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Do medo a milhares de mortes: um relato da semana mais trágica na Espanha

Nesta semana, a Espanha superou a China em número de mortes, ocupando a segunda posição em óbitos no mundo, depois da Itália - Anadolu Agency/Getty Images
Nesta semana, a Espanha superou a China em número de mortes, ocupando a segunda posição em óbitos no mundo, depois da Itália
Imagem: Anadolu Agency/Getty Images

Adriana Setti

Colaboração para Nossa, de Barcelona, Espanha

29/03/2020 04h00

A cena mais forte desta semana na Espanha, onde vivo desde 2000, foi a conversão de uma pista de patinação no gelo em necrotério. A medida foi tomada para descongestionar as funerárias de Madri, cidade mais afetada do país pela pandemia de covid-19.

O lugar, que ironicamente se chama Dreams Palacio de Hielo (Sonho Palácio de Gelo), fica dentro de um centro comercial na região nordeste da capital e, até o início da quarentena, costumava receber espetáculos artísticos, além de funcionar como escola de esportes. Na terça-feira passada, os primeiros corpos foram depositados sobre o ringue de 1.800 metros quadrados que, segundo um relatório divulgado pela prefeitura, "tem o frio necessário para preservar os cadáveres".

Retrato atual

A imagem tétrica reflete bem o momento atual, já que esta pode ter sido a pior semana da crise sanitária causada pelo covid-19 na Espanha. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, o país estaria perto de alcançar o almejado "achatamento" da curva de contágio, o que pressupõe chegar ao auge do número de novos infectados.

Desde o começo da semana, a cifra de contagiados pelo coronavírus passou de 28.572 a 57.627. As estatísticas seriam ainda mais espantosas se a Espanha já estivesse fazendo testes de resultado rápido em grande escala, como a Alemanha ou a Coreia do Sul. No entanto, 58 mil kits comprados pelo governo espanhol da empresa chinesa Shenzhen Bioeasy - que não dispunha de licença para operar - revelaram-se ineficientes, o que ajudou a atrasar essa operação de guerra e gerou uma chuva de críticas ao governo de Pédro Sánchez.

Cativeiro prolongado

Se por um lado continuamos sem ter um balanço mais próximo da quantidade real de infectados, a cifra de mortos dá uma dimensão da gravidade da situação, tendo saltado de 1.720 a 4.366 desde domingo. Na quarta-feira passada, a Espanha superou a China, ocupando a segunda posição em óbitos no mundo, depois da Itália.

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Retrato da quarentena: ruas vazias em Barcelona, uma das cidades mais festivas da Espanha
Imagem: David Ramos/Getty Images

Em 22 de março, quando completávamos oito dias de confinamento, o presidente do governo, Pedro Sánchez, anunciou que solicitaria a prorrogação do estado de emergência por mais duas semanas, estendendo a quarentena até 11 de abril. Todos sabíamos que nosso período de "cativeiro" poderia ser prolongado. Mas a constatação do fato gerou meu primeiro momento de aflição aguda, por sorte, passageiro.

A rotina da quarentena

Hoje é o décimo quarto dia de confinamento e, por incrível que pareça, acho que o tempo passou rápido. Tenho trabalhado muito, em grande parte produzindo conteúdo informativo sobre o coronavírus para vários meios de comunicação e para o meu perfil no Instagram.

Nesta semana, também participei de uma house party pela primeira vez, na qual amigas em várias partes do mundo e eu fizemos um esforço titânico - sem sucesso - para desviar do monotema universal. No pouco tempo livre de que disponho, aproveito para cuidar da casa, organizar a vida (inclusive financeira, que começa a balançar diante de projetos congelados), meditar e fazer exercícios com a ajuda de aplicativos, lives e afins.

Ao contrário do que acontece na França e em Portugal, na Espanha não é permitido sair para praticar esporte. Só podemos quebrar o confinamento para comprar comida e remédios, cuidar de pessoas doentes, ir ao médico ou ao trabalho e passear com o cachorro. Desde segunda-feira, quem mora na Catalunha, como eu, precisa preencher um formulário para circular pela rua, justificando o motivo do deslocamento.

Barcelona 04 - Europa Press News/Getty Images - Europa Press News/Getty Images
Policiais fiscalizam nas ruas moradores que saem sem a permissão que deve ser solicitada pelos cidadãos
Imagem: Europa Press News/Getty Images

Até agora, só saí uma vez, para comprar comida. Não cruzei com nenhuma viatura de polícia fiscalizando a quarentena, ainda que todo santo dia temos notícias de pessoas multadas. A maioria dos que vi pela rua estavam de máscara. E tive a sensação de que fizeram questão de passar bem longe de mim, como se o fato de estar sem proteção me tornasse um ser radioativo.

Ao entrar no supermercado, recebi um par de luvas de plástico para fazer as compras. Encontrei tudo o que precisava. E aplaudi mentalmente todas as pessoas ao redor, preocupadas em manter a distância recomendada, tanto na fila do caixa como diante as prateleiras.

Reflexos da epidemia

Sou muito grata por estar passando a quarentena em um apartamento agradável, com muita luz natural (artigo de luxo na Europa), conforto e leveza. E, mais ainda, por continuar tralhando (pelo menos por agora!), enquanto 1,2 milhão de espanhóis tiveram seus contratos de trabalho suspensos temporariamente desde que a crise começou, incluindo amigos e familiares. Outros centenas de milhares foram despedidos definitivamente até que, sexta-feira, o governo anunciasse o veto das demissões. Por essas e outras, tenho a impressão de que a segunda semana de confinamento foi psicologicamente mais difícil do que a primeira para a sociedade como um todo.

Às oito da noite, os aplausos aos profissionais de saúde vêm sendo abafados pelas sirenes da polícia que, no intuito fazer eco à homenagem, acabou transformando o momento solene numa cacofonia. Não fui a única a sentir certa angústia com o barulho. Afinal de contas, é o tipo de som que sempre associamos a tragédias.

Com o passar dos dias, o DJ acidental que coloca música alta na janela depois da salva de palmas também parece ter perdido o ibope. Tenho visto vídeos fantásticos de tenores cantando na varanda e músicos improvisando letras hilárias sobre a quarentena (os meninos do @stay.homas são meus novos ídolos). Mas, aparentemente, meu quarteirão carece de talentos artísticos.

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Os aplausos nas janelas seguem, mas abafados por sirenes incluídas na homenagem aos profissionais de saúde
Imagem: David Ramos/Getty Images

Primavera sem flores

Nossa fase de provação também coincidiu com o início da primavera. Ainda que, em Barcelona, o inverno não seja tão rigoroso, a chegada da estação é sempre tempo de sair do casulo. A essas horas, daria até para tomar um sol à beira do Mediterrâneo.

O normal seria que estivéssemos disputando mesas nas terrazas dos bares, ao invés de papel higiênico no supermercado. Ficar preso em casa nessa época torna a situação levemente mais deprimente do que já é. Olhando pela janela, até vejo certo movimento. Mas suponho que seja porque moro justo na frente do maior hospital da cidade, a ponto de conseguir ver o que se passa dentro de alguns quartos.

No limite do caos

O temido momento de sobrecarga do sistema de saúde chegou. Ao longo da semana, fomos bombardeados com depoimentos de enfermeiros e médicos à beira do desespero, denunciando a falta de materiais de proteção apropriados e a impossibilidade manter a distância entre os pacientes nas salas de espera, entre outros problemas graves.

Diante da situação, os pavilhões da IFEMA (onde acontece a feira de arte ARCOmadri, entre outros eventos), foram convertidos num gigantesco hospital de campanha. No sábado passado, o complexo recebeu os primeiros doentes por coronavírus. Até agora, no fim da semana, espera-se que 1.100 pessoas tenham sido atendidas nas instalações, que foram erguidas numa parceria entre o governo de Madri, o exército e empresa privadas, que auxiliaram na instalação de equipamentos (como tubos de oxigênio) e doaram roupa de cama, entre outros recursos. Mais regiões do país deverão seguir o mesmo caminho e hotéis também estão sendo convertidos em centros médicos.

Entre velhos e adultos

Outra tragédia que vem balançando o país é a situação nos asilos, onde a epidemia vem se espalhando de forma fulminante entre residentes e cuidadores. Segundo um levantamento feito pela SER, a cadeia de rádio mais antiga da Espanha, o covid-19 já fez mais de 1500 vítimas da "melhor idade" em casas de repouso, o que representaria mais de um terço do número total de mortos.

A situação é extremamente alarmante, uma vez que 390 mil pessoas vivem em cerca de 6 mil instituições desse tipo em todo o país. Por outro lado, fica cada vez mais claro que juventude e "histórico de atleta" não imuniza ninguém. Segundo o último relatório divulgado pelo Ministério da Saúde sobre a idade dos afetados pelo covid, no dia 22, 32% dos hospitalizadas na Espanha têm menos de 60 anos.

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Filas em um supermercado de Barcelona: limite de distanciamento respeitado
Imagem: David Ramos/Getty Images

Outra novidade desta semana foi a suspensão das vendas em farmácia da cloroquina e da hidroxicloroquina, que estão sendo testadas em alguns hospitais da Europa. A medida é uma forma de evitar que o "efeito papel-higiênico" se abata sobre o medicamento, depois que Donald Trump manifestou publicamente seu entusiasmo com a substância.

Enquanto o presidente americano consegue exercer esse tipo de influência por aqui, os pronunciamentos de Jair Bolsonaro integram a sessão de histórias curiosas dos noticiários. O de terça-feira foi parcialmente transmitido pelas principais emissoras de TV da Espanha em reportagens que também falavam sobre a polícia indiana agredindo "fugitivos" da quarentena com varas (e obrigando algumas pessoas a fazer flexão de braços no meio da rua) e os guardas filipinos capturando cidadãos com uma "carrocinha" de cachorros.

Enquanto o Brasil está prestes a adotar o "isolamento vertical", o governo da Espanha estuda endurecer ainda mais as medidas de isolamento social, caso a curva de contágio não diminua nos próximos dias. O tempo dirá qual o melhor caminho.