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De milhares de mortes à luz no fim do túnel: um relato da Espanha de hoje

Funcionário desinfeta as "terrazas" públicas de Barcelona para prevenir contra o coronavírus - Europa Press/Getty Images
Funcionário desinfeta as "terrazas" públicas de Barcelona para prevenir contra o coronavírus
Imagem: Europa Press/Getty Images

Adriana Setti

Colaboração para Nossa

11/04/2020 04h00

A primavera chegou trazendo dias cálidos e estamos em plena Semana Santa. O normal seria que, neste momento, milhões de espanhóis estivessem boiando no Mediterrâneo, ou acompanhando as celebrações católicas na Andaluzia. Mas nada disso está acontecendo.

As procissões das irmandades religiosas de Sevilha e arredores foram canceladas pela primeira vez desde 1933 (período de turbulência social), para desespero dos fiéis, que estão tendo que se contentar com missas em lives no Youtube - algo tão insípido quanto uma mona de Páscoa (rosca típica enfeitada com ovos... de galinha). Os tempos são igualmente desfavoráveis aos prazeres mundanos, com controles policiais ostensivos nas estradas para impedir o movimento vamos a la playa.

Tempos duros

Prestes a completar um mês de confinamento, a Espanha assimila o primeiro golpe duro no setor do turismo. Principal feriado do ano (quando muita gente costuma emendar quase dez dias de folga), o da Páscoa é responsável por 15% do faturamento anual da indústria, que representa 12,3% do PIB do país e emprega mais de 2,6 milhões de pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.

Com hotéis, museus, restaurantes e bares fechados, muitos profissionais da área estão entre os 3 milhões que tiveram seus contratos de trabalho suspensos temporariamente através dos ERTE (Expediente de Regulamentação Temporária de Emprego) desde que a quarentena começou, dia 14 de março, e dos outros 900 mil que foram despedidos antes que o governo vetasse, em 28 de março, as demissões por coronavírus, segundo os últimos dados publicados pelo Ministério do Trabalho.

Farmácia em Barcelona: apenas serviços essenciais seguem abertos após um mês de confinamento - Europa Press/Getty Images
Farmácia em Barcelona: apenas serviços essenciais seguem abertos após um mês de confinamento
Imagem: Europa Press/Getty Images

A crise sem precedentes vem azedando a relação entre o governo de Pedro Sánchez, do Partido Socialista (PSOE), e a oposição, sobretudo no que se refere às medidas econômicas. Mas, da esquerda radical à extrema direita, todos os partidos apoiam a adoção das recomendações da Organização Mundial de Saúde. O isolamento social como forma de conter a pandemia não é contestado. Questionar a eficiência da quarentena simplesmente não está em pauta.

Tempos confinados

Estamos vivendo a etapa mais rígida do confinamento. A regra básica é a mesma desde sempre: só é permitido sair por motivos primordiais, sob o risco de tomar uma multa de 300 a 1000 Euros (330 mil sanções foram aplicadas entre 14 de março e 4 de abril, segundo o Ministério do Interior).

A diferença é que, desde 30 de março, há muito mais gente em casa, com a paralisação de setores como a construção e a siderurgia. A partir da semana que vem, alguns trabalhadores dessas áreas devem voltar à ativa, mas o estado de emergência seguirá em vigor até, pelo menos, 26 de abril (com provável prorrogação até 10 de maio).

Cenário da quarentena: uma das principais avenidas de Barcelona quase vazia - Getty Images
Cenário da quarentena: uma das principais avenidas de Barcelona quase vazia
Imagem: Getty Images

Tempos de novas tradições

À espera da liberdade, acordo, faço exercícios, medito, escrevo sobre o monotema do momento, atualizo o Instagram com a situação na Espanha, leio, assisto filmes e séries, durmo, repito.

Todo dia, pontualmente às 20 horas, também saio na varanda para aplaudir os profissionais do sistema de saúde, que finalmente começam a observar uma redução no número de internações por covid-19.

Morando justo na frente do Hospital Clínico de Barcelona, o maior da Catalunha, pude acompanhar como este momento foi se convertendo em espetáculo. Minutos antes, dezenas de médicos e enfermeiras enfileiram-se na escadaria da entrada principal e, na hora exata, avançam até a calçada cercados por câmeras de TV e outros heróis anônimos da pandemia: policiais, motoristas de ambulâncias, lixeiros.

Todos os dias, a população aplaude os profissionais que estão na linha de frente do combate ao coronavírus - Getty Images
Todos os dias, a população aplaude os profissionais que estão na linha de frente do combate ao coronavírus
Imagem: Getty Images

As palmas e sirenes soam por vários minutos, intercaladas por gritos de "Sí, se puede! Sí, se puede!". Cessam os aplausos, entra em cena a rádio quarentena, fazendo ecoar "Resistiré", música dos anos 80 convertida em hino momentâneo: "Resistiré, para seguir viviendo. Soportaré los golpes y jamás me rendiré".

A cena é seguida de perto por dezenas de pessoas devidamente acompanhadas de seus cães. Passear com o animal é considerado atividade essencial e tudo indica que a quilometragem da bicharada disparou nos últimos tempos.

O efeito "Dia da Marmota" fez com que os 27 dias que levo confinada passassem extremamente rápido. "E como se estivéssemos em um filme", dizem amigos no Zoom, o botequim da quarentena. Compartilhava da mesma sensação até que, nesta semana, o inimigo invisível ficou mais palpável, com a notícia da morte de duas pessoas conhecidas por covid-19, uma em São Paulo e outra em Viena, na Áustria.

Morador em Barcelona: no isolamento, a sensação de "como se estivéssemos em um filme"  - Europa Press/Getty Images
Morador em Barcelona: no isolamento, a sensação de "como se estivéssemos em um filme"
Imagem: Europa Press/Getty Images

Tempos de pequenas vitórias

Mas, se há algo que aprendemos nessas quase quatro semanas de quarentena, é a colher boas notícias nas entrelinhas. Num passado bem próximo, celebrar 6.180 contágios por coronavírus em 24 horas (dados do momento no qual estou escrevendo este relato, dia 9 de abril) pareceria um disparate. Mas, desde que a Organização Mundial de Saúde decretou a pandemia de covid-19, um mês atrás, os conceitos e métodos da epidemiologia tornaram-se tão familiares quanto pessoas de máscaras pelas ruas.

Com isso, sabemos que a proporção de novos infectados diz mais que o total acumulado. Ao início do estado de emergência, o aumento de casos diários era de 22%. Já esta semana, bateu na casa dos 3%. O mesmo raciocínio vale para a contagem de mortos, que atingiu a cifra mais dramática em 2 de abril, com 950 falecidos, o que converte os 683 de hoje em um sopro de otimismo. Um novo tipo de otimismo.

Bandeira a meio mastro na Prefeitura de Madri pelo luto das pessoas que morreram durante a pandemia - Europa Press/Getty Images
Bandeira a meio mastro na Prefeitura de Madri pelo luto das pessoas que morreram durante a pandemia
Imagem: Europa Press/Getty Images

Enquanto comemoramos o achatamento da curva de contágios - o Cálice Sagrado da pandemia -, fica cada vez mais claro que, para baixo, nem todo santo ajuda. Na fase mais aguda da epidemia, víamos como os números escalavam o gráfico de forma constante e implacável. A descida, por sua vez, tem sido lenta e acidentada.

Dia após dia, dados positivos são atropelados por cifras desanimadoras e o crescente consenso em torno ao fato de que, devido à falta de testes, as estatísticas divulgadas diariamente pelo Ministério da Saúde não revelam a real magnitude da tragédia que a Espanha vem enfrentando.

Segundo um estudo publicado pelo Imperial College de Londres na semana passada, enquanto as cifras oficiais apontavam para 100 mil contagiados, a Espanha teria cerca de 7 milhões de infectados, o equivalente a 15% da população.

Se por um lado a projeção é assustadora, também nos ajuda a enxergar que, em realidade, a taxa de mortalidade do vírus pode não ser tão espantosa quanto sugerem os números oficiais, na casa dos 10%.

Os hábitos de consumo dos espanhóis mudaram desde o início da quarentena: produtos frescos são mais buscados - Europa Press/Getty Images
Os hábitos de consumo dos espanhóis mudaram desde o início da quarentena: produtos frescos são mais buscados
Imagem: Europa Press/Getty Images

Tempos de mudança

Outro tipo de estatística nos dá uma ideia do que vem acontecendo nos lares espanhóis. Passada a guerra do papel higiênico dos primeiros dias, na segunda semana a luta recaiu sobre a cerveja e o vinho, fazendo com que as vendas dessas bebidas aumentassem em 77,65% e 67,7%, respectivamente. O apetite coletivo também se inclinou por azeitonas (+93,82), chocolate (+79,04%), sorvete (+76,19) e batata frita (87,13%).

Um provável susto na balança fez com que, na terceira semana, as tendências de consumo mostrassem o aumento da procura de produtos frescos em relação aos sete dias anteriores. Segundo dados da ASEDAS (Associação de Empresas de Supermercados), o consumo de carne bovina cresceu em 29% e a de ovelha, 31%.

Também subiu a fome de frutas (18,5%) e verduras (+25,4%) - acabei de voltar do supermercado, onde topei com a seção de hortifruti arrasada. O produto do momento, no entanto, é a farinha, que vem sendo 200% mais consumida. Com padarias fechadas ou funcionando em horário reduzido, muita gente vem aderindo à moda do pão caseiro.

Tempos de esperança

Morador de Barcelona à janela: na espera de quando a vida poderá voltar ao "normal" - Europa Press/Getty Images
Morador de Barcelona à janela: na espera de quando a vida poderá voltar ao "normal"
Imagem: Europa Press/Getty Images

Também começam a sair do forno as primeiras pistas sobre como será a volta à normalidade. Segundo explicou Salvador Illa, ministro da saúde, a partir da semana que vem milhares de pessoas começarão a ser testadas para que o governo possa traçar estratégias mais sólidas, identificando em que partes do país o isolamento social poderia ser afrouxado.

De olhos postos em Wuhan, o berço da epidemia na China, que celebrou o fim da quarentena esta semana, todos os caminhos apontam para um processo gradual, com margem para que acertos e erros ditem eventuais ajustes.

Na ausência de uma vacina, também é provável que as pessoas do grupo de risco tenham que lançar mão de uma dose extra de paciência e cautela. Grandes eventos, viagens internacionais e noitadas em inferninhos abafados ainda parecem uma realidade distante, mas quem se importa com isso? O dia de dar uma voltinha no parque ou tomar uma cervezita em uma terraza pode estar próximo.