O cozinheiro intranquilo

Alheio às redes, sem amarras e sem "mimimi", André Mifano faz balanço da carreira

Juliana Simon Editora do UOL Osmar Portilho/UOL

Se você entrasse nas cozinhas dos anos 2000 ou desse o play em um reality culinário antes da era dos streamings, era fácil encontrar uma legião de bad boys que assumia as panelas, fazia barulho e mostrava que, para administrar um restaurante, eram necessárias faca e língua afiadíssimas.

Foi nesse cenário que André Mifano se criou e ganhou a fama. "Hoje poucos vêm aqui porque me conheceram na TV", disse o chef em entrevista a Nossa em maio de 2023. Mas não há post das redes sociais do seu Donna ou de sua conta pessoal em que não se veja fãs nostálgicos lamentando sua ausência nas telinhas.

As mídias sociais, aliás, são um paradoxo para o chef: as fotos e curtidas enchem o restaurante? As críticas dos influencers gastronômicos devem ser levadas a sério?
Com vocês, toda a intranquilidade de alguém que só almeja faturar o tanto que permita suas viagens para pescar.

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Se você está achando que as coisas que eu estou falando são chatas, você não precisa assistir. Não precisa ir lá embaixo do comentário e falar que eu falo merda. Quem sou eu pra falar para as pessoas o que elas devem ou não saber sobre mim? Eu sou um Zé Ninguém. Sou cozinheiro

André Mifano

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Cozinheiros e chefs

Cozinhar é uma arte? Para Mifano, não. Mas o cozinheiro é um artesão e "um cara diferente". A transformação dos ingredientes, porém, só acontece com rotina, e ela (sinto, aspirantes a MasterChefs) é repleta de regras.

As essenciais para qualquer cozinheiro, segundo Mifano: respeito ("não peço nada dentro da cozinha sem falar 'por favor' e 'obrigado'"), organização ('no ponto de quase TOC'), consistência ("porque ele tem que fazer exatamente a mesma coisa todo dia"), gostar de estudar ("não é ler livro. É ler livro, assistir filme, sair pra comer, tomar drink, ficar bêbado, falar merda") e habilidade social.

Anotou? Se o desejo é se tornar um chef, além das anteriores, mais algumas: saber fazer conta, trabalhar sob pressão interna e externa, saber se comunicar o tempo inteiro e ter empatia.

"Todas essas habilidades do chef, desde da cozinha que ninguém ensina. Eu não sei nem como eu aprendi", conta, modesto - mas não muito.

Ah, você quer ser cozinheiro, chegar a chef e ainda trabalhar com o Mifano? Toma mais três mandamentos: não chegarás atrasado ("nunca", diz categórico), não falarás mentira e, na hora em que chegares, trancarás o celular dentro do armário (#chorainfluencer).

"Então imagina eu falar para um cara que saiu da faculdade que por algum motivo acha que vai ficar na minha cozinha e que vai fazer vídeo para eu fazer post", diz o chef, que não conhece a nova geração de colegas espalhados pelos likes.

"Eu não sei se eu tenho a sorte ou azar de pegar quando eu abro vagas. Esses caras não aparecem aqui, porque eu acho que a minha postura em relação à profissão não atrai, porque eles sabem que daqui não vai sair nada."

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A cozinha do Donna, nos Jardins

Saúde mental na cozinha

Diante de retratos ficcionais e relatos reais sobre o estresse nas cozinhas, Mifano traça um histórico para explicar o machismo e a agressividade até pouco tempo tolerados entre os profissionais dos restaurantes.

Na cultura da cozinha profissional moderna, quem eram as pessoas que entravam na cozinha, principalmente nos Estados Unidos? Gente que estava em conflitos como Segunda Guerra Mundial, Coreia e Vietnã.

