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Fotógrafo "caça" locais abandonados e registra marcas do tempo; veja fotos

Palácio em ruínas fotografado por André Ramalho, que criou um blog sobre os lugares esquecidos no tempo - André Ramalho
Palácio em ruínas fotografado por André Ramalho, que criou um blog sobre os lugares esquecidos no tempo
Imagem: André Ramalho

André Aram

Colaboração para Nossa

15/09/2021 04h00

O português André Ramalho, de 31 anos, costuma descrever o termo Urbex (exploradores urbanos) com uma frase: "É o ato de visitar locais que se encontram ao abandono e registrá-los em fotografia documental. Essa prática consiste em manter o mais intacto possível o local que se visita".

Apaixonado por lugares abandonados e fotografia, ele resolveu unir os dois fascínios e criou um site no qual partilha suas aventuras aos locais mais ermos do país. O hobby foi além de suas expectativas e chegou a ser eleito Blog do Ano em Portugal, em 2018.

Interior de um palácio abandonado - André Ramalho - André Ramalho
Algumas casas e palácios são "esquecidos" com móveis e decoração
Imagem: André Ramalho

Natural de Caldas da Rainha, distrito de Leiria, Ramalho já visitou casas, fábricas, usinas, lojas, hotéis, clubes, shopping centers, barcos, restaurantes, hospitais, boates e palácios, todos eles abandonados, revelando o interior desses ambientes ignorados pelos seus responsáveis.

André Ramalho, idealizador do projeto - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
André Ramalho
Imagem: Arquivo Pessoal

Alguns dos lugares foram desabitados com toda a mobília e objetos pessoais, um verdadeiro tesouro para qualquer colecionador de antiguidades.

Em suas andanças por casarões de famílias de posses, o explorador urbano já se deparou com itens possivelmente valiosos como: violinos, rádios, louça, joias e até pianos, além de móveis de madeira em bom estado.

Palácio abandonado - André Ramalho - André Ramalho
Para evitar dar pistas a saqueadores, nem sempre ele revela o endereço
Imagem: André Ramalho

"O site começou com o intuito de partilhar algumas fotos e histórias sobre os vários locais abandonados que fui visitando em Portugal".

Os perigos da aventura

Entrar nesses ambientes não é uma tarefa simples, envolve uma série de riscos, desde estruturas instáveis, buracos no chão e animais peçonhentos, a pessoas que usam as casas para atividades ilícitas e até mesmo o dono do local que não abandonou o que parecia estar abandonado.

Palácio abandonado - André Ramalho - André Ramalho
A busca por propriedades é feita pelo Google Earth ou por dicas de leitores
Imagem: André Ramalho

Indagado como descobre tantos lugarejos perdidos ao longo do tempo e dos mais variados em um país tão pequeno como Portugal, Ramalho responde que tudo começa com uma pesquisa que conta com a ajuda do Google Maps.

Ele também segue a indicação de leitores do site. Em seguida, vem o deslocamento até o imóvel, que muitas vezes pode estar inacessível pela vegetação — mas o aventureiro sempre dá um jeito.

André Ramalho - André Ramalho - André Ramalho
Para o fotógrafo, o registro ajuda a manter os locais "vivos"
Imagem: André Ramalho

Endereços secretos

Designer gráfico por profissão e fotógrafo por vocação, ele percorre o país em busca desses espaços por vezes sombrios e em ruínas, ressaltando que nunca revela a localização para evitar a ação de vândalos e de saqueadores — embora, infelizmente, não raro eles chegaram antes dele deixando um rastro de bagunça e pichações.

No caso de fábricas e de clubes conhecidos, às vezes os nomes são revelados. Em outras ocasiões, ele dá apelidos — como "Casa de Bonecas" —, para distinguir os recintos sem expor o endereço.

Segundo o blogueiro, o abandono pode ter várias motivações: falecimento, fracasso econômico, mudança de cidade/país e desinteresse dos herdeiros.

André Ramalho - André Ramalho - André Ramalho
Alguns locais preservam itens de valor, como piano e gramofones antigos
Imagem: André Ramalho

Ramalho não apenas registra, ele também se esforça para descobrir a história do lugar. Algumas vezes consegue informações conversando com vizinhos ou mesmo lendo diários e cartas.

Em uma das residências desabitadas com toda a mobília, por exemplo, correspondências indicavam que a família emigrou para os Estados Unidos e a casa de férias foi deixada de lado no decorrer dos anos.

Baseado nessas mensagens, ele calcula que grande parte do abandono data dos anos 1990 e início dos 2000. O fotógrafo acredita que seu trabalho pode sensibilizar as pessoas para o valor histórico dos locais esquecidos.

"Sinto que mostrar esses lugares de alguma forma posso ajudá-los a não morrerem. É como guardá-los para sempre, mesmo que apenas em fotografias".

Palácio abandonado - André Ramalho - André Ramalho
Falência e desinteresse dos herdeiros estão entre as causas do abandono
Imagem: André Ramalho

E para aqueles que desejam seguir os seus passos, Ramalho dá um conselho essencial: nunca vá sozinho, pois acidentes podem acontecer. E diz isso por experiência própria.

Em 2018, ele estava em um desses lares quando caiu ferindo gravemente a mão. Felizmente, conseguiu pedir ajuda para algumas pessoas que estavam passando próximo à área e foi encaminhado para um hospital.

Enquanto as casas abandonadas no Brasil costumam estar completamente vazias, em Portugal a situação é diferente. As imagens de Ramalho, com habitações com móveis, quadros, fotos, livros e outros pertences, permitem viajar no tempo e aguçam a curiosidade. Quem viveu ali? Como era a sua vida?

De certa forma, o jovem português acaba transformando propriedades negligenciadas em uma espécie de tour virtual em sua página online. Construções que ainda resistem, resta saber até quando.