novos álbuns serão doados pela RIAA e passarão a integrar o acervo? Ele enfim será aberto à visitação e consulta por qualquer pessoa? Por que nunca ninguém fez isso?

O diretor não sabe responder a essas perguntas, mas a expectativa dele é um dia ver a discoteca reinstalada no interior da Casa Branca. Os álbuns já estiveram lá no início dos anos 1970. E espaço não falta. A residência/escritório da presidência norte-americana possui 132 cômodos.

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E até a próxima datilografada!