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Futebol Sem Fronteiras

O jogo por trás do jogo. Com Jamil Chade e Julio Gomes


OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futebol sem Fronteiras #42: Itália fora da Copa, Arábia Saudita dentro; como explicar?

Do UOL, em São Paulo

25/03/2022 17h16

A definição de alguns dos classificados para a Copa do Mundo nesta semana gerou grande surpresa. A Itália está fora do seu segundo Mundial consecutivo após ser surpreendida em casa pela Macedônia do Norte. A derrota por 1 a 0 em Palermo teve requintes de crueldade, com os donos da casa com amplo domínio e sofrendo um gol nos acréscimos. Já a classificação da Arábia Saudita chamou a atenção por questões políticas, com um intenso debate sobre os dois pesos e duas medidas da Fifa.

No podcast Futebol sem Fronteiras #42 (ouça na íntegra no episódio acima), o colunista Julio Gomes e o correspondente internacional Jamil Chade conversaram sobre a eliminação da Itália e a classificação da Arábia Saudita para a Copa no Qatar. No caso dos sauditas, a ida ao Mundial extrapola o significado esportivo e traz à tona uma discussão relevante: por que a Rússia, que invadiu a Ucrânia, foi retirada das eliminatórias e a Arábia Saudita, com um governo que explicitamente desrespeita os direitos humanos, continuou na disputa e estará no Mundial?

Jamil explicou porque a mistura entre futebol e política valeu a exclusão da Rússia, mas não a da Arábia Saudita. "A Arábia Saudita não só não foi excluída como existe um tapete vermelho sendo estendido pela Fifa para ela. O príncipe Mohammed bin Salman é amigo do [Gianni] Infantino [presidente da Fifa] e manda jatinhos para buscá-lo. É uma situação muito clara dessa hipocrisia internacional. A diferença é que o ato da Rússia ameaça a segurança da Europa. O ato da Arábia Saudita ameaça o Irã, que é um inimigo de todos", comentou o jornalista.

Para se ter ideia da situação caótica na guerra civil no Iêmen, o conflito já causou mais de 233 mil mortes. A ONU classificou a situação no país como a pior crise humanitária do mundo e estima que 17,4 milhões de pessoas no país dependem de assistência alimentar. O panorama para o segundo semestre, segundo a entidade, é ainda mais aterrador: 19 milhões de pessoas podem não ter o que comer.

"A guerra que a Arábia Saudita conduz acontece desde 2015 e gerou a maior crise humanitária do mundo. No Iêmen, um grupo separatista queria tomar o poder e conseguiu o apoio da Arábia Saudita, que tinha interesse. O Iêmen é um campo de batalha entre duas potências locais: Arábia Saudita e Irã. O controle do Iêmen é o embate entre essas duas potências regionais. O que está em jogo é a influência da Arábia Saudita ou do Irã naquele golfo. Isso me faz lembrar uma certa Ucrânia. O que está em disputa não é a Ucrânia em si, mas sim a fronteira entre potências: de um lado, a Otan, e do outro, a Rússia", comparou Jamil.

Julio lamentou a hipocrisia que toma conta das decisões da Fifa. "Os lados estão claros nas duas guerras. No caso da invasão da Ucrânia, ainda há aquela 'sombra do comunismo', embora o Putin não tenha nada de comunista. A União Soviética continua como uma sombra para o mundo ocidental. Do outro, estão todos os aliados do Ocidente, liderados pelos Estados Unidos. No caso do Iêmen, de um lado está o Irã, um 'estado terrorista' segundo os americanos. Do outro, um amigo do Ocidente", opinou o colunista do UOL.

Para Julio, com os lados muito claros nestes dois conflitos, a Fifa sempre vai jogar de acordo com seus interesses principais. "A Fifa, a Uefa, o COI, as instituições internacionais esportivas e não esportivas estão nas mãos dos ocidentais. Se fossem controladas por chineses e russos, possivelmente a Arábia Saudita seria excluída da Copa do Mundo e não a Rússia", observou.

Itália fora

Em Palermo, a Itália viveu mais um drama com a eliminação para a Macedônia do Norte. Desde a conquista do título mundial em 2006, a Squadra Azzurra apenas coleciona vexames nas Copas: em 2010 e 2014, a seleção foi eliminada ainda na primeira fase; em 2018 e, agora em 2022, acompanhará o torneio pela televisão.

"Na Copa de 2026, com 48 seleções, a Itália vai dar um jeito de se classificar, ainda que as vagas europeias não aumentem tanto. Se ela chegar ao mata-mata em 2026, falaremos que a seeção não chegava a esta fase havia 20 anos. É inimaginável, principalmente se pensarmos que, há nove meses, a Itália era a campeã da Eurocopa", destacou Julio.

Jamil também ressaltou a surpresa causada pela eliminação para uma equipe de pouca tradição. "É triste uma Copa do Mundo sem a Itália, mas ao mesmo tempo é o sistema. Não há uma classificação automática pelo seu histórico de tetracampeã mundial. A vitória da Itália na Euro foi muito festejada, porque aconteceu depois daquele momento dramático da pandemia, quando o país foi um dos epicentros. Todos esperavam que isso significasse a volta da Itália para a Copa, e há esse colapso dramático. Os italianos sabiam que poderiam perder para Portugal, mas não para a Macedônia do Norte", analisou.

O novo fiasco italiano respingará economicamente na Fifa, como mostrou Jamil. "A RAI, emissora compradora dos direitos de transmissão, não vai querer pagar a mesma coisa pela Copa do que pagaria se a Itália estivesse no Mundial", completou.

Ouça o podcast Futebol sem Fronteiras e confira também um panorama sobre como estão as eliminatórias da Copa-2022 e quais são os favoritos para as últimas vagas no Qatar.

Não perca! Acompanhe os episódios do podcast Futebol sem Fronteiras todas as quintas-feiras às 16h no Canal UOL.