A melhor da Europa

Por que os europeus amam a Ilha da Madeira - e você também vai se apaixonar pela terra de Cristiano Ronaldo

Osmar Portilho De Nossa, da Ilha da Madeira, Portugal BlackBoxGuild/Getty Images

"Pousamos no aeroporto Cristiano Ronaldo". Essa era a frase que gostaria de ter ouvido ao aterrissar na Ilha da Madeira, mas, infelizmente, o piloto escolheu omitir o nome do craque nascido no arquipélago e que dá nome ao aeroporto da região autônoma portuguesa.

Vencedor da Bola de Ouro — prêmio dado ao melhor jogador de futebol do mundo — em cinco ocasiões, Cristiano Ronaldo nasceu em um lugar igualmente vitorioso.

A Ilha da Madeira foi eleita 8 vezes consecutivas como melhor destino insular do mundo pelo World Travel Awards.

Entre praias vulcânicas, piscinas naturais, hotéis de luxo centenários e um relevo desafiador que moldou a cultura do povo madeirense, conhecemos um pouco da ilha que atrai os europeus há décadas.

Dê o play no vídeo abaixo e veja como é viajar pela terra natal de CR7:

O tal do 'Havaí português'

Um voo de 1h45 separa Lisboa do arquipélago. Essa distância de quase mil quilômetros é suficiente para que a ilha — que fica mais perto da África do que da Europa — seja bem mais quente que as cidades do continente e tenha recebido em outras épocas o apelido de "Havaí português" — título que também já foi dado aos Açores.

A região autônoma é um arquipélago formado pela Ilha da Madeira, Porto Santo, Ilhas Desertas e Ilhas Selvagens. Das quatro, apenas as duas primeiras são habitadas.

Em seus pontos mais distantes entre si, a ilha principal tem extensão de leste a oeste de 54 quilômetros e de 23 quilômetros entre norte e sul.

Sendo uma ilha de formação vulcânica, seu terreno é predominantemente montanhoso, o que fez com que a maior parte da sua população se concentrasse nas áreas costeiras, principalmente no Funchal, que tem 105 mil habitantes.

É na capital da Madeira também que estão os principais hotéis — embora exista quem queira se hospedar em partes mais isoladas da ilha — e onde param os grandes cruzeiros para passeios de turistas. Em épocas de alta temporada, Madeira já registrou 55 embarcações atracadas em um mês.

Inclusive, na hora de planejar seu roteiro, vale checar se haverá cruzeiros visitando Funchal, o que pode fazer com que algumas atrações tenham filas maiores.

Embora não seja um destino amplamente conhecido para turistas vindos da América do Sul, é um refúgio clássico para europeus, principalmente ingleses, vistos aos montes nas ruas do Funchal.

"A primeira vez que vim à Madeira foi em 1974. Fiquei no Savoy com a minha família. E muito antes de eu nascer meu pai já vinha para cá", disse o britânico Martin Gritter, enquanto papeávamos esperando um transfer no hotel.

Cada vez é diferente. Optamos por Funchal para ficar mais perto de restaurantes, mas também já viemos para áreas afastadas para descansar"

Destino de luxo? Sim, mas não só isso

Existe uma ideia de que a Ilha da Madeira é um destino predominantemente de luxo. Em parte até pode ser verdade: os hotéis e resorts com spa cinco estrelas estão lá, mas ficar o dia todo fechado em uma sauna pode ser uma roubada.

A capital Funchal, por exemplo, tem todas as características de uma cidade europeia. Vale a pena caminhar pela orla, ver navios partindo da marina e se perder pelas vielas até encontrar um bar ou restaurante escondido. Aqui vão algumas atrações ao ar livre que merecem estar no seu roteiro:

Osmar Portilho/UOL

Teleférico

Esta é uma boa maneira de ver o Funchal de cima. Por 12,50 euros, você faz o passeio que dura em média 15 minutos e chega ao bairro do Monte, onde há uma vista privilegiada e também há possibilidade de emendar outros passeios na parte alta da cidade, como os Carreiros do Monte e o Jardim Botânico.

Osmar Portilho/UOL

Jardim Botânico

Vale reservar algumas boas horas para curtir os oito hectares de jardins temáticos que contam a história de Portugal e de outras culturas. Em um estilo que lembra Inhotim, há instalações de arte e pequenas galerias com obras em exposição e diversos jardins temáticos inspirados em biomas de todo o mundo.

Osmar Portilho/UOL

Cidade Velha

Igrejas, restaurantes, lojas, cafés e bares com climinha de cidade do interior onde se pode fazer tudo a pé. Vale conhecer de ponta a ponta a rua de Santa Maria, a mais antiga da ilha, que leva até o Forte de São Tiago. Dá para se perder nas vielas até encontrar um restaurante ou um café ou até dar um mergulho no mar.

