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Hortas urbanas estão virando negócios, aponta pesquisador em Paris e São Paulo

Horta do Centro Cultural de São Paulo foi aberta em 2013 - Gustavo Nagib/ RFI
Horta do Centro Cultural de São Paulo foi aberta em 2013 Imagem: Gustavo Nagib/ RFI

Lúcia Müzell

Da RFI

29/04/2021 13h42

Elas começaram timidamente, com iniciativas de bairros e associações, mas agora são cada vez mais apropriadas por empresas e construtoras. As hortas comunitárias se espalharam pelas grandes capitais mundiais, com a promessa de trazerem um ar do campo ao concreto e à poluição das cidades. A proposta, que agrada a um número crescente de moradores descolados e de renda elevada, não passou em branco pelas grandes empreendedoras - sob o risco de descaracterizar as hortinhas de bairro.

Quem alerta é o pesquisador Gustavo Nagib, doutor em Geografia Humana pela USP, com uma tese sobre a expressão ativista e as hortas comunitárias de São Paulo e Paris e o novo urbanismo que incorpora a agricultura intra-urbana.

"O capitalismo sempre vai se apropriar de discursos e práticas ativistas para fazer negócios, capitalizar. O que podemos fazer? Vamos falar que queremos ter uma horta no bairro mas são pessoas contratadas que vão cuidar dela, ou eu quero colocar a mão na terra, eu quero participar e me apropriar desse espaço?", questiona o geógrafo.

Horta compartilhada... para empresa administrar

Cidades como Paris, Nova York e Berlim ganharam fama mundial com seus moradores assumindo a enxada e semeando morangos no fim de semana e transmitindo a arte do plantio para os filhos. Depois, tomates e berinjelas cresceram em meio aos notebooks de uma start up, e agora os novos imóveis, sejam residenciais ou comerciais, passaram a prever na planta um espaço para a prática agrícola em microescala.

O problema é que, em muitos casos, a iniciativa sequer é administrada pelos próprios moradores ou funcionários - uma empresa é contratada para cuidar da horta e a produção é posta à venda.

"O mundo urbano se deu conta de que a gente precisa produzir alimento em todas as frestinhas existentes, porque a terra é cada vez mais difícil de ser acessada no meio urbano: é muita gente morando, tem muita competição, custa caro. É legal pensar que os novos bairros e o novo urbanismo vão incorporar, que vamos poder produzir fora do solo", afirma. "Temos novos mecanismos para fazer com que as cidades fiquem mais verdes. Porém precisamos tomar cuidado para que isso não vire só propaganda, só marketing."

Pesquisa de Nagib em Paris ocorreu entre 2018 e 2019 - Gustavo Nagib/ RFI - Gustavo Nagib/ RFI
Pesquisa de Nagib em Paris ocorreu entre 2018 e 2019
Imagem: Gustavo Nagib/ RFI

Membro de um grupo de estudos sobre o tema no Instituto de Estudos Avançados da USP, Nagib nota que a agricultura urbana é tão antiga quanto as próprias cidades - todo mundo tem um antepassado que cultivava legumes no fundo de casa ou criava até galinhas. A ideia das hortas compartilhadas, em que um grupo de moradores se organiza para plantar em uma área pública, também não é nova - se popularizou na época das guerras mundiais em países como Inglaterra e Estados Unidos, como ferramenta de combate à penúria alimentar.

A diferença, dos anos 2000 para cá, foi a criação de políticas públicas específicas para estimular e desenvolver projetos no coração das cidades, em espaços como parques e até calçadas. "A prefeitura de Paris permite que a comunidade, um grupo de habitantes, crie uma horta urbana num pedacinho da praça, por exemplo. Essa negociação está mais consolidada hoje em Paris, na comparação com outras grandes cidades", aponta. "Mas isso não significa que Paris seja mais tradicional ou seja melhor do que Nova York - inclusive porque a prefeitura parisiense foi a Nova York para ver como eram as hortas lá. Fizeram uma pesquisa em outras cidades do mundo para criar a política pública que foi adotada."

O pesquisador avalia que o resultado na capital francesa, o programa Mains Vertes, se tornou uma referência mundial no tema. "Só no ano de 2019, quando fiz o mapeamento para a minha tese, havia 131 hortas comunitárias catalogadas pela prefeitura. Nesse sentido de política pública, acho que é um exemplo, sim", sublinha.

Gustavo Nagib constata que a política pública de Paris para as hortas compartilhadas está mais consolidada do que em outras capitais mundiais - Maria Germano/ RFI - Maria Germano/ RFI
Gustavo Nagib constata que a política pública de Paris para as hortas compartilhadas está mais consolidada do que em outras capitais mundiais
Imagem: Maria Germano/ RFI

Exemplos no Brasil

É neste aspecto que as cidades brasileiras poderiam se inspirar - ainda faltam diretrizes sobre como as prefeituras vão incorporar esses espaços de cultivo nas esferas públicas. Cidades do interior do país e capitais, como Campinas, Curitiba, Belo Horizonte e Teresina, têm iniciativas mais avançadas, iniciadas há mais tempo. Porém todas carecem de um verdadeiro projeto de desenvolvimento, na avaliação do pesquisador.

Ele nota ainda que a expertise existe, mas se concentra na área periurbana, como o cinturão verde de São Paulo, que abastece a metrópole. "O trabalho do agricultor que vive disso é muito tradicional em São Paulo. Desde sempre teve isso aqui — e nisso eu acho que São Paulo é exemplo", frisa.

Nagib destaca os territórios de Parelheiros e Marsilac, no extremo sul paulistano, que concentram agricultores engajados em uma produção agroecológica - uma inspiração para outras grandes cidades que, a exemplo de Paris, se esforçam para ampliar a produção local de alimentos em grande escala.