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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Globo: O que saída de Cissa Guimarães diz de estratégia copiada da Netflix

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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

30/10/2021 17h51

Resumo da notícia

  • Cissa Guimarães deixou a Globo após 40 anos na emissora; saída frustra fãs e reforça teoria de crise na emissora carioca
  • Mas a mudança no modelo de trabalho com os artistas está diretamente relacionada às novas necessidades do streaming
  • O contrato por obra, como a Globo está impondo a seus talentos, é amplamente utilizado pela Netflix e vem sendo adotado pelos concorrentes
  • O streaming é cada vez mais um jogo de volume de produção, o contrato por obra atende a essa demanda
  • O processo de Scarlett Johansson contra a Disney é um exemplo desse movimento
  • Possivelmente, este seja o início da "uberização" das artes

Essa semana a atriz e apresentadora Cissa Guimarães foi a mais recente baixa no quadro de estrelas da TV Globo. Hoje, um grande nome deixar a Globo não é surpresa. Para muitos, esse seria um sinal da crise na emissora carioca. Apenas no primeiro semestre de 2021, a Globo já cortou mais de R$ 281 milhões em salários.

Mas é um engano pensar que os cortes (ou a não renovação dos contratos) estejam ligados somente aos custos. A Globo ainda tem mais de R$ 12,5 bilhões em caixa e cresceu quase R$ 1 bilhão o seu faturamento nos primeiros seis meses do ano. Até o prejuízo de R$ 144 milhões do primeiro semestre é pequeno em vista da receita anual de mais de R$ 12 bilhões.

Sim, a Globo trabalha intensamente para reduzir gastos. A saída de anunciantes rumo ao digital e a migração da audiência para o streaming são um enorme problema em médio e longo prazo. Mas o modelo que a emissora adotou de pagar os artistas por obra é amplamente usado pela Netflix. E mais, Disney, WarnerMedia e praticamente todos os grandes estúdios cada vez mais adotam esse modelo.

A lógica é simples, ganha quem produz. A saída de Faustão, Tiago Leifert, Lázaro Ramos, Cissa e tantos outros é apenas um indicativo dessa tendência. Os benefícios financeiros são claros. A folha diminui, assim como os encargos trabalhistas.

Streaming mudou o modelo

Mas talvez a principal razão da mudança seja a necessidade de uma nova maneira de produzir conteúdo. Com o crescimento exponencial do volume de produções no streaming, o volume de lançamentos conta mais que a qualidade dessas produções. Verdades Secretas 2 talvez seja o mais recente exemplo disso. A obra está longe de ser brilhante, mas atraiu grande audiência no Globoplay. Atualmente, o Big Brother é o maior motor de crescimento do Globoplay.

Mesmo a Netflix, que ficou conhecida por obras elaboradas como House of Cards, cada vez mais se transforma em uma grande TV com inúmeros blockbusters e reality shows. A última temporada de A Casa de Papel, por exemplo, não passa de um grande tiroteio hollywoodiano.

Muitos artistas aceitaram ganhar por obra na Netflix porque tinham a chance de realizar projetos inovadores e que dificilmente seriam aceitos na TV. À medida que a Netflix se torna uma gigante como outra qualquer de mídia e investe em blockbusters como a TV e grandes estúdios, o fator exclusividade e sua atratividade diminui.

A Disney também está revendo os contratos com suas estrelas e mudando as bases de remuneração. A regra era que artistas de cinema tivessem participação nas bilheterias, mas com o crescimento do streaming, os filmes começaram a ser lançados diretamente no Disney+. Isso reduziu os valores que os artistas recebiam.

O processo de Scarlett Johansson contra a Disney é um exemplo. Sua expectativa era receber US$ 70 milhões pelo filme Viúva Negra. No novo modelo da Disney, com a estreia diretamente no streaming, ela recebeu apenas US$ 20 milhões. A atriz processou a Disney e um acordo foi fechado posteriormente. Mas a mensagem foi clara, o modelo de remuneração mudou.

Plataformas no controle

À medida que o streaming se populariza e um número cada vez menor de empresas domina o consumo de mídia no mundo, é natural que o poder das plataformas aumente e que a capacidade de negociação de seus fornecedores diminua, o que inclui os artistas.

A Globo está apenas seguindo o modelo que tornou a Netflix uma das empresas mais valiosas do mundo. Cissa não é a primeira nem será a última a sair da emissora. Talvez estejamos diante da "uberização" das artes. Se o modelo é sustentável em longo prazo ou se as estrelas vão bater o pé e exigir exclusividade é uma incógnita. A boa notícia é que Cissa Guimarães não vai ficar muito tempo sem trabalho, a demanda por talento nunca foi tão grande e as redes sociais permitem que os famosos encontrem novas fontes de renda.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL