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Você pagaria por roupas que 'não existem'? A revolução da moda no metaverso

A bolsa é de verdade, mas o looks é uma criação digital da marca Republiqe Clothing, especializada no metaverso - Reprodução Instagram
A bolsa é de verdade, mas o looks é uma criação digital da marca Republiqe Clothing, especializada no metaverso Imagem: Reprodução Instagram

Natália Eiras

Colaboração para o Nossa, de Lisboa (Portugal)

25/11/2022 04h00

A relação entre a moda e o metaverso é um assunto quente. Em março deste ano, aconteceu a Metaverse Fashion Week, da plataforma de realidade virtual Decentraland, que funciona dentro do metaverso Ethereum.

O evento reuniu grifes "analógicas" como Tommy Hilfiger, Dolce & Gabbana e Elie Saab e mais de 100.000 usuários únicos participaram da programação.

Teve quem tenha achado a semana de moda um fiasco, com diversos problemas técnicos. Ainda assim, Giovanna Graziosi Casimiro, diretora do Metaverse Fashion Week, foi uma das palestrantes do WebSummit, maior evento de inovação do mundo, que aconteceu de 1° a 4 de novembro em Lisboa.

Em diversos painéis, discutiu o futuro das roupas e se vamos, de vez, migrar os nossos looks para o universo digital. Isso seria possível?

O futuro já é do passado

A verdade é que esse encontro entre moda e o mundo virtual não é algo novo. Esse flerte existe há mais de 20 anos.

Em 1998, o estilista Thierry Mugler, por exemplo fez um desfile virtual, trazendo as novas tecnologias de simulações 3D para o universo fashion, a partir de uma parceria com a empresa Kinetix.

"Esse projeto/desfile foi apresentado em feiras de tecnologia da época", relembra Fernando Hage, coordenador do curso de moda da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), de São Paulo (SP).

Alguns anos depois, em 2003, chegou o "primeiro metaverso" que conhecemos: o Second Life. Como o próprio nome diz, a plataforma oferecia a oportunidade de manter uma "segunda vida", mas no plano digital.

As marcas entenderam o valor de conquistar também esse espaço e American Apparel, Adidas, Nike e Reebok foram algumas das etiquetas que criaram lojas dentro do Second Life.

A novidade metaverso

Desfile virtual de Gary James McQueen - Reprodução - Reprodução
Desfile virtual de Gary James McQueen
Imagem: Reprodução

O que deu um novo fôlego para que a moda se tornasse mais digital foi, sem dúvida, a pandemia de covid-19.

A partir de 2020, observamos um boom no uso de recursos digitais como filtros, que já eram populares em redes sociais como o Snapchat, mas que ficaram ainda mais populares no Instagram", explica Carol Garcia, professora do curso de Design de Moda da Belas Artes.

O designer Gary James McQueen, sobrinho do inesquecível Alexander McQueen, por exemplo, criou um desfile inteiramente concebido no Unreal Engine [programa de modulação 3D] e a plataforma Dress X, especializada em moda virtual, passou a comercializar os looks digitais.

Também neste período, a Louis Vuitton lançou uma coleção de avatares para "League of Legends", enquanto Balenciaga investiu em visuais para os jogadores de "Fortnite".

Avatares da Louis Vuitton para "League of Legends" - Divulgação - Divulgação
Avatares da Louis Vuitton para "League of Legends"
Imagem: Divulgação

A diferença do digital

Segundo os especialistas, o meio digital permite que as marcas tenham uma relação mais próxima com os seus consumidores finais.

"A pandemia fez com que elas entendessem que é possível ampliar o contato com o público por meio de apresentações digitais, assim como também possibilita a entrada das marcas em ambientes dos quais elas ainda não tinham muito acesso, como é o caso do metaverso dos jogos online", relembra Fernando Hage.

De acordo com relatório da consultoria de mercado McKinsey, a moda é uma das três categorias de consumo pelas quais as pessoas da geração Z mais se interessam. E onde esses jovens estão? Nos jogos online, no TikTok, nos stories.

Balenciaga e seus jogadores de "Fortnite". - Divulgação - Divulgação
Balenciaga e seus jogadores de "Fortnite"
Imagem: Divulgação

"As marcas que estão trabalhando no metaverso estão interessadas em se tornar pertinentes para uma nova geração de consumidores, que dá mais atenção aos games e às redes sociais, do que às semanas de moda ou revistas especializadas, que perderam muito espaço nos últimos anos", diz Hage.

A moda é um mercado aspiracional, que trabalha com valores como identidade, criatividade e, em alguns casos, exclusividade.

Essas questões são pertinentes ao metaverso, onde é demandado dos usuários a criação de avatares que possuam uma identidade própria, construída por meio da aparência física e das roupas utilizadas, que instigam escolhas criativas, antenadas e também com a possibilidade de serem exclusivas àquele usuário", comenta o coordenador do curso de moda da FAAP.

E os NFTs (tokens não fungíveis, em tradução literal do inglês) trouxeram uma nova possibilidade para essa moda virtual. Eles funcionam como uma espécie de certificado de autenticidade, atrelada a blockchain e, muitas vezes, comercializados por bitcoins.

Agora, as marcas podem garantir que seus looks virtuais são originais e, ainda por cima, ganhar dinheiro com isso. "Ele facilita o processo de registro de transações e de controle de ativos em uma rede de negócios, ou seja, é possível garantir a veracidade de produtos físicos de luxo, por exemplo".

Isso não significa, no entanto, que este seja o fim da roupa física. "Pelo contrário. Trata-se de um incentivo à reflexão em prol de ações mais sustentáveis, evitando produção de peças que seriam usadas apenas uma única vez na sociedade em rede e em fotos instagramáveis, ou ainda na utilização como piloto para produção on-demand por meio de provas digitais prévias", comenta Carol Garcia.

"A roupa física acompanha a sociedade desde os tempos mais remotos. Acredito que o jeito de se vestir está em constante mudança.

A pandemia, por exemplo, trouxe um aumento significativo da importância do conforto e minimalismo nas roupas, que também pode ter influência no processo da digitalização da moda, mas isso não eliminou ou transformou o estilo dos produtos, só trouxe novas opções ao mercado", complementa Fernando Hage.