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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que críticos odeiam e público ama Verdades Secretas 2 e Round 6

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

28/11/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Em um mercado onde atrair e reter assinantes se tornou prioridade, sucesso é ser visto por cada vez mais pessoas
  • Sem horário e espaço nobres, streaming exige que autores e diretores inovem e criem elementos para atrair o público nas redes sociais
  • Ambiente digital permitem que as empresas tenham as mais diversas informações sobre o padrão de consumo dos assinantes
  • As informações coletadas ajudam as empresas a reutilizar elementos de sucesso em novas produções e criar fórmulas repetitivas, mas eficientes
  • Mas os críticos não gostam de fórmulas, prezam pelo conteúdo criativo e original; alto volume de produções também pode reduzir qualidade
  • Segundo a Globo, 'o pior cenário é o da indiferença típica de obras que não repercutem'

A diferença de opinião entre críticos e público não é novidade. Há tempos os especialistas divergem do gosto popular, basta lembrar do filme Titanic. Mas o abismo que separa os dois polos cresce cada vez mais rápido, particularmente no streaming. Produções como Verdades Secretas 2 e Round 6 são os mais recentes exemplos.

Enquanto a crítica esculacha essas produções, elas seguem batendo recordes de audiência no streaming.

Obviamente, muitos se ressentem da popularização do streaming e das plataformas digitais. Houve um tempo em que a Netflix, por exemplo, foi porto seguro para os artistas em busca de espaço para produzir e divulgar conteúdos autorais. Roma, de Alfonso Cuarón, primeira produção da Netflix indicada ao Oscar e O Irlandês, de Martin Scorsese, são exemplos.

A Netflix inclusive se tornou uma potência em premiações como o Emmy e o Oscar. O mesmo se pode dizer da Globo, uma das emissoras mais premiadas do mundo. Elas desaprenderam a fazer conteúdo amado pelos críticos? Não, mas o que define o sucesso no streaming é diferente da TV e do cinema.

Status e prestígio são ótimos para consolidar uma marca, mas dificilmente pagam as contas. No final do dia, são os blockbusters ou as produções baratas que caem no gosto do público que atraem os assinantes.

Enquanto os críticos elogiam Succession na HBO Max, é Sandy + Chef que supera as melhores expectativas de audiência da plataforma no Brasil. A atração da cantora Sandy na cozinha é uma produção centenas de vezes mais barata que Succession. Em um negócio cada vez mais caro e dependente de grandes sucessos como o streaming, a relação custo e audiência se torna cada vez mais importante.

Produções que agradam à maioria

Enquanto os críticos focam em questões estéticas e artísticas, no streaming sucesso significa bons resultados de audiência e engajamento de público nas plataformas digitais.

No digital as produções não dependem de horário e de programas antes ou depois na grade de programação. Vence quem atrai mais espectadores por seus próprios méritos. Para os filmes, graças ao streaming, a presença em centenas de salas de cinema passa a ser menos relevante.

Algumas fórmulas estão batidas, mas ainda funcionam. Macacões monocromáticos e máscaras ameaçadoras se tornaram obrigatórios em ficções distópicas depois de The Handmaid's Tale e A Casa de Papel. Cenários impactantes com grandes escadas também são regra. Elementos visuais como estes aumentam a capacidade de gerar memes e comentários nas redes sociais.

A influência das redes sociais

As redes sociais amplificam a dinâmica em que falar mal rende mais engajamento que falar bem. Isso incentiva a publicação de opiniões "fortes" sobre qualquer coisa para facilitar que você se destaque na multidão.

Jornalistas não ignoram o fato. A exemplo dos diretores e roteiristas no streaming, alguns elaboraram seus textos para gerar frases de efeito e comentários interessantes para atrair o público. Assim, o meio-termo cada vez mais dá lugar aos extremos. Se todo mundo gosta de um filme, dizer que não gostou gera mais engajamento.

Pouco importa se os comentários são negativos, a rede social entende aquilo como um conteúdo que gera conversas, desse modo ele é identificado como relevante e mostrado para mais pessoas.

Sobre as críticas, a Globo afirma que as recebe com tranquilidade. "Muitas são úteis e nos ajudam em pequenas correções. Ouvimos o feedback do público sobre imagens escuras nas primeira leva de episódios, por exemplo, e mudamos isso nas entregas posteriores. Essa é uma vantagem da publicação de capítulos em bloco".

A respeito dos comentários na web, a emissora afirma que faz "um processo ativo de escuta nas redes sociais" e divide as questões mais relevantes com os Estúdios Globo, área responsável por novelas e séries na empresa . "Mas os números mostram de maneira clara que nossos assinantes continuam muito engajados na novela - e mesmo a manifestação de críticas nas redes é um sinal de sucesso. Para nós, o pior cenário é o da indiferença típica de obras que não repercutem", afirma a Globo.

