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Terno de Joe Biden para a posse tem mais significado do que você imagina

Gustavo Frank

De Nossa

20/01/2021 04h00Atualizada em 20/01/2021 16h18

A forma com que nos vestimos diz muito sobre nós. Essa afirmação, por mais clichê que seja, permeia muitos âmbitos das nossas vidas, até mesmo o político. Prova disso é a escolha do presidente norte-americano eleito Joe Biden para seu terno para a posse da presidência norte-americana, nesta quarta (20).

Na ocasião, o político usou sobretudo e terno, ambos da Ralph Lauren, um dos maiores nomes da moda americana, para sua cerimônia. De acordo com o site WWD, fontes afirmara que ele coordenou com a marca um terno personalizado para marcar seu primeiro dia no cargo.

Joe Biden durante sua posse para a presidência dos Estados Unidos hoje (20) - Alex Wong/Getty Images - Alex Wong/Getty Images
Joe Biden durante sua posse para a presidência dos Estados Unidos hoje (20)
Imagem: Alex Wong/Getty Images

Por que esta grife?

Apresentação do 50º aniversário de Ralph Lauren no Central Park, Nova York, em 2018 - Getty Images - Getty Images
Apresentação do 50º aniversário de Ralph Lauren no Central Park, Nova York, em 2018
Imagem: Getty Images

A abordagem de Ralph Lauren para a diversidade, pauta que traz muitas (e importantes) discordâncias entre Biden e o ex-presidente Donald Trump, diz muito sobre o posicionamento político-social do presidente eleito para os próximos quatro anos.

Campanha da Ralph Lauren voltada para a comunidade LGBTQ+ - Divulgação - Divulgação
Campanha da Ralph Lauren voltada para a comunidade LGBTQ+
Imagem: Divulgação

Em 1990, o fundador e agora diretor de criação passou a ver a diversidade e a inclusão como elementos essenciais para a lucratividade e a imagem da marca.

O conflito entre abraçar, de fato, as minorias e lucrar a partir delas é analisado por Liliane Rocha, CEO e Fundadora da Gestão Kairós, consultoria de Sustentabilidade e Diversidade, e autora do livro "Como ser um líder inclusivo", para Nossa.

"Para mim, contratar profissionais que façam parte dos grupos de diversidade deve ser a maior preocupação para as marcas que estão trabalhando nesse campo", opina. "Elas precisam estar atentas a realmente valorizar e pensar a inclusão em toda a sua estrutura organizacional e não apenas na comunicação para o mercado".

Embora muitos associem a imagem da grife com luxo e ostentação, ilustrada por homens vestindo suas polos, posicionamentos no passado fizeram com que a Ralph Lauren transitasse mais no caminho para a inclusão.

Tyson Beckford para a Ralph Lauren - Divulgação - Divulgação
Tyson Beckford para a Ralph Lauren
Imagem: Divulgação

Em 1993, o modelo Tyson Beckford boicotou a Semana de Moda de Milão pela ausência de modelos masculinos negros. Pouco tempo depois, a grife o contratou e o vestiu com seus ternos listrados para campanhas, fazendo dele parte importante para a identidade da marca por muitos anos.

Atualmente, a marca continua a caminhar nesse sentido com campanhas publicitárias que retratam a "família" com protagonistas que fogem do estereótipo padrão, que conhecemos por aqui como os de "comercial de margarina".

"Como especialista no tema, acredito que esse é um movimento não apenas necessário, mas principalmente primordial", completa Liliane.

"Costumo dizer que 'a diversidade é um caminho sem volta' e estudos internacionais, como o Relatório da McKinsey&Company, estão aí para confirmar: empresas que valorizam a diversidade têm 35% de chances a mais de obter sucesso do que as que não se voltam para práticas inclusivas".

Campanha "Família é quem você ama" da Ralph Lauren - Divulgação - Divulgação
Campanha "Família é quem você ama" da Ralph Lauren
Imagem: Divulgação

A Ralph Lauren, apesar desses pontos, também já foi alvo de polêmicas envolvendo o racismo.

Um dos episódios aconteceu em 1997, depois que um gerente de uma loja em Long Island, nos Estados Unidos, enviou quatro funcionários negros e hispânicos para o estoque durante uma inspeção da loja, levando a uma ameaça de processo por discriminação.

Lauren recorreu a consultores e, posteriormente, formou uma equipe interna de diversidade e inclusão.

Mais recentemente, a empresa foi criticada por se apropriar culturalmente de símbolos nativos americanos em 2014 e, em janeiro de 2020, foi forçada a retirar produtos e se desculpar depois de usar o logotipo de uma fraternidade historicamente negra em uma de suas calças.

A moda na política dos EUA

Enquanto a capa da vice-presidente Kamala Harris para a "Vogue" norte-americana virou notícia ao mostrar dois lados da líder, sendo uma delas posando com um clássico da Converse para a publicação, a moda já comunicava antes disso com Donald Trump e Barack Obama.

Kamala Harris para a "Vogue" - Reprodução - Reprodução
Kamala Harris para a "Vogue"
Imagem: Reprodução
Outra versão da capa para a revista - Reprodução - Reprodução
Outra versão da capa para a revista
Imagem: Reprodução

Trump era conhecido por usar ternos europeus da Brioni, casa de alta-costura italiana, com cortes volumosos e gravatas longas. Já Obama optava por trajes mais discretos.

As primeiras-damas, Melania Trump e Michelle Obama, seguiam a mesma linha.

A primeira delas, inclusive, causou polêmicas ao desfilar com uma jaqueta que trazia a estampa nas costas com os dizeres "I don't care. Do you?", "eu não me importo e você?", durante uma visita a abrigos no Texas onde estavam crianças imigrantes que foram separadas de seus pais enquanto tentavam cruzar a fronteira dos Estados Unidos.

Melania Trump com a jaqueta mencionada durante visita aos abrigos com crianças imigrantes - Getty Images - Getty Images
Melania Trump com a jaqueta mencionada durante visita aos abrigos com crianças imigrantes
Imagem: Getty Images

Já Michelle Obama causava alvoroço ao dar luz a roupas acessíveis, muitas vezes de lojas às quais as pessoas que elegeram o seu marido pudessem comprá-las.

Embora os homens sejam mais discretos, ou alvos menores para esses assuntos, o que eles usam também pode causar barulho — mesmo que passe despercebido na maioria das vezes. Qual será o impacto do look de Biden?