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Marcas podem perder milhões sem astros antivacina em eventos esportivos

Deportado, Novak Djokovic não disputará o Australian Open  - Reuters
Deportado, Novak Djokovic não disputará o Australian Open Imagem: Reuters

Beatriz Cesarini e Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

17/01/2022 04h00

O tenista Novak Djokovic está fora do Australian Open após ter sido deportado pelo governo australiano. O país exige comprovante de vacinação aos visitantes, mesmo aos atletas que disputarão o Aberto da Austrália, e o astro se recusa a se imunizar -mesmo sabendo que a decisão podia deixá-lo fora do Grand Slam e perder muito, mas muito dinheiro.

Djokovic não é o único. Astros da NBA, como o atleta do Orlando Magic Jonathan Isaac e Kyrie Irving, do Brooklyn Nets, já começaram a sentir no bolso o peso do negacionismo. Irving perdeu R$ 2,1 milhões ao ficar fora de jogos da NBA por dois meses. No entanto, devido à alta nas infecções por coronavírus, o Brooklyn precisou do atleta em caráter especial. Ele retornou às quadras em 30 de dezembro -mas só pode jogar fora de casa, uma vez que, em Nova Iorque, é proibido que qualquer pessoa entre sem se vacinar nos estádios.

O economista e especialista em marketing esportivo César Grafietti explica a perda de dinheiro: os patrocinadores estão bastante preocupados em se associar a imagens desqualificadas. "Com isso, perde-se dinheiro diretamente, da competição e premiação, mas também indiretamente, quando os patrocinadores se afastam".

"Os impactos na carreira de um atleta podem ser duradouros, de médio a longo prazo. O efeito financeiro é tão devastador quanto não tomar a vacina. Se voltarem atrás, se decidirem tomar a vacina, os impactos podem ser amenizados. Mas não totalmente. É muito possível que exista a redução de interesse do mercado em relação ao atleta. É um efeito imenso."

Vitor Camargo, do blog 14 anéis, do UOL, explica que existem dois grandes impactos na carreira de um atleta ao decidir não se imunizar: o esportivo e o moral. Quando o anti-vacina é uma grande estrela, como Kyrie Irving, naturalmente a liga perde em visibilidade; afinal, você sempre quer ter os maiores talentos em quadra para vender seu produto", explica.

"Então, a ausência de nomes como este ou Djokovic afeta negativamente, sim, os eventos esportivos. Mas também há um efeito dominó: pessoas não vacinadas transmitem muito mais a doença, e elas oferecem risco para outros ao seu redor. A NBA hoje vive um novo surto de covid-19 devido a um relaxamento das medidas de prevenção, e muitos times estão precisando adiar jogos por não ter o mínimo de atletas necessários para as partidas -ou então contratando jogadores temporários para preencher as vagas. Ter jogadores não vacinados como Kyrie atuando aumenta exponencialmente esse efeito."

Influência negacionista

Kyrie Irving atua como vice-presidente do comitê executivo do sindicato dos jogadores de basquete. Recentemente, começou a seguir e curtir postagens no Instagram de um teórico da conspiração que afirma que "sociedades secretas" estão implantando vacinas em um plano para conectar negros a um computador mestre para "um plano de Satanás".

"Eu sabia das consequências [de não vacinar]. Eu não estava preparado para elas nem na imaginação. Eu achava que poderia atuar em tempo integral, me divertir e apresentar um grande basquete. Mas, infelizmente, não aconteceu assim. As coisas acontecem por uma razão, e agora estamos aqui e sou grato por isso."

O posicionamento de Isaac, astro do Orlando Magic, entretanto, teve outro influenciador: o ex-presidente Donald Trump que, durante comícios, trouxe diversas notícias enganosas sobre a pandemia de coronavírus. "No final do dia, são as pessoas" , diz Isaac, no Instagram, sobre cientistas que desenvolvem vacinas, "e você nem sempre pode confiar completamente nas pessoas. Se você já é vacinado, por que essas pessoas ainda tem que usar máscara? Pra que ela serve?".

