PUBLICIDADE
Topo

Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aumento de lucro e receita da Globo ajudam a explicar caso Camila Queiroz

Conteúdo exclusivo para assinantes
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

19/11/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Após anos de reestruturação e cortes a Globo começa a mostrar bons resultados, com aumento de faturamento, lucro e bons números no Globoplay
  • Os números positivos fortalecem a nova estratégia da Globo e a postura de Camila Queiroz se tornou uma oportunidade de mandar um recado
  • A atriz descobriu do pior modo possível que a comunicaçnao da Globo também mudou ao adotar uma postura mais transparente e direta, até humanizada
  • No passado, a emissora ignoraria ataques de uma atriz iniciante; mas agora a gigante de mídia não esconde suas dores, fraquezas e opiniões
  • Camila e sua equipe foram pegos de surpresa, assim como a mídia, que repercutiu a notícia alimentada pelos equívocos da atriz em suas redes sociais
  • O processo da atriz Scarlett Johansson contra a Disney ilustra como o mercado artístico brasileiro tem a aprender com as agências de Hollywood

Desde 2018 a Globo começou um profundo processo de transformação. O projeto UmaSóGlobo reuniu cinco empresas, cortou centenas de posições e reduziu drasticamente custos e despesas.

Os resultados já começam a aparecer. No último trimestre a receita líquida da Globo alcançou R$ 3,7 bilhões, um aumento de 19% comparado ao mesmo período do ano passado. Este é o melhor resultado de receita no terceiro trimestre da Globo nos últimos quatro anos.

Já o lucro entre julho e setembro foi de R$ 142 milhões e reverteu os prejuízos registrados pela empresa nos primeiros seis meses de 2021. No primeiro semestre deste ano, a líder de audiência teve um prejuízo de R$ 114 milhões.

Na soma dos nove primeiros meses de 2021, a receita líquida da Globo cresceu 18% (ou R$ 1,5 bilhão) em relação ao mesmo período de 2020, totalizando R$ 10,1 bilhões.

Por que os números são importantes nessa conversa? Porque gostemos ou não, essa transformação é um caminho sem volta. Os números mostram que a Globo não tem um problema de dinheiro ou relacionamento com as estrelas, apenas mudou suas prioridades.

E como em toda mudança, isso gera desconforto, vencedores e perdedores e os talentos são o aspecto mais visível deste processo.

Globoplay cresce e ganha destaque

Possivelmente a Globo tenha exagerado em alguns momentos e cometeu equívocos. Cortar custos e reduzir despesas nunca é um processo popular e saber o limite e a hora de parar é um desafio. Além disso, a pandemia intensificou essa transformação e levou a medidas ainda mais extremas.

Mas quais são as alternativas para as TVs abertas e a cabo à medida que a audiência e os anunciantes migram rapidamente para o digital? Basicamente, há três caminhos: reduzir o tamanho da conta cortando custos, apostar no digital para trazer novas receitas ou fazer as duas coisas.

A Globo apostou no corte de custos para investir no digital e crescer o Globoplay. Tira o dinheiro de um lado para apostar em outro. Se a conta vai "fechar" é uma incógnita. A expectativa dentro da emissora é que o Globoplay só dê lucro em 2024 ou 2025.

Mas no último trimestre o Globoplay cresceu 70% em receita e aumentou 27% o número de assinantes em comparação ao mesmo período do ano anterior. O streaming da Globo repetiu os bons números do trimestre anterior. Se você trabalha na Globo, neste momento o Globoplay é o pior lugar para você comprar uma briga.

Famosos desconectados da mudança

Camila Queiroz e sua equipe provavelmente são as mais recentes "vítimas" dessa nova realidade. A atriz é jovem e possivelmente não tenha tido o apoio ideal para fazer uma leitura correta do contexto em que estava. Certa ou errada, saiu com a imagem desgastada.

Possivelmente, Camila subestimou a necessidade da Globo de reafirmar sua estratégia digital, onde o grupo e a marca sempre terão mais força que uma única estrela. Ao mandar uma dura mensagem para Camila, a Globo mandou um recado para seus colaboradores e para todo o mercado. O jogo mudou.

A posição da Globo também sinaliza para o mercado que, mesmo com mais dinheiro no caixa, a disciplina seguirá em curso na emissora. Isto vale para Camila e para todos os parceiros, inclusive federações e grandes organizações proprietárias de direitos. A estratégia de levar os conflitos para mídia como parceiros faziam também deve perder força.

