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Do amadorismo a Medina: como o surfe brasileiro virou esperança olímpica

Gabriel Medina ergue troféu de campeão mundial em dezembro de 2018 - WSL / ED SLOANE
Gabriel Medina ergue troféu de campeão mundial em dezembro de 2018 Imagem: WSL / ED SLOANE

Gustavo Setti e Marcello De Vico

Do UOL, em São Paulo e Santos

01/04/2019 04h00

Foram surfistas gringos que criaram a expressão "Brazilian Storm" - que em inglês significa "Tempestade brasileira" - em referência aos atletas do Brasil que passaram a se destacar no circuito mundial de surfe a partir de 2011. O grupo ganhou forma, volume e títulos desde então. Agora, faz da nação referência em um esporte que começou quase de forma amadora no país e que virou esperança de medalhas olímpicas.

Você deve conhecer o nome mais famoso e badalado: Gabriel Medina. Aos 25 anos, é ele o líder da geração mais vitoriosa da história do surfe brasileiro. Se tornou o primeiro surfista nascido no Brasil a ser campeão mundial em 2014, viu seu compatriota Adriano de Souza repetir o feito no ano seguinte e voltou a fazer história em 2018 ao conquistar o bicampeonato inédito para o país.

Desde o primeiro título em 2014, o Brasil faturou 24 etapas do Circuito Mundial (CT), uma média de quase cinco por ano, sendo que a temporada masculina reúne 11 etapas. Em 2018, foram nove, com Medina (3), Ítalo Ferreira (3), Filipe Toledo (2) e Willian Cardoso (1). Domínio absoluto, que ainda não leva em consideração as conquistas da tradicional e cobiçada Tríplice Coroa, por Jessé Mendes, e do Mundial Pro Junior, pelo prodígio Matheus Herdy.

Surfistas brasileiros - WSL / SEAN ROWLAND - WSL / SEAN ROWLAND
Brasileiros vibram durante disputa entre países
Imagem: WSL / SEAN ROWLAND

"O surfe brasileiro está vivendo um momento incrível. Temos dois campeões mundiais e somos maioria no circuito. Fico feliz de fazer parte dessa geração. A gente vem forte. É o melhor momento e vai piorar para os gringos", disse Medina.

O Brasil chega ao CT 2019 como o país com o maior número de representantes na elite. Assim como aconteceu no ano passado, são 11 brasileiros entre os 34 que disputam a competição. Medina, Filipinho, Ítalo e Mineirinho fazem parte da lista. Willian Cardoso, Michael Rodrigues, Yago Dora e Jessé também já estavam em 2018, enquanto Peterson Crisanto, Deivid Silva e Jadson André se classificaram pelo WQS, a divisão de acesso.

A temporada de 2019 começa amanhã, na Austrália, e terá um fator especial: os dez primeiros do ranking no masculino e as oito primeiras do feminino, que tem Tatiana Weston-Webb e Silvana Lima representando o Brasil, com máximo de dois de cada país por gênero, estarão classificados para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. As vagas restantes serão definidas em outros campeonatos. Será a estreia do surfe nas Olimpíadas.

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Como era antigamente

Austrália, Estados Unidos e Havaí, considerado uma nação à parte no mundo do surfe, sempre dividiram a hegemonia do esporte no cenário mundial. O Brasil, desde a década de 1960, quando os primeiros mundiais passaram a ser organizados, sempre figurou como coadjuvante. Até 1990, era raro o país conquistar algum resultado de expressão - Pepê Lopes e Daniel Friedmann foram os únicos brasileiros a ganharem uma etapa mundial até então, com as conquistas de 1976 e 1977, respectivamente, no Arpoador, Rio de Janeiro.

"O que a gente tem que ver é: onde o esporte nasceu? Quem criou a competição? Com australianos, americanos e havaianos. A história começa lá e, nessa época, até o Peru foi mais forte que a gente. Nos anos 60, já tinha campeonato mundial lá, isso falando de América do Sul, e o Brasil entra mais forte, pelo menos na minha visão, nos anos 70", opina o brasileiro Paulo Kid, ex-surfista profissional e um dos treinadores mais requisitados da atualidade.

Paulo Kid - Arquivo pessoal/Paulo Kid - Arquivo pessoal/Paulo Kid
Paulo Kid (2º da dir. para esq.), ao lado de surfistas brasileiros
Imagem: Arquivo pessoal/Paulo Kid

Mas se os resultados não vinham, as décadas de 70 e 80 serviram para o Brasil colher sementes que renderiam frutos no futuro. O trabalho de base começou a ser reforçado, e o investimento em atletas e campeonatos passou a ser mais comum. Em 1986, o país voltou a receber uma etapa do Circuito Mundial: o histórico Hang Loose Pro em Florianópolis, na Praia da Joaquina. Na visão do empresário Alfio Lagnado, fundador da Hang Loose e um dos principais responsáveis pelo "boom" do surfe no Brasil, o torneio ajudou a colocar o país de vez no cenário internacional.

"O Brasil era, até então, desconhecido no cenário. Um país com uma costa gigante de 8.000 km, um esporte barato, que qualquer um pode participar até com uma tábua. Em 1986, foi quando o Brasil começou a se internacionalizar para participar do processo. Ainda um mero coadjuvante. Nessa época, o Brasil começou a se estruturar muito forte no surfe amador, por causa de torneios que foram feitos, trabalho de base, mas, quando chegava no profissional, não tinha cabeça para seguir o circuito. Um atleta precisa ser completo, saber viajar, falar inglês, e faltava estrutura financeira e psicológica