"Vinham esses soldados com PTSD [sigla, em inglês, para transtorno de estresse pós-traumático], não conseguiam trabalhar e acabavam presos. Saíam da cadeia marcados na alma e no cérebro, e onde as pessoas que não tinham qualificação iam trabalhar? Onde eu fui quando larguei a escola: numa pia dentro da cozinha", diz Mifano.

Isso era uma aberração daquele momento da gastronomia que tem sempre um dois idiotas que se identificam e acham que essa é a profissão. Alguns indivíduos perpetuaram essa cultura do assédio moral"

Esse cenário, segundo o chef, explica o clima hostil do pós-guerra e os egos, mas não as reclamações e protestos de jovens cozinheiros sobre saúde mental.
"Eu acho que as pessoas têm muito mimimi. Todo mundo tem problema mental. O mundo é muito difícil", acredita.

Para Mifano, se acha ruim a pressão de estar em uma cozinha, está na profissão errada.

"Toda profissão é assim. Então para de reclamar, levanta um pouco mais cedo e vai fazer um exercício, acha um hobby, vai estudar ou fazer terapia", aconselha.

Comecei a cozinhar porque na minha casa ou se trabalhava ou estudava. Fui lavar a louça porque era a única coisa que um moleque de 50 quilos com 17 anos de idade podia fazer. Na construção civil é que eu não ia trabalhar

André Mifano

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O lugar do restaurante

Hoje em sua terceira empreitada na restauração — antes do Donna, Mifano comandou o Vito e o Lilu — o chef viu tudo mudar. Já não existe aquela segunda rodada de serviço às 22h30, nem os chefs contam tanto com um público fiel. A culpa, segundo Mifano, é das telinhas.

"Quem tem mais capacidade de estar presente nas redes vai ser o cara que vai ter mais sucesso na profissão dele e eu não consigo me adaptar a isso. Eu só sei fazer comida", crava.

O chef reclama da falta de comunhão dos clientes, que hoje entram mergulhados em seus smartphones, escolhem os pratos pelas fotos das redes sociais e, nos registros para a posteridade do Instagram e TikTok, deixam a comida esfriar.

Ainda que o cenário seja diferente e que o desenvolvimento seja cada vez mais lento — se não viraliza por aí —, Mifano tem na ponta da língua a fórmula do que considera um bom restaurante mesmo em tempos estranhos:

Um restaurante bom oferece o que promete, tem atendimento muito bom e uma comida, obviamente, bem feita"

Mas o que faz de um restaurante um sucesso de público e crítica? Aí a coisa complica e os critérios mergulham em subjetividade e interesses, como demonstram os muitos prêmios, rankings e estrelas de gastronomia que surgem no mundo.

"Estrela Michelin, por exemplo. Foi criado porque o pneu Michelin tinha um guia onde falava lugares onde você podia comprar pneus e onde se podia comer em volta. O problema é a mistura do dinheiro com o ego", opina.

Mifano vê as premiações com discrepâncias muito absurdas entre restaurantes que, claramente, não são um melhor do que o outro. "Mas é muito mais influente e rico do que o outro. Aí começo a pensar que talvez, só talvez, as coisas não sejam tão honestas", diz.

Se é uma questão de dinheiro e influência, por que você faz um restaurante? Pra mim não serve para nada.

André Mifano

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As malditas redes

"A minha relação com as redes sociais nem é de amor e ódio, é de não entender", desabafa. Para André, há uma lavagem cerebral nos usuários que ficam horas na tela por 15 minutos de informações irrelevantes.

Ao mesmo tempo, o chef assume que, se aparecer nesses 15 minutos, faturaria mais e atrairia anunciantes. "Só que para eu ganhar dinheiro em detrimento da minha alma e explorando o próximo, eu prefiro não", crava.

Mifano lamenta a escassez de imprensa especializada em restaurantes e até mesmo dos críticos gastronômicos: "O crítico de gastronomia sempre foi — e eu acho que sempre vai ser — um elemento muito importante da gastronomia. Sem o crítico, os restaurantes não iam ter referência", afirma.

