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"Camarão com cerveja" pode salvar o mundo: água da bebida vira ração animal

Paixão nacional belga, as cervejas agora também podem contribuir para a alimentação - Arterra/Universal Images Group via Getty Images
Paixão nacional belga, as cervejas agora também podem contribuir para a alimentação
Imagem: Arterra/Universal Images Group via Getty Images

Felipe van Deursen

Colaboração com Nossa

26/03/2021 04h00

Em 2016, a Unesco sacramentou o que boa parte dos 8 milhões de turistas que visitam a Bélgica todo ano já sabia: a cultura cervejeira local é patrimônio imaterial da humanidade. Parte do mérito se deve às cervejas dos trapistas, monges de uma ordem que surgiu na França mas que encontrou na Bélgica terreno fértil para fazer sua arte brilhar como em nenhum outro lugar.

Além de melhorar a forma como bebemos há séculos, agora a cerveja trapista está ajudando a melhorar também o jeito de comermos. Ela pode servir para tornar a cadeia de produção de alimentos mais sustentável e econômica, segundo um time de cientistas belgas.

Água rica

As universidades de Antuérpia e Gent e a empresa holandesa SEMiLLA IPStar analisaram em conjunto o potencial nutritivo da água residual da produção de cerveja. Cada litro de cerveja demanda cerca de 7 litros de água, como todo bebedor consciente sabe (e por isso não desperdiça seu valioso líquido).

Essa água tem cada vez mais utilidade. Em 2016, cientistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, já haviam demonstrado que ela contém fungos que podem ser usados na fabricação de baterias.

Além desses fungos, que são eletrodos naturais eficientes, a água residual cervejeira é uma ótima fonte de proteínas para ração animal. Foi o que os cientistas belgas descobriram ao constatar que as bactérias púrpuras (bactérias capazes de fazer o próprio alimento via fotossíntese) usadas na ração de camarões podem ter até 70% de proteína quando criadas nesse ambiente.

Pesca de camarão no Mar do Norte - Arterra/Universal Images Group via Getty Images - Arterra/Universal Images Group via Getty Images
Pesca de camarão no Mar do Norte
Imagem: Arterra/Universal Images Group via Getty Images

Os cientistas testaram a água residual de cerveja porque ela é mais pura que aquela descartada em outros processos industriais. Além disso, contém nutrientes úteis para esses microrganismos, que, por sua vez, têm propriedades probióticas que inibem o crescimento de bactérias que causam doenças.

Em um reator de 100 litros, eles atingiram uma produtividade de 120 toneladas por hectare ao ano. Isso é muito mais eficiente que a soja, por exemplo, que gera em média 1,5 tonelada de proteína por hectare ao ano.

A comparação com a soja é mais que válida, é necessária, segundo os cientistas. De toda a ração animal à base de soja usada na União Europeia, 60% é importada.

A Europa não esconde que quer reduzir essa dependência, algo demonstrado nas declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, de que comprar soja brasileira seria "endossar o desmatamento da Amazônia" — cerca de 2 milhões de toneladas anuais de soja ilegalmente cultivada podem ter chegado nos mercados do bloco europeu durante os últimos anos. Desse total, 500 mil toneladas vieram da Amazônia, segundo artigo da revista Science (em inglês).

Resultado está no camarão

Homem pesca camarão a cavalo na costa da Bélgica - Mark Renders/Getty Images - Mark Renders/Getty Images
Homem pesca camarão a cavalo na costa da Bélgica
Imagem: Mark Renders/Getty Images

Rixas geopolíticas à parte, a água residual da cerveja trouxe uma excelente notícia para a indústria alimentícia. A bactéria púrpura mostrou que pode substituir a farinha de peixe, produto proteico obtido por meio do processamento industrial de subprodutos da pesca, como vísceras, cabeças e espinhas de peixes, na ração de camarões.

"A principal fonte de proteína na criação de camarões e na aquicultura em geral é a farinha de peixe, que é, antes de tudo, altamente insustentável", diz o engenheiro de biociências Abbas Alloul, um dos autores do estudo.