Sofá com adrenalina? A tradição dos Carreiros do Monte

Se a subida foi no moderno teleférico do Funchal, a descida foi semelhante ao que era no século 19 com o primeiro meio de transporte da ilha, os Carreiros do Monte.

Esta era uma maneira encontrada para quem queria descer rapidamente do Monte até o centro. De utilitário passou a tradição.

O carrinho tem a estrutura parecida com a de um sofá de vime com almofadas sobre trenós de madeira que deslizam pelo asfalto. Dois condutores freiam e derrapam junto durante todo o trajeto, que leva menos de 10 minutos e pode atingir velocidades até 38 km/h.

Embora não se sinta nenhum tipo de perigo real, a sensação de velocidade ao deslizar pelo asfalto pode dar frio na barriga. Nas curvas, os condutores derrapam para controlar o carrinho e corrigir o traçado. O passeio para duas pessoas custa 35 euros.

Dois pratos típicos para se experimentar

Getty Images/iStockphoto

Bolo de Caco

Servido muitas vezes como entrada ou acompanhamento, é um tipo de pão que leva batata doce em seu preparo. Como recheio, tem uma mistura de manteiga ou azeite com alho e salsa. Cada receita pode variar dependendo do restaurante, mas é difícil fazer a combinação ficar ruim.

Reprodução/Visit Madeira

Espetada

Embora seja um destino com bastante oferta de frutos do mar, esta é uma das receitas mais comuns de se encontrar com apenas quatro ingredientes: carne de boi, folhas de louro, alho e sal grosso. A carne é espetada no próprio galho da árvore do louro e absorve o aroma defumado das folhas.

Um pouco mediterrâneo, um pouco de montanha, um pouco de tudo

Prepare-se para os microclimas de Madeira. É normal dar uma olhada na previsão do tempo da ilha e se surpreender com a amplitude das temperaturas.

E é assim mesmo. A ilha possui 7 microclimas, ou seja, existe uma variação dos padrões climáticos em regiões específicas em função de suas características.

Você pode se preparar para todos os climas, mas, de alguma maneira, será pego de surpresa. Durante nossa passagem pela Madeira, enfrentamos calor na costa e frio na altitude das montanhas. Atravessamos uma garoa insistente no Funchal para chegar ao pôr do sol limpo na outra ponta da ilha.

Menos praias, mais piscinas naturais

A ilha tem um total de 160 km de extensão de sua costa, mas quase nenhuma praia de areias claras. Por ser de formação vulcânica, prepare-se para ver muitas falésias, encostas gigantes de pedra e praias de pedra.

Mas dá para se molhar. Os madeirenses deram alguns jeitinhos para aproveitar o mar. As piscinas naturais, encravadas entre as rochas, se tornaram marca registrada do município de Porto Moniz, por exemplo.

Existem piscinas particulares que funcionam como beach clubs, mas o principal atrativo é a piscina pública, lotada de ingleses, alemães, holandeses e turistas de toda a Europa.

Além dos paredões de pedra que represam a água do mar, há adaptações que controlam o fluxo de água com bombas, acesso para deficientes, bar e até uma versão menor para crianças.

Turistas se empoleiram ali nas pedras por horas enquanto observam as ondas quebrando sobre as pedras.

Hotéis e resorts também deram seus pulos. O Belmond Reid's, por exemplo, tem uma piscina no meio das pedras conectada ao mar na encosta com acesso de elevador. Um trampolim e escada cravados na encosta também convidam a um banho direto no mar. A reportagem aprovou.

Em Calheta, há outras soluções: uma praia artificial construída em 2004 com areia vinda do Marrocos e outra versão de pedras em frente ao hotel Savoy Saccharum, que conta com barreiras artificiais que suavizam as ondas em formam uma baía.

Osmar Portilho/UOL

Muitos túneis (e um sem saída)

Locomover-se de carro pela ilha rapidamente despertará atenção sobre um fato: a quantidade de túneis que se atravessa. São 150.

Antigamente, a locomoção acontecia por vagarosas estradas costeiras de difícil acesso, levando horas para se chegar de um extremo ao outro. Com os túneis construídos nas últimas décadas, essas distâncias aproximaram os municípios.

Mas um deles chama mais a atenção: um túnel sem saída na Ponta do Sol.

Sabe quando se chega no fim do cenário de um jogo de videogame e se depara com um beco sem saída? É um pouco a sensação que passa o túnel que fica em uma das extremidades da praia. Cravado na pedra e com todo o acabamento pronto, ele serve só de estacionamento para os visitantes da praia.

O motivo do abandono do projeto? Ouvimos algumas versões sobre erro de cálculo do engenheiros, densidade das rochas e outros impedimentos que interromperam as detonações. O fato é: este é um curioso túnel que não leva a lugar nenhum.

Cristiano Ronaldo, uma presença tímida

Poucos discordariam que Cristiano Ronaldo é o madeirense mais famoso do mundo — embora o Google às vezes responda essa pergunta com o nome do fadista Maximiano de Sousa, morto em 1980, como seu morador mais ilustre.

Nascido no Hospital Dr. Nélio Mendonça, no Funchal, Cristiano é unanimidade na Madeira. Todas as vezes que perguntei a algum morador sobre o que o jogador português poderia fazer pela ilha, as respostas vieram diretas como um chute no meio do gol: "fazer mais o quê?".

Cristiano Ronaldo reforçou o destaque da Ilha da Madeira no mapa. Porém, mesmo com tanta idolatria, são poucas vezes que vemos a imagem do craque no dia a dia. É possível ver mais referências ao político britânico Winston Churchill, que visitou a ilha em 1950, em quadros de bares e hotéis do que do craque português.

No centro, flagramos apenas uma foto do jogador pendurada em uma vitrine de um estúdio de tatuagem — e olha que o Cristiano não tem nenhuma tattoo. Quase todas as referências ao atacante estão concentradas em um lugar só: na orla próxima da Marina do Funchal.

É ali onde está o CR7 Museu, o hotel Pestana CR7 e lojas que vendem todos os tipos de penduricalhos com o rosto do jogador: chaveiros, meias e até panos de prato.

Na entrada, há uma estátua de bronze onde os fãs fazem fila para tirar fotos (não aquela do aeroporto que causou polêmica e foi trocada).

Com entradas a 5 euros, esta não é uma parada obrigatória ao turista casual. A não ser, claro, que você seja fã do atacante.

Interatividade também não é o forte do museu, que tem dezenas de prateleiras com camisas, troféus, bolas e chuteiras que recontam a carreira vitoriosa de Cristiano.

Entre tantos itens, as estátuas de cera — e uma de chocolate — acabam sendo as atrações mais fotografadas pelos visitantes. Há versões com a camisa da seleção portuguesa, Real Madrid e de seu clube atual, o Al-Nassr, da Arábia Saudita.

Osmar Portilho/UOL

Por que há falcoeiros nos hotéis da Madeira?

Sabe aqueles vídeos no TikTok onde uma criança segura um lanche na praia e tem o alimento roubado por uma gaivota? Isso dificilmente aconteceria na região hoteleira da Ilha da Madeira.

Esta é uma cena corriqueira nos hotéis mais badalados do Funchal: do nada, uma águia dá um rasante, espanta um pombo e retorna para o local de onde saiu.

Existe uma empresa na Ilha da Madeira especializada no treinamento de águias, gaviões e falcões para afugentar outras aves que se aproximem dos hotéis e resorts.

As poucas aves mais corajosas observavam as áreas de alimentação de longe. Com um comando, o falcoeiro envia a ave que espanta a pomba de olho no seu lanche.

"Treinamos aves de rapina para estabelecer unicamente uma relação predador presa, sem captura. (...) Afugentando as mesmas, sem recorrer a uso de químicos ou dispositivos de caça, uma vez que estes provocam ataques massivos e prejudicam o equilíbrio natural das espécies", diz o site da empresa.

Ficar em um lugar só? Nada disso. A ilha além do Funchal

Durante a passagem pela Ilha da Madeira, ficamos metade do período no Savoy Saccharum, em Calheta, região com praias artificiais de areia e marinas, e metade no icônico Belmond Reid's, em Funchal, onde há maior concentração populacional e uma vida turística mais abundante.

E essa divisão de localidades foi essencial para se conhecer as dimensões da ilha e aproveitar mais os passeios que partem de diferentes pontos. E poderia ser mais.

No extremo norte, conhecemos uma proposta diferente de refúgio: a Quinta do Furão. Este é um complexo com cara de hotel fazenda que conta com hotel, restaurantes e muita área verde com vista para as falésias.

Ali, o perfil do turista, majoritariamente formado por famílias alemãs, mostrava um tipo de visitante que já retornava à ilha para explorar a natureza e "se esconder" dos passeios tradicionais.

São várias ilhas dentro de uma só. Da vida agitada do Funchal às piscinas de Porto Moniz passando pelas falésias de Calheta, vale montar um roteiro com duas (quem sabe até três) estadias par conhecer todos os cantos da ilha.

O jornalista viajou a convite da Visit Madeira.

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