Se você é como eu (e suspeito que sejamos maioria), após ver tanta gente comentando sobre a trama, fica curioso e vai conferir do que se trata. Depois compartilha sua opinião nas redes sociais. Seus amigos veem seu comentário e também ficaram curiosos e o ciclo se repete.

As redes sociais são um fator cada vez mais relevante, já que a grande ambição de produções artísticas é criar "momentos culturais", ou seja, entrar nas conversas e imaginário popular.

Algumas cenas, como a briga entre Angel e Giovanna, parecem ter sido criadas pensando nas redes sociais. Não surpreende que tenham gerado tantos comentários.

Uso de dados virou arte no streaming

O streaming e sua infinidade de dados tornam o trabalho artístico cada vez mais técnico e pensado para agradar à maioria. As plataformas sabem cada detalhe de consumo da audiência. O que veem, quando veem, quando param e quando retomam uma atração. Isso permite às empresas replicar nas novas produções o que melhor funciona.

O problema é que quanto mais uma produção usa fórmulas, maiores as chances do crítico não gostar. Um especialista busca elementos criativos e estéticos inovadores e originais. A plataforma busca agradar os usuários para aumentar seus lucros.

Na TV aberta a Globo precisa ser comedida, por causa dos anunciantes e "famílias". No streaming o anunciante é secundário. As prioridades são reter o assinante e atrair novos usuários.

"Acreditamos que por não ter as restrições características da TV aberta, o streaming permite aos criadores ir mais fundo em questões como sexo, abuso de drogas, violência ou transtornos psíquicos. São questões que fazem parte da vida das pessoas e matéria-prima para a boa dramaturgia", disse a Globo por meio de sua comunicação em contato com a coluna.

Além disso, diferentemente de grandes estúdios e emissoras de TV, que têm intervalos de meses entre grandes lançamentos, no streaming o volume de novidades é frenético e crescente.

É difícil avaliar qual a estrutura oferecida para uma produção no streaming. Orçamento e tempo de produção disponíveis podem variar muito em comparação à TV e ao cinema. O que o crítico vê como algo de baixa qualidade, pode ter sido uma vitória da equipe e da plataforma que fizeram mais por menos.

Agora, esqueça as críticas e foque no resultado do negócio. "Desde o dia 20/10 até esta última quinta-feira (25/11), o Verdades Secretas 2 já acumulava 29 milhões de horas de consumo, tendo alcançado 3,9 milhões de contas Globo, somando assinantes titulares, seus dependentes e aqueles que assistiram gratuitamente ao primeiro capítulo. Desde a estreia, não houve um único dia que o título tenha saído da primeira posição no ranking de horas de consumo", afirma a Globo.

Popularização do streaming

Além das redes sociais, a popularização do streaming é outro elemento que acelera esse distanciamento da crítica e do público. À medida que a Netflix, Globoplay e suas concorrentes precisam de cada vez mais assinantes, a demanda por um volume enorme de produções arrasa-quarteirão que geram comentários e engajamento na web disparou.

O filme Alerta Vermelho, superprodução com Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot recebeu críticas negativas, mas foi visto 148 milhões de horas em seu primeiro fim de semana na Netflix, o maior fim de semana de estreia na história da empresa. Questionada pela coluna sobre a possível popularização de seu conteúdo e críticas às produções, a Netflix não comentou.

O sucesso dessas produções deve acelerar o lançamento de grandes obras diretamente no streaming, com a TV e o cinema deixando de ser as prioridades.

A capacidade de criar momentos culturais nos lançamentos era um trunfo da TV e do cinema, mas Verdades Secretas 2, Round 6 e Alerta Vermelho mostram que o streaming também tem essa capacidade de entrar no imaginário popular.

Além da chance de produzir e ganhar mais, os artistas passam a ter a oportunidade de alcançar uma audiência ainda maior no streaming em comparação ao cinema e à TV, gerando momentos culturais cada vez mais relevantes.

Como ouvi de um jornalista que escreve sobre música, o crítico é como o médico que diz para o paciente (ou leitor) que ele deve comer mais salada e menos fast food. O paciente sabe, mas na hora H, se alimenta daquilo que vê como mais saboroso e fácil de consumir. O médico tem sua função e não deixará de dar suas recomendações, mesmo sabendo que boa parte das vezes, não será ouvido.

Assim como as empresas de fast food dominaram o mundo e se tornaram um dos mais rentáveis negócios do mundo, o streaming quer repetir a fórmula. O abismo entre críticos e músicos só deve aumentar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL