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Os perrengues de brasileiros no exterior: "Me chamam de corona na rua"

Marina Pedroso está "ilhada" no Quênia: "Aqui existe o estigma de que é uma doença de branco" - Arquivo pessoal
Marina Pedroso está "ilhada" no Quênia: "Aqui existe o estigma de que é uma doença de branco"
Imagem: Arquivo pessoal

Rachel Verano

Colaboração para Nossa

18/04/2020 04h00

O fechamento das fronteiras provocado pela pandemia do coronavírus em diferentes países do mundo pegou muitos brasileiros de surpresa. No meio de grandes viagens, eles de repente se viram obrigados a assumir o isolamento social e a cumprir a quarentena em lugares onde conhecem pouco ou quase nada.

Com a incerteza do que acontecerá no futuro próximo e sem perspectivas de quando estarão "livres" novamente, estão se virando como podem para se ocupar, driblar o medo e até fazer um dinheiro extra. A seguir, como tem sido o dia a dia e as maiores dificuldades enfrentadas do Quênia à Tailândia, passando pela Europa.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Marina Pedroso
27 anos, jornalista
Onde: Mombasa, litoral do Quênia

Como ficou "ilhada": Marina deixou São Paulo em dezembro para realizar o grande sonho de dar a volta ao mundo focando em conhecer a realidade das mulheres pelo caminho. Depois de fazer safáris, visitar uma tribo de viúvas Maasai, subir até o cume do Kilimanjaro e se dedicar a um trabalho voluntário com portadoras de HIV em uma favela do interior do Quênia, ela viu todas as fronteiras se fecharem da noite para o dia. Há um mês, está completamente isolada em um apartamento emprestado por um amigo que conheceu na viagem - sua grande sorte quando viu os hotéis encerrarem as atividades.

Como está se virando: a jornalista passa os dias olhando para uma nesga do mar sem poder sair de casa - o máximo que faz é ir uma vez por semana ao mercado. Tem aproveitado para organizar suas fotos e escrever sobre as experiências que viveu nos últimos meses no blog. Para driblar a ansiedade extrema (ela chegou a baixar 20 e-books de uma vez na tentativa de se ocupar), parou de ler notícias e tem tentado se afastar das redes sociais. "Quando estou no meu limite, acordo muito cedo e vou dar um mergulho", diz ela, que perdeu nos últimos dias uma amiga vítima de malária com quem estaria justamente neste momento. "Mas tenho aprendido a ser resiliente e até a praticar o vegetarianismo, uma vez que não posso entrar com ovos ou carne no apartamento a pedido do meu amigo."

Maior perrengue: lidar com o preconceito e a xenofobia. "Aqui existe o estigma de que é uma doença de branco", diz Marina. "Você está andando na rua e as pessoas me chamam de corona na rua. Ficam gritando: 'Corona! Corona! Volta para o seu país!'" A jornalista conta que, recentemente, ao pegar um mototáxi para ir a um mercado comprar comida, teve que se esconder com um capacete a pedido do condutor, para que não fosse reconhecida como estrangeira. O motivo? Ele temia não conseguir mais passageiros depois de transportá-la.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Thiago e Ana Beatriz Dalleck
29 e 28 anos, webdesigners
Onde estão: Praga, República Tcheca

Como ficaram "ilhados": em janeiro deste ano, o casal paulistano partiu para uma experiência de vida nômade. Com empregos remotos, a ideia era passar um ano na Europa, vivendo cada mês em um país diferente. A empreitada começou por Portugal e seguiu pela Itália, de onde tiveram que sair às pressas com a notícia do lockdown. Depois de horas tentando comprar passagem "para qualquer lugar", segundo Bia, a dupla conseguiu embarcar para Praga, onde está há cinco semanas sem sequer conseguir circular.

Como estão se virando: ver a cidade que tanto sonhavam? Só mesmo nos poucos minutos de caminhada que separam a casa do supermercado, quando aproveitam para prestar atenção em cada fachada - mas sempre de máscara, cujo uso é obrigatório (sob pena de multa imediata de cerca de R$ 4 mil). Tendo que mudar de Airbnb praticamente a cada duas semanas, o casal já se especializou em se adaptar instantaneamente - atualmente, um dos maiores desafios é estocar a comida de 15 dias tendo apenas um frigobar no apê. Com os empregadores do outro lado do mundo, o trabalho costuma ir até bem tarde da noite. Insônia, ansiedade e dificuldade de concentração no trabalho são os maiores desafios.

Maior perrengue: não identificar a maioria dos alimentos no supermercado e nem conseguir pedir delivery de comida, por causa do idioma. "Muitas vezes temos que adivinhar as embalagens", diz Bia. "Outro dia, o Thiago trouxe o que imaginava ser um bolo de chocolate e era um feijão horrível!" Todas as tentativas de pedir pizza também foram frustradas - com os aplicativos e sites em tcheco, mesmo o passo a passo mais básico, como escolher os sabores ou confirmar o pedido, se transformou num desafio.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Júlia Martins e Fernando Betzel
27 e 31 anos, pedagoga e publicitário
Onde estão: Ubon Ratchathani, interior da Tailândia

Como ficaram "ilhados": amante de viagens, a dupla carioca deixou o Brasil com a ideia de dar aulas na Ásia. Depois de uma experiência em Bangladesh, veio a chance de realizar um sonho: o voluntariado em uma escola na Tailândia. Há um mês, viram tudo fechar: as fronteiras, as estradas, a escola. Desde então, passam o dia dentro de casa numa região cercada por campos de arroz, bem na fronteira com o Laos e o Camboja.

Como estão se virando: as aulas presenciais da escola foram substituídas por vídeos e lives com os alunos. "Da noite para o dia, tivemos que virar youtubers", diz Júlia, que tem a dificuldade extra de lecionar a crianças de apenas 3 anos. "É uma pressão e um desafio enormes, pensamos nisso 24 horas por dia." As refeições, que antes eram feitas na escola, gratuitamente, também têm que ser feita em casa, o que significa um gasto maior. "Todo o nosso dinheiro que iria para pequenas viagens está sendo consumido vorazmente", diz Fernando.

Maior perrengue: dividirem o único cômodo da casa durante as 24 horas do dia, sob um calor extremo, para dormir, trabalhar, fazer as refeições, descansar. "Dou oito passos e a casa acaba", diz Fernando. "O pior é que eu simplesmente não consigo ficar parado!" Resultado: anda em círculos o dia inteiro e o aplicativo do celular que mede as distâncias costuma marcar quilômetros percorridos todos os dias - 10 mil passos foi um dos recordes.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Maria do Rosário de Marco Fernandes
74 anos, aposentada
Onde está: arredores de Lisboa, Portugal

Como ficou "ilhada": há cinco semanas, viu sua primeira viagem para a Europa se transformar em confinamento. Semanas antes, ela, o marido e o filho embarcaram para visitar a família da filha, que vive nos arredores de Lisboa. Os passeios pelo Mosteiro dos Jerónimos, pelo Castelo de São Jorge e pelas ruelas Alfama são agora memórias do passado.

Como está se virando: ao ver que estava acabando a lã do seu tricô do dia a dia, Rosaly (como é conhecida), que não consegue cogitar a ideia de ficar parada, resolveu resgatar da memória sua famosa receita de torta. Juntou a família toda na cozinha para literalmente colocar a mão na massa e vender pela vizinhança. Os anúncios são feitos aos conhecidos via whatsapp, todos cozinham, a filha e o genro fazem entregas de bicicleta. Chegam a confeccionar 10 unidades num fim de semana. "Sempre gostei de cozinhar; e ainda entra um dinheirinho".

Maior perrengue: passar os dias confinada com o marido, o filho, a filha, o genro e o neto em um apartamento pequeno. "Somos cinco adultos e uma criança quase sem espaço; é uma prova de vida!", diz Rosaly. "No máximo vou até o fim da rua, que é sem saída e sem movimento, para dar uma voltinha ao sol. Mas não reclamo e procuro viver um dia de cada vez - ou você aceita ou fica louca!"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
Osvanira Alves
37 anos, zootecnista
Onde está: Larciano, interior da Itália

Como ficou "ilhada": no início de fevereiro, Nira deixou o Rio de Janeiro com o marido rumo à Itália para que ele pudesse dar entrada in loco no processo de cidadania. O casal alugou um pequeno apartamento numa vila de apenas 6 mil habitantes na Toscana com o objetivo de ficar por dois meses, aproveitando para explorar a região. A sequência de notícias foi ficando cada vez pior: primeiro fecharam as fronteiras, depois o processo foi oficialmente suspenso, sem perspectivas de retorno.

Como está se virando: logo que o cerco começou a fechar na Itália, as visitas às vilas da Toscana foram trocadas por meros pores do sol na janela. As restrições foram aumentando com o tempo. Agora, sair, só para o estritamente necessário - e sempre de máscara, de uso obrigatório. Enquanto tenta criar uma dinâmica para o funcionamento de sua empresa à distância, Nira tenta driblar a ansiedade criando uma rotina com horário para acordar, dormir, fazer as refeições. Como não encontra quase nada no mercado da cidade, único estabelecimento aberto, as compras pela internet se tornaram as melhores aliadas. A última invenção para passar o tempo foi começar a fazer cerveja artesanal. "Você tem que arranjar com o que se ocupar para não surtar", diz ela. "Passar por tudo isso fora de casa é pesado."

Maior perrengue: ter a vida controlada o tempo todo pela vizinhança. "Somos os únicos estrangeiros daqui e as pessoas dão notícias de tudo o que fazemos", diz Nira. "Outro dia, durante uma caminhada, fomos parados por um policial que nos mandou voltar pra casa e disse que estamos saindo demais."

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Imagem: Arquivo pessoal
Letícia Moresca
30 anos, empresária
Onde está: Bali, Indonésia

Como ficou "ilhada": formada em Direito, a paranaense é a típica nômade digital. Desde que criou uma empresa de moda praia com vendas online, tem a liberdade de trabalhar dos quatro cantos do mundo. Neste exato momento, este canto responde pelo nome de Canggu, uma vila de ares hipsters em Bali. Foi de lá que ela assistiu primeiro o esvaziamento e, depois, o isolamento total da ilha.

Como está se virando: impossibilitada de lançar a nova coleção (não há sequer como fazer as fotografias), Letícia está tentando focar no lado mais burocrático da empresa, como refazer o site, enquanto vê tudo parado. Os trabalhos em co-workings e cafés, que são a cara de Bali, foram trocados por um quarto dentro de casa. As refeições que costumava fazer fora, agora são 100% dentro de quatro paredes. Praias, nem pensar - estão oficialmente fechadas. "A ilha está vazia, não tem turista nenhum, é desesperador. Não sou local, não posso sair quando eu quiser e não faço ideia de como seria o atendimento de saúde caso precisasse."

Maior perrengue: estar a poucos passos de um dos mais bonitos pores do sol do mundo e terminar o dia praticamente sem conseguir ver o céu. "Em cinco semanas, minha maior aventura foi me deslocar a uma distância máxima de duas quadras da minha casa para colocar gasolina na moto", diz Letícia. "A sensação de estar presa numa ilha, sabendo que não vou conseguir sair quando eu quiser, é um desafio mental muito grande!"