Se a Globo discute com uma atriz iniciante, mostra que não terá vergonha ou receio de discutir publicamente com ninguém. Em comunicação, quando você não fala, alguém fala por você. E a Globo não falava. A mudança na emissora carioca foi semelhante ao da Disney no confronto com a atriz Scarlett Johansson (mais sobre o tema adiante).

Mesmo a polêmica estratégia de contratos por obra implementada pela Globo, cortando salários fixos, já era amplamente usada pelo Netflix sem grandes questionamentos. Na Globo, gerou desconforto ao levar à saída de muitas estrelas. Nomes como Faustão, Lázaro Ramos e Ingrid Guimarães fora da Globo são um choque e rendem manchetes e tuítes atacando a gigante da mídia. Inclusive atores que não foram demitidos, saíram porque queriam buscar algo novo, não negaram manchetes de demissão, que geram solidariedade e boa vontade no público.

Cópia da Netflix e uberização das artes

Um aspecto menos discutido, mas que fica cada vez mais evidente como os números da Globo mostram, é a ineficiência do modelo de salários fixos na indústria artística. Não raro, atores se diziam indisponíveis para filmar quando eram requisitados pela emissora mesmo tendo um contrato fixo. Além disso, se existisse o desejo de autores e produtores de contratar talentos diferentes de fora dos quadros da empresa, ficava mais difícil justificar o "extra" se existe um elenco fixo.

Os efeitos desta "uberização das artes" podem ser amplamente discutidos. Mas é inquestionável que a Globo não pode se dar ao luxo de seguir um modelo menos eficiente frente aos concorrentes que, além de eficazes, estão entre as empresas mais ricas do mundo.

A Globo fez o que seus concorrentes internacionais já fazem no streaming. Um modelo no qual o volume de produções é tão alto que o conjunto pesa mais que um ou outro produto. No streaming, uma produção como Round 6 pode custar uma fração em comparação a outras grandes produções e se tornar a série mais vista da história.

Imagino a Globo seguirá os passos da Netflix, Amazon e demais gigantes do streaming, com grandes estrelas criando suas próprias produções e vendendo para quem oferecer o melhor acordo, incluindo o Globoplay.

Globo mais humanizada

Uma novidade é que a mudança na estratégia de negócios da Globo, agora parece também estar sendo acompanhada por uma mudança na comunicação da empresa, que está se tornando mais transparente e direta. A emissora discute seus problemas, desafios e conta seu lado da história.

De certo modo, a Globo se tornou mais humana e tem cada vez menos vergonha de discutir seus problemas. No passado, vivia em um pedestal. Era atacada e seguia soberana, sem nem mesmo responder. Agora, quando a maior empresa de mídia da América Latina responde e a uma atriz iniciante, choca a todos. Ainda não nos acostumamos com esta nova Globo.

Por outro lado, antes os talentos talvez tivessem mais receio de falar algo negativo até pelo mercado de trabalho ser mais "limitado" para grandes produções, como são as novelas da Globo.

As oportunidades criadas no streaming e nas redes sociais para os "globais", também encorajam os talentos a se arriscarem mais. O que pode ser ótimo, mas também aumenta exponencialmente o risco de amplificar os erros.

Artistas também erram

Nos Estados Unidos, onde atores cantam, dançam, atuam e só palpitam na produção se tiverem cargo de produtor, as grandes empresas de representação de talentos dominam o mercado. As gigantes Creative Artists Agency (CAA), William Morris Endeavor e United Talent Agency (UTA) são inspiração até para o Vale do Silício e são estudadas em grandes escolas de negócio. Ainda não chegamos a este nível no Brasil, infelizmente.

Mas assim como para a Globo a digitalização foi o caminho, para os artistas o aumento da profissionalização será natural. Scarlett Johansson processou a Disney, recebeu US$ 20 milhões por sua atuação no filme Viúva Negra e exigia mais US$ 50 milhões. Quem liderou as conversas públicas e privadas de Scarlett? A CAA, agência da atriz.

Quantos posts de Scarlett sobre o tema nas redes sociais? Nenhum. Mas a atriz e a Disney entraram em acordo e em breve a atriz poderá até fazer um novo filme para a Disney. Como dizem os americanos, money talks bulshit walks.

Siga a coluna no Twitter, Facebook e Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL