Chico Barney

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Opinião

'As Marvels' é o maior fracasso do esquema de pirâmide da Disney

Queria ter o poder do bracelete da Miss Marvel para trocar de lugar com quem nunca assistiu ao filme "As Marvels" —e continuar assim para sempre. Tá bom, eu sei que não é exatamente assim que funciona no filme, mas acho que nem os roteiristas têm muita certeza sobre as regras. Mas tergiverso.

O mais recente e eloquente fracasso da Marvel é o ápice da estratégia de convergência que o estúdio pretendia implementar em seus produtos. Séries que viram filmes que viram séries que viram filmes que se tornam carcaças absolutamente desprovidas de alma.

Quem sou eu para julgar? Hollywood por acaso é lugar para qualquer tridimensionalidade que vá além do que pode ser capturado pelos óculos 3D? Mas o problema aqui é outro.

Meio desavisados, os executivos da Disney parecem ter intuído que seria uma boa ideia repetir uma dinâmica que já não funciona nos quadrinhos desde os anos 1990: a interconexão entre as mais variadas revistinhas não é um padrão há muito tempo.

Em "As Marvels" existem referências a tantos projetos paralelos que não sobra muito espaço para o desenvolvimento dos personagens.

- Miss Marvel é apresentada como uma paródia de si mesma, junto com outros personagens já conhecidos de sua série no streaming;

- Monica Rambeau resgata dramas do primeiro filme da Capitã Marvel e da série da Feiticeira Escarlate, mas tudo isso aconteceu há tanto tempo que o roteiro parece confiar que o espectador não saiu de casa nos últimos anos;

- Ou então que estávamos todos no tal do 'blip', aquele sumiço de cinco anos de várias pessoas que acontece em um daqueles filmes dos Vingadores contra Thanos. A Marvel insiste em relembrá-lo em todo novo lançamento, como se alguém ainda se importasse, em vez de seguir em frente com novos dramas;

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- Nick Fury surge como uma espécie de Papai Noel brincalhão e generoso, apenas um artifício de roteiro para levar as coisas de um lugar para o outro e garantir ao público que aquele é um filme que continua o universo cinematográfico iniciado 15 anos atrás;

- E a Capitã Marvel, teoricamente protagonista do filme, que não tem nenhum arco de fato relevante, começando e terminando a história com a mesma expressão de quem está tentando lembrar se fechou a janela da sala antes de sair de casa.

O que me deixou mais triste é que a premissa é adorável para fãs de quadrinhos como eu. O tal do bracelete é uma referência ao Capitão Marvel na versão criada pelo roteirista Roy Thomas.

O herói kree batia os braceletes e trocava de lugar na zona negativa com o adolescente fanfarrão Rick Jones — uma espécie de Forrest Gump da Marvel, com uma biografia que inclui ser o responsável pelo acidente que deu origem ao Hulk e ser o parceiro mirim do Capitão América durante um tempo, além de outras palhaçadas.

A ideia do herói trocar de lugar com um jovem imberbe era uma homenagem de Thomas ao Capitão Marvel da era de ouro, de outra editora, a Fawcett. O personagem atualmente mais conhecido como Shazam, em sua relação com Billy Batson.

Isso tudo foi razoavelmente desperdiçado num filme que infelizmente entrará para a história como um dos símbolos, ao lado de Thor 4 e Homem-Formiga 3, da corrente pindaíba da inteligência emocional do estúdio.

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Gosto muito dos filmes da Marvel, considero alguns a mais sofisticada expressão do que a tecnologia e a narrativa compartilhada podem oferecer ao público moderno, mas a estratégia que culminou nesse projeto específico é um fracasso retumbante.

A convergência de audiência nas diferentes plataformas proposta pela Disney simplesmente não é factível. As séries e os filmes precisam operar em frequências diferentes. A bilheteria ridícula do filme até aqui deixa claro que o funil de interesse do streaming para os filmes é pouco generoso — e eu teria contado isso para eles com mais antecedência, se tivessem me perguntado.

A Marvel fez muito sucesso ao implementar sua narrativa como um esquema de pirâmide. Um lançamento ia chamando para o próximo lançamento e você conhecia novos personagens o tempo todo e passava a se importar com eles por se importar com os anteriores.

A proporção disso foi elevada a um patamar tão obsessivo nos últimos anos que ficou difícil de acompanhar. Ninguém além dos youtubers especializados nisso tem tempo, paciência e memória para dar tanta atenção a tantos produtos de um mesmo universo.

A Telexfree dos filmes de hominho finalmente fracassou, e fracassou epicamente. Enquanto corrigem a rota, espero que Hollywood esteja preparando novos golpes para me enganar nos próximos anos.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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