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Guia na Rocinha, Gilmar mostra a maior favela do país sem estereótipos

Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da Rocinha - Arquivo pessoal
Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da Rocinha Imagem: Arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Nossa

21/10/2021 04h00

Entre os contrastes do bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro, é possível ver a favela da Rocinha do lado direito e, do lado esquerdo, prédios luxuosos e coberturas. Nesta primeira, vive o guia de turismo Gilmar Lopes Fernandes Filho (@gilmarjuniorfernandes), que mora na comunidade há 35 anos.

E foi justamente por ter sido criado no local, que ele resolveu contar as curiosidades da maior favela do país em um tour que leva os turistas para ver a Rocinha livre de preconceitos.

A visitação do lugar começou na década de 1990, mas se intensificou de dez anos para cá, segundo o guia. Porém, no passado os passeios eram oferecidos aos estrangeiros em formato de safáris, como os da África, com roupas típicas e em carros grandes. "A galera começou a se conscientizar que isso não era legal", conta Gilmar.

Vista panorâmica da favela da Rocinha, a maior do Brasil - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista panorâmica da favela da Rocinha, a maior do Brasil
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Hoje, a grande maioria dos tours são feitos a pé ou levam o turista até um certo ponto de mototáxi.

De três anos para cá, Gilmar resolveu se especializar e hoje mostra que favela tem história, cultura e vai além da marginalidade. "Aqui tem muita coisa boa. Não queremos que as pessoas venham para cá e olhem nossa desgraça.

Tem muita gente que ama estar aqui e é feliz. A Rocinha é uma favela que pode visitar", diz.

Como é feito o tour

O passeio começa na estação de metrô em São Conrado, de onde Gilmar leva os turistas até o ponto dos mototáxis. Conforme a moto vai subindo, ele tira fotos e faz vídeo dos visitantes.

O primeiro ponto é em um dos locais mais altos da favela, onde é possível ver boa parte da zona sul do Rio de Janeiro, os bairros de São Conrado e Gávea e até parte da Floresta da Tijuca. Na primeira parada, o guia conta um pouco da história desses lugares.

Depois, caso o visitante queira almoçar, é possível parar em um restaurante e ainda comprar alguns souvenirs feitos por produtores locais. Alguns deles são camisas feitas de material de garrafa pet. Também é possível comprar cachaças diferentes, como a de milho verde e a de doce de leite.

Ainda no local, é possível subir até a laje e ver uma das maiores vistas do local. Nessa parte, Gilmar conta um pouco da história da comunidade e outras curiosidades que só os moradores conhecem.

É um prazer desmistificar aquela ideia de algo perigoso. Eu amo o que eu faço e saio de casa muito feliz", diz o guia.

Vista da Rocinha em laje durante tour oferecido por Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da favela - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vista da Rocinha em laje durante tour oferecido por Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da favela
Imagem: Arquivo pessoal

Em alguns dias, é possível até mesmo ter "aulas" de samba com uma passista que mora no local.

No tour está incluso passar por becos e ainda visitar a quadra em que a cantora Ludmilla gravou o clipe "Rainha da Favela". Geralmente, o passeio é oferecido de forma privada e, às vezes, há exceções em relação à quantidade de pessoas.

Segundo ele, há um limite em relação aos visitantes para deixar o passeio ainda mais agradável e com atenção total ao turista.

Toda a visita dura duas horas (podendo ser estendida) e custa R$ 110. "Eu deixo o turista à vontade. Não fico preso ao relógio. Não gosto de levar muitas pessoas para não perder a qualidade", conta a Nossa.

Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Guia bilíngue e fotógrafo

Desde os 16 anos, o morador da Rocinha se interessava por cantar e aprender letras das músicas estrangeiras. Ele queria saber exatamente o que cada uma dizia e começou a estudar por conta própria.

Na época que o turismo começou a se intensificar na região, ele ouvia muito inglês entre os viajantes e queria conversar com os gringos. Para iniciar o trabalho como guia, começou a trabalhar com outros profissionais mais antigos e foi adquirindo habilidade.

Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da Rocinha, se especializou para atender a turistas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gilmar, guia de turismo da Rocinha, se especializou para atender visitantes do mundo todo
Imagem: Arquivo pessoal

Até que um dia, levou um grupo de americanos para o tour e a experiência deu resultado.

Eles gostaram tanto que depois me convidaram para trabalhar na startup deles. Tive a oportunidade conhecer outras comunidades, viajar pelo Brasil e ir para os Estados Unidos", relembra.

Dessa forma, Gilmar aprimorou o idioma e depois voltou a trabalhar com o turismo na comunidade. E seus clientes são de todos os continentes pelo mundo. Antes da pandemia, ele recebia asiáticos, europeus e americanos. "Já tive tour de domingo a domingo e sempre que consigo fazer, não recuso", diz.

Gilmar fez algumas aulas de fotografia e traz para o passeio todo conhecimento que aprendeu. "Às vezes as pessoas me procuram mais pelas fotos, vídeos e nem tanto pela história", afirma. Vale lembrar que o guia avisa quando não é permitido tirar foto em algum lugar.

Sobrevivência na pandemia

Gilmar conta que, por causa do avanço da covid-19 no país, quase ficou sem ter como se sustentar e viver do turismo. Ele conta que foram oito meses muito difíceis e sem nenhum turista estrangeiro.

Eu fiquei recebendo auxílio emergencial e dando aula de português para um suíço. Ele me pagava em dólar e eu conseguia pagar as contas".

Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da Rocinha - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Gilmar Lopes Fernandes Filho, guia de turismo da Rocinha
Imagem: Arquivo pessoal

Diante das restrições de fronteiras a brasileiros no exterior, ele viu que o turismo nacional estava voltando e ficando mais forte. Foi aí que ele viu mais uma oportunidade para alavancar o seu trabalho. Começou a ir atrás de influenciadores digitais e propor parcerias para que eles viessem até o local e conhecessem o trabalho dele.

A ideia deu certo e ele voltou a trabalhar com os tours pela Rocinha e hoje consegue se sustentar com a profissão de guia.

E os cuidados com o vírus já fazem parte da rotina diária: ao longo de todo o tour, o guia fica de máscara e oferece álcool gel ao turista.

Por que Rocinha?

Em uma "provinha" das histórias que conta no tour, Gilmar relata a Nossa como surgiu a favela e por que a escolha do nome.

Na década de 30, a região era uma área rural com fazendas. Estas foram loteadas e transformadas em pequenas chácaras por produtores locais. Nesses lugares havia plantações de hortaliças, que eram repassadas aos vendedores em uma feira do bairro da Gávea, na zona sul da cidade.

Grupo de turistas franceses faz excursão de jipe pela favela da Rocinha [RJ], levados por empresa de turismo exótico. 24.03.96 - Marcos Cruz/Folhapress - Marcos Cruz/Folhapress
Grupo de turistas franceses faz excursão de jipe pela favela da Rocinha [RJ], levados por empresa de turismo exótico. 24.03.96
Imagem: Marcos Cruz/Folhapress

Quando os comerciantes perguntavam de onde vinha as mercadorias, os vendedores não sabiam definir exatamente o nome diziam que vinha da "rocinha". Foi então que o nome de uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro surgiu.

A favela cresceu mais ainda com os migrantes nordestinos, que vieram para a região em 1970 e ajudaram em diversos pontos de trabalho da cidade, principalmente na construção civil.

Gilmar e mais moradores da Rocinha querem retratar a favela sem preconceitos - Getty Images - Getty Images
Gilmar e mais moradores da Rocinha querem retratar a favela sem preconceitos
Imagem: Getty Images

Hoje, a comunidade tem 25.742 domicílios e aproximadamente 220 mil habitantes, segundo IBGE.

Nós brincamos que aqui é uma cidade dentro da cidade. Temos banco, lojas, bares, UPA. A economia gira em torno da própria Rocinha", diz Gilmar.

O guia ressalta ainda que a visita de turistas potencializa os ganhos dos moradores e ajuda a gerar renda para diversas pessoas da favela.