No ano passado, Isaac já havia virado notícia ao se recusar a ajoelhar em apoio ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), enquanto aconteciam protestos contra o assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos. À época, ele disse que "protestar não resultaria em qualquer mudança na sociedade, uma vez que as 'as respostas para esses problemas estão apenas no evangelho de Jesus'".

O maior espetáculo esportivo do mundo, a NFL, não ficou de fora da onda antivacina. Em novembro do ano passado, o quarterback do Green Bay Packers Aaron Rodgers foi diagnosticado com covid-19 -e veio à tona que ele não havia se vacinado. Rodgers perdeu o patrocínio da organização de saúde Prevea Health, que estava com ele desde 2012.

No programa Pat McAfee Show, Rodgers disse que não se vacinou porque "é alérgico a um ativo encontrado nas vacinas da Pfizer e da Moderna". Ele também declarou que tem preocupações com coágulos sanguíneos em relação à vacina da Janssen. O jogador ainda relacionou, de maneira incorreta, as vacinas da covid-19 à infertilidade.

Rodgers já tinha criticado os protocolos da NFL com relação à covid-19, como o uso de máscara em ambientes fechados para jogadores não vacinados.

Renan Lodi fora da seleção brasileira

No Brasil, a falta de vacinação trouxe um prejuízo grande à carreira do lateral-esquerdo Renan Lodi. Na quinta-feira (13), o técnico Tite convocou a seleção brasileira para os últimos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo, para a qual o Brasil já está classificado. Em entrevista coletiva, o treinador afirmou ter deixado o lateral de fora da lista devido ao fato de ele só ter sido vacinado com a primeira dose da vacina.

"O que posso antecipar é que Renan Lodi foi alijado da possibilidade de convocação em função de sua não vacinação. Essa informação nos foi passada, então ele perdeu a possibilidade de concorrer em função de não ter se vacinado", disse. O técnico ressaltou a importância da vacinação, que também é necessária para cumprir requisitos das autoridades sanitárias dos países em que a seleção jogará.

César Grafietti cita o caso ao explicar os danos irreparáveis que a atitude pode gerar à carreira de um atleta no auge. É o caso de Lodi. "Ao perder espaço na seleção principal do país, o atleta deixa que outro ocupe esse espaço. Isso pode não ter volta. Perder a chance de jogar uma Copa do Mundo é algo que não tem volta", explica.

O colunista do UOL Esporte Rodolfo Rodrigues concorda. "O movimento antivacina não tem espaço na sociedade, muito menos no esporte. Atletas, mesmo em competições individuais, precisam dar o exemplo e não expor aqueles que estão próximos. No caso dos esportes coletivos, o pensamento dos negacionistas é muito individualista. Deveria haver sanções, punições por parte de clubes e federações. Quem não se vacina tem que sofrer as consequências e ser excluído da prática e do convívio. Moralmente, é ruim para o atleta, que pode perder prestígio, seguidores e até patrocinadores".

Quando são atletas de esportes individuais, a perda é muito maior —tanto para os patrocinadores dos eventos quanto para os próprios atletas". Gabriel Medina é exemplo. Atualmente, está vacinado com as duas doses, mas ficou fora da etapa de Teahupoo do campeonato mundial por não ter sido vacinado a tempo. Ele competia nessa etapa desde 2012. O atleta alegou, enquanto participava de uma live de game online, que não havia tido tempo de se imunizar.

"Eu não vou para Teahupoo porque não tomei a vacina, e aí tem que fazer dez dias de quarentena. Aí não dá tempo de ir do México para lá, que é uma [etapa] seguida da outra. Aí vou ser obrigado a não ir. Mas de boa, eu posso descartar uma etapa, então está de boa", disse, à época.
O COB disponibilizou vacinas para todos os atletas que disputaram as Olimpíadas em Tóquio, de modo que a escolha de tomar ou não o imunizante coube a cada um deles. Medina não tomou. Depois da repercussão negativa e, segundo apurou o UOL Esporte, pressão de patrocinadores, o surfista voltou atrás. Se vacinou e destacou, nas redes sociais, a importância de se imunizar.

"Hoje, os atletas de qualquer esporte são, além de tudo, influenciadores. Eles geram influência negativa ao defender a não vacinação. A imagem fica arranhada, mesmo que voltem atrás", diz Grafietti.

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