"Ela é feita a partir de peixes capturados no oceano, o que resulta em sobrepesca e no declínio de estoques naturais de peixes. Em segundo lugar, farinha de peixe tem um valor de mercado mais alto que outros ingredientes proteicos, como farinha de soja."

Ao serem criados à base de bactérias púrpuras, os camarões cresceram mais rapidamente que o normal, consumindo muito menos recursos. Boa notícia para esse ramo, que representa 18% da indústria pesqueira global, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

E nem precisa ser trapista...

Bar oferece cervejas belgas, trapistas ou não, em Ghent (Bélgica) - Arterra/Universal Images Group via Getty Images - Arterra/Universal Images Group via Getty Images
Bar oferece cervejas belgas, trapistas ou não, em Ghent (Bélgica)
Imagem: Arterra/Universal Images Group via Getty Images

O estudo foi realizado na De Koningshoeven, cervejaria holandesa que faz uma das trapistas mais conhecidas do mundo, a La Trappe. Aí vem outra boa notícia: a água residual não precisa ser de uma cerveja trapista, porque isso nem existe. O que diferencia as trapistas são questões sociais e culturais (além de religiosas), como não obter lucro e ser feita apenas, ou com a supervisão, de monges da ordem trapista. Ou seja, do ponto de vista bioquímico e industrial, uma cerveja trapista é igualzinha àquele litrão "pecador" que você e eu tomamos na esquina.

Consequentemente, o que os cientistas celebram é que não é a água residual dos meros 14,5 milhões de litros de cerveja produzidos anualmente pela Koningshoeven que podem servir como uma nova fonte de ração animal. Mas que todos os 191 bilhões de litros de cerveja fabricados no mundo por ano podem ajudar a mudar a indústria alimentícia.

Alloul acredita que as bactérias poderão servir de matéria-prima para rações de outros animais, deixando toda a cadeia mais sustentável. Não que beneficiar a produção de camarões já não seja um belo avanço, inclusive para a culinária belga.

Gastronomia reconhecida - e sustentável

Culinária belga é baseada em frutos do mar e, claro, cerveja - Alain RIVIERE-LECOEUR/Gamma-Rapho via Getty Images - Alain RIVIERE-LECOEUR/Gamma-Rapho via Getty Images
Culinária belga é baseada em frutos do mar e, claro, cerveja
Imagem: Alain RIVIERE-LECOEUR/Gamma-Rapho via Getty Images

Associamos a Bélgica a cervejas, batatas fritas, waffles e chocolate, mas o país tem também um litoral que, apesar de pequeno (menos de um quarto do tamanho da costa holandesa), é cultural e economicamente relevante.

Em 1897, os homens comandados por Adrien de Gerlache, a bordo do navio Belgica, foram os primeiros da história a passar o inverno na Antártica. Antuérpia, conectada ao mar pelo estuário do rio Escalda, tem o segundo maior porto da Europa.

Alguns frutos do mar compõem pratos nacionais: mexilhões com batatas fritas formam o famoso moules-frites e o camarão cinza é um tesouro do Mar do Norte usado em receitas tradicionais flamengas, como tomates-crevettes (tomate recheado com camarões e maionese).

A água residual da cerveja é mais uma arma na luta para tornar a forma como nos alimentamos mais sustentável, algo que está se tornando uma realidade cada vez mais presente.

"Rações à base de micróbios já estão no mercado. Muitas companhias estão focando nessa transição. Na Índia, por exemplo, estamos melhorando a tecnologia para produzir bactéria púrpura em água residual", diz Abbas. "Certamente vemos um futuro para a bactéria púrpura e a proteína microbial de maneira geral."

Quem diria que, no futuro próximo, aquela porção de camarões com cerveja pode ajudar a salvar o mundo.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado, as declarações do presidente francês estão corretas. Parte da soja importada pela Europa é proveniente da Amazônia.