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Arco-íris da esperança: crianças espalham cartazes com mensagens pelo mundo

Adriana Negreiros

Colaboração para Nossa, de Portugal

26/03/2020 04h00

Pelas fachadas, as casas do Porto, no norte de Portugal, parecem tão abandonadas quanto as ruas, exceto por um detalhe: janelas e sacadas enfeitadas por desenhos de arco-íris acompanhados pela frase "vai ficar tudo bem".

Os traços são inconfundivelmente infantis e as letras, por vezes, tremidas, de tamanhos diferentes, como costuma ser a caligrafia de quem só há pouco aprendeu a escrever.

O movimento, ao que tudo indica, começou na cidade de Bari, no sul da Itália - uma ideia de um grupo de mães no Facebook. A inspiração delas, por sua vez, teria vindo da China, onde a palavra cantonesa "jiayou" - algo como "não desista" - tem ganhado as ruas desde o início do surto.

Pois, ainda bem, a moda pegou aqui em Portugal. Todos os dias, de manhã, quando passeio com minha cadela pelas ruas desertas do bairro onde moramos, o Bonfim, emociono-me se vejo um desenho novo. Bela, minha cachorra, é uma golden retriever gorda, molenga e bonachona, de modo que, em tempos ordinários, não há uma única vez em que não saiamos à rua e ela não distribua lambidas entre crianças ansiosas por "fazer-lhe festinhas", como se chama, por aqui, a prática de dar carinho aos animais.

Nas sacadas e janelas, os desenhos infantis de arco-íris se espalham pelo mundo - iStock
Nas sacadas e janelas, os desenhos infantis de arco-íris se espalham pelo mundo
Imagem: iStock

Desde que o país entrou em quarentena, sair para passear com a Bela tem sido uma experiência estranha. Não encontrar crianças nos brinquedos das praças ou a caminho da escola é esquisito, como se de repente elas tivessem sido transferidas para outro planeta. Por isso, emociono-me quando vejo os desenhos nas janelas: os miúdos ainda estão por aqui, logo ali, atrás daquela parede. Entediados, enlouquecendo os pais, mas também assustados.

E desenhar arco-íris com mensagens fofas, em todo o mundo, parece que tem sido um bom jeito de, por alguns segundos, fazê-los sentir-se um pouco mais leves. E a nós, pais, também.

Sofia, de 5 anos, mora em Roma, Itália - Arquivo pessoal
Sofia, de 5 anos, mora em Roma, Itália
Imagem: Arquivo pessoal
Ian, de 3 anos, vive em Lawrence, Estados Unidos - Arquivo pessoal
Ian, de 3 anos, vive em Lawrence, Estados Unidos
Imagem: Arquivo pessoal

Esperança sem fronteiras

Pelas redes sociais, pergunto para amigos e conhecidos espalhados pelo mundo se seus filhos também aderiram à moda. Descubro que na Espanha, na Alemanha e nos Estados Unidos, a ideia italiana foi encampada com entusiasmo.

O que começou com "AndráTuttoBene" logo virou "VaQuedarTodoBien", "AllesWirdGut" e "EverythingsGonnaBeOkay", com pequenas variações. Os pais, ansiosos por qualquer atividade que distraia os pequenos por alguns minutos, são os principais incentivadores da atividade. E eles curtem. Gostam quando veem, pela internet ou pelas janelas de suas casas, que outras crianças fizeram o mesmo.

Julia, 9 anos, e Vinícius, 7, moram em Roma, capital da Itália, há três anos. O país é, atualmente, o cenário mais dramático da pandemia. Os irmãos fizeram os cartazes provocados pelos colegas da escola, que enviaram os desenhos pelos grupos de WhatsApp das salas. Depois, como conta a mãe, a advogada Roberta Vella, grudaram os papéis na janela de casa.

Chiara, de 7 anos, vive em Civita Vecchia, na Itália - Arquivo pessoal
Chiara, de 7 anos, vive em Civita Vecchia, na Itália
Imagem: Arquivo pessoal
Ettore, de 2 anos, vive em Roma, Itália - Arquivo pessoal
Ettore, de 2 anos, vive em Roma, Itália
Imagem: Arquivo pessoal

Ação que aproxima, mesmo longe

Nina, de 5 anos, também fez seu arco-íris, assim como as amigas (todas ítalo-brasileiras) Sofia, da mesma idade, e Chiara, de 7 anos. As mães enviaram os desenhos umas para as outras. De algum jeito, as meninas se sentiram mais próximas. "Nina sente falta de sair, de encontrar os amigos", diz a promotora cultural Cassiana Joaquim, mãe de Nina. A garota já consegue ter alguma compreensão sobre a pandemia.

Já Ettore, de dois anos, não parece entender porque não pode mais sair para passear. "Páque", balbucia para a mãe, a videomaker Dáila Assis, pedindo para ir ao parque. Outro dia, pela janela, viu o avô passar na rua, a caminho das compras. "Nonno, nonno", chamou, eufórico, durante alguns minutos. Em vão. Embora muitos apegados, os dois já não podem estar juntos.

Ana, 4 anos, vive em Potsdam, Alemanha - Arquivo pessoal
Ana, 4 anos, vive em Potsdam, Alemanha
Imagem: Arquivo pessoal
Giulia, de 8 anos, mora em Roma, Itália - Arquivo pessoal
Giulia, de 8 anos, mora em Roma, Itália
Imagem: Arquivo pessoal

Tem dias que Dáila fica "como louca", fazendo cálculos e tentando descobrir quando a curva de contágio vai começar a apresentar sinais de inflexão. Em outros, apega-se ao encontro de novos pontos de luz, em meio às sombras da clausura. Esses dias, descobriu que pode levar Ettore para o telhado do prédio onde vive, lá no alto, onde ficam as antenas. Do topo, tem uma vista panorâmica das ruas ao redor. "Já dá uma acalmada", ela diz.

A certa altura, vê-se ainda melhor os cartazes das crianças nas janelas dos apartamentos vizinhos. "Andrá tutto bene", escrevem elas, na Itália. "Tudo vai ficar bem", respondem minhas filhas, daqui de Portugal.

Janela em Lawrence, no Kansas, região central dos Estados Unidos - Arquivo pessoal
Janela em Lawrence, no Kansas, região central dos Estados Unidos
Imagem: Arquivo pessoal