E aproveita para analisar as críticas de redes sociais: "O trabalho do crítico, além de ser subjetivo, precisa de bagagem e banco de dados. Então a pessoa de 19, 20, 25 anos não é esse. Não tem bagagem para ser crítico. Ele não comeu bastante. E se ele comeu bastante, ele não leu bastante. E se ele não leu bastante, ele não escreveu bastante. Ele não é um crítico e só está dando a opinião dele", critica.

"Agora, sabe qual é o problema? Às vezes, esse cara que não sabe bosta nenhuma e que só está dando uma opinião tem 22 milhões de pessoas ouvindo a opinião dele no TikTok e isso pode destruir 23 anos de profissão de alguém. É isso que me dá medo", diz.

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TV enche restaurante?

Após participações em programas de sucesso como "The Taste Brasil" e apresentação de "Lugares Desconhecidos", de Anthony Bourdain, na CNN Brasil, Mifano diz que a televisão ainda atrai alguns poucos clientes ao Donna.

"A TV entrou na minha vida do jeito mais esquisito do mundo. Tinha uns 23 e era um programa superchapa-branca. Ia num monte de restaurantes e tinha que falar que estava sempre tudo bem. Depois veio o 'The Taste Brasil', que eu acho um baita programa. Depois me deram lá um outro programa bem ruim que eu não tive escolha nenhuma. Eu fiz e beleza", relembra.

Por ora, Mifano não pretende voltar às telas. "Eu só vou fazer TV de novo se for por uma coisa que eu acredito muito, que eu acho que vai ser muito legal ou por muito dinheiro", diz.

Após sucessivas participações em produções da TV fechada, outra exigência para a volta é estar presente na casa de mais gente. "Já que eu estou mais bocudo, se vão me colocar na televisão, eu quero ter alguma relevância, quero falar para uma multidão", sinaliza.

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Hoje em dia eu sei claramente o que eu quero. Eu já fiz tudo muito de tudo, já viajei, já cozinhei fora, já ganhei prêmios, fui muito criticado, perdi um restaurante por burrice minha, outro porque me derrubaram o restaurante. Consegui construir outro, coloquei um produto no mercado que ninguém fazia até 2008, que era barriga de porco. E eu sei que fui eu.

André Mifano

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Deixa o chef pescar

"Sabe o que eu queria? O meu sonho? A minha ambição? Que meu legado fosse pessoas. Que eu pudesse influenciar de uma forma positiva e que daqui a dez anos, ou seis anos ou um ano eu visse e falasse 'olha esse cara aqui, olha onde ele chegou'", diz Mifano.

Como ele mesmo diz, ao entrar numa cozinha e liderá-la, ninguém diz que além de chef você será pai, psicólogo, irmão. "Eu quero que eles estejam muito bem, muito bem, pra eles fazerem a minha comida muito bem, pro meu restaurante ser muito bom e consequentemente, a gente ganhar dinheiro pra eu poder ir pescar", conta.

Após mais de duas décadas na cozinha, o chef conta que só nos últimos três anos começou a se dar o direito de tirar férias, viajar de verdade para um lugar onde eu não tenha que fazer nada.

Finalmente eu consegui abrir um restaurante onde eu não me apego a nada, não tenho obrigação de fazer comida italiana, mas é o que eu sei fazer. Não me sinto obrigado a fazer nenhuma receita"

E já que passaporte é um refúgio, qual seria a experiência gastronômica no mundo que emocionou o chef?

Após quase duas horas de entrevista, o tal bad boy das panelas se derrete e se emociona ao lembrar de uma senhora refeição perto do Monte Saint Michel, na França.

"Acabei de lembrar... a carne e o jeito que ela estava cozida, assada, o rim no meio, no ponto perfeito. Olha, puta merda! É verdade, é verdade."

Papo de cozinha

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