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França devolve ao Benim 26 obras de arte saqueadas pelas tropas coloniais há 130 anos

As obras devolvidas ao país africano antes foram expostas no Quai Branly, em Paris - Reprodução/Twitter
As obras devolvidas ao país africano antes foram expostas no Quai Branly, em Paris Imagem: Reprodução/Twitter

Sylvie Koffi

da RFI e AFP

10/11/2021 13h19

A França devolveu solenemente ao Benim 26 obras de arte que fazem parte do "tesouro real de Abomey", saqueado no século 19 pelas tropas coloniais. Para as autoridades do país africano, o retorno dessas relíquias roubadas representa um "momento histórico de orgulho nacional".

Em uma cerimônia ocorrida nesta terça-feira (9) no Palácio do Eliseu, em Paris, os ministros da Cultura dos dois países, Roselyne Bachelot e Jean-Michel Abimbola, assinaram a escritura de transferência de propriedade desses bens. As obras de arte decolam ainda hoje para o Benim, onde chegarão na quarta-feira (10), após 130 anos de ausência.

"É um momento simbólico, comovente e histórico, há muito esperado e inesperado", disse o presidente Emmanuel Macron, durante a cerimônia. Depois de ser eleito, em 2017, o líder centrista se comprometeu a restituir o patrimônio africano trazido para a França durante a ocupação colonial. Ao lado de Macron, o presidente do Benim, Patrice Talon, sublinhou que a devolução das 26 peças "é apenas uma etapa".

"Como você espera que meu entusiasmo seja total quando obras como o Deus Gu ou a tábua de adivinhação do Fâ permaneçam aqui França, para o desalento de seus herdeiros?", questionou Talon na direção de Macron. "Além desta restituição, continuaremos o trabalho", prometeu o presidente francês.

Ao final da cerimônia, que contou com apresentação musical da Guarda Republicana, o líder africano ainda pontuou: "É nossa alma que regressa, são 26 obras da realeza, muito mais que objetos. Elas fazem parte de nosso patrimônio genético profundo", disse Talon, com emoção na voz. "Eu esperei, desesperei e orei para nossos ancestrais", completou o presidente do Benim.

Peças de valor histórico e cultural inestimável

Entre as obras devolvidas nesta terça-feira, que foram exibidas no museu parisiense do Quai Branly, estão estátuas totêmicas do antigo reino de Abomey, bem como o trono do rei Béhanzin, retirados do país durante o saque de tropas francesas ao palácio real, em 1892.

O "tesouro" devolvido ainda é composto de quatro portas de madeira e baquetas de dança, preciosos testemunhos do reino que existiu durante os séculos 18 e 19 numa região do sul do Benim.

Três imponentes estátuas reais antropozoomórficas, em muito bom estado, incorporam um monarca, como a do poderoso rei Ghézo como um homem-pássaro ou o rei Béhanzin, meio homem, meio tubarão. As 26 peças são aguardadas com grande expectativa em Cotonu, a maior cidade do país.

"Estremeço com a ideia de observar esses tesouros reais mais de perto, principalmente os tronos de nossos ancestrais. É inimaginável", disse em Cotonu uma liderança da comunidade Dah Adohouannon. "No auge dos meus 72 anos, posso morrer em paz, assim que os vir", acrescentou.

As obras serão submetidas a dois meses de "aclimatação" às novas condições de clima e umidade, antes de serem expostas durante três meses na sede da presidência do Benim.

O tesouro irá depois para o antigo forte português de Uidá e para a casa do governador, locais históricos da escravatura e da colonização europeia, localizados no litoral, enquanto se aguarda a construção de um novo museu em Abomey.

Símbolo das novas relações com a África

Durante um discurso em Uagadugu em novembro de 2017, Macron prometeu fazer a restituição temporária ou permanente do patrimônio africano trazido para a França. Seguindo as orientações de um relatório apresentado pelos acadêmicos Felwine Sarr, senegalês, e Bénédicte Savoy, francesa, Macron decidiu devolver as 26 obras solicitadas pelas autoridades do Benim.

Uma lei aprovada em dezembro de 2020 tornou essas restituições possíveis, permitindo exceções ao princípio da "inalienabilidade" das obras em coleções públicas, porque elas haviam sido objeto de pilhagem.

De acordo com especialistas, entre 85% e 90% do patrimônio artístico e cultural africano se encontram fora do continente. Desde 2019, além do Benim, seis países — Senegal, Costa do Marfim, Etiópia, Chade, Mali e Madagascar — apresentaram pedidos de restituição de bens à França.

Paris deve devolver em breve à Costa do Marfim o Djidji Ayokwe, um famoso tambor dos Ebriés, há muito tempo reivindicado por Abidjan. A restituição de obras de arte saqueadas na África é um dos pontos fortes da "nova relação" que o chefe de Estado francês pretende estabelecer com o continente.