Uma jornada nikkei

Fotógrafo brasileiro conta viagem em busca da história esquecida de sua família no Japão


Por Ivan Nisida, em colaboração para Nossa

Há mil motivos para viajar ao Japão. Ver o majestoso Monte Fuji, visitar templos, experimentar os melhores sushis do mundo, ver a floração das cerejeiras e assim por diante. Para mim, a força motriz foi outra. Viajei em busca de uma história para preencher um grande vazio no meu peito. Um vazio de identidade.

Vichr (tcheco) e Nisida (japonês) são meus sobrenomes. Originalmente, a grafia do segundo é Nishida, mas uma letra se perdeu pelos registros de cartórios, como ocorreu com muitas famílias de imigrantes que desembarcaram nas Américas.

Sou o que se define como "nikkei": um descendente de japoneses nascido além-mar, fora das fronteiras do arquipélago. Meus bisavós por parte de pai chegaram ao Brasil na década de 1930, vindos da região de Kumamoto, na ilha de Kyushu. Eles, que imigraram em busca de uma vida mais próspera, viriam a compor a maior colônia japonesa fora do Japão.

Traços nipônicos estão no meu nome, no meu rosto, nos meus olhos, mas não sabia muito além disso. Durante muito tempo, estive mais conectado ao meu lado "ocidental", e distante da cultura japonesa - sem saber o quanto dela me habitava. Em 2014, aos 25 anos, decidi mergulhar num processo quase que arqueológico sobre essa metade menos conhecida de minha ancestralidade.

Não sei se esse tipo de inquietação é comum a nikkeis, mas, para mim, foi algo que me acompanhou durante algum tempo, e que me impediu de me ver por completo. Era como se estivesse faltando um pedaço da minha história.

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Voz de Ivan Nisida

Comecei a estudar a língua japonesa, ler Murakami, assistir a filmes de Miyazaki. Ideias, símbolos e paisagens imaginárias que pela primeira vez passaram a nutrir meu mundo interior. Mas, ao invés de suprir, elas só aguçaram minha "fome". Era preciso mais. Era preciso estar no Japão. Andar, ver as pessoas na rua, sentir cheiros e gostos. Em 2019, tirei a poeira do meu mochilão e parti para esta viagem ao outro lado do mundo.

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Era 23 de abril quando desembarquei em Tóquio, com o relógio biológico do avesso. Em Tóquio, as luzes ofuscam, o ritmo é frenético, o metrô engole pessoas. Ao mesmo tempo, há ruas vazias, templos antigos e um tipo de poesia visual. Ela está nas fachadas das casas, nos ideogramas iluminados nas lanternas, nas cozinhas de lámen espalhadas pela cidade.

Passei 32 dias cruzando o país de norte a sul, do itinerário clássico (Tóquio, Quioto, Nara e Hiroshima) a roteiros menos comuns, alguns deles sugeridos por Diego Rivera, um amigo mexicano radicado no Japão, homônimo do famoso pintor que fez história com murais e romances tumultuados como o com Frida Kahlo.

Era o início da "golden week", uma semana de feriados de abril, quando embarquei com Diego e sua amiga brasileira Camila Cirne num trem-bala rumo a esses destinos fora da curva. As luzes de Tóquio ficaram para trás e, da janela do trem, veloz e silencioso, via-se o imenso Monte Fuji, mostrando sua linda coroa de neve, e campos e mais campos de arroz.

A primeira parada foi o Kumano Kodo, a versão japonesa do caminho de Santiago de Compostela. Foram dias de frio e chuva nas montanhosas trilhas nas florestas de Wakayama. Mais de 30 km, num sobe e desce constante, levam a Hongu, o ponto final da caminhada, onde fica o maior "torii" do Japão, um portal xintoísta com 33,9 metros de altura. Era como se algo sagrado estivesse à nossa volta.

Depois, passei por montanhas sagradas de museus da ilha de Naoshima e memoriais de Hiroshima. Foram dias de meditação, fotos e anotações, um tipo de preparação para o que viria a encontrar em Kumamoto, a terra de meus antepassados.

Tinha em mãos apenas um endereço, inscrito no "koseki", um documento oficial que registra toda a trajetória de uma família japonesa. Foi a partir desse documento que, ao conversar com minha avó Emiko Eto Nisida, descobri que ainda havia alguém da família vivendo na província de Kumamoto: Yoshiko Eto, a sua prima. Na estação de Kumamoto, peguei um ônibus para Kochi, rumo ao interior.

Contei com a ajuda do universo. Ou melhor, com a gentileza de pessoas que cruzaram meu caminho. Em Kochi, três funcionários públicos me redirecionaram a um vilarejo chamado Fukuhara. No ônibus, uma japonesa, professora de inglês, escreveu um resumo de minha história em japonês em um pedaço de papel, para que eu pudesse usar como um "cartão de visitas" nas andanças em busca de informação.

Dois adolescentes me acompanharam na busca pelo endereço e, sem encontrar o local no celular, me levaram a um "koban", uma estação de polícia, onde pediram mais apoio. Dois policiais me levaram, na viatura — não estranhe a foto. No Japão, usam a mão inglesa. E fomos até as casas de vários moradores que, por fim, apontaram o caminho até a linda residência de Yoshiko. Aos 83 anos na época, ela é a última remanescente da família Eto, da minha família, em Fukuhara.

Voz de Ivan Nisida

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Yoshiko e eu oramos em frente ao "butsudan", um santuário onde se acendem incensos verdes, os mesmos que sempre vi na casa de minha avó Emiko. Passeamos em seu carro pelos arredores de Fukuhara, um pacato vilarejo atravessado por uma pequena rua central. Yoshiko dirigiu o percurso inteiro, dominando o volante com maestria.

No fim do dia, sentamos num banco de madeira gasta num parque de colinas verdejantes. Tomamos um café com leite e compartilhamos minutos de completo silêncio. Um momento de vazio, por assim dizer, que me trouxe paz. Senti-me em casa.

Vazios podem gerar universos inteiros, aprendi nesta jornada. Yoshiko parou tudo o que estava fazendo para simplesmente estar comigo. O amor assume muitas formas. Aprendi que eu também poderia assumir muitas formas: um brasileiro, filho de migrações de suíços, tchecos e japoneses que, por lances do destino, vieram a se encontrar no Brasil.

Voz de Ivan Nisida

Na volta ao Brasil, com milhares de fotografias e memórias novas na bagagem, já comecei a rascunhar outra jornada na minha mente: um livro capaz de reconstituir o significado desta viagem, literalmente, "Do outro lado do mundo".

Ivan Nisida, 32, é fotógrafo e artista visual. Autor de "Gema" (2018), ele está escrevendo seu segundo livro, provisoriamente intitulado "Do outro lado do mundo", sobre esta viagem ao Japão

Publicado em 22 de agosto de 2021.

Reportagem e fotos: Ivan Nisida
Edição: Juliana Sayuri e Juliana Simon
Arte: Guilherme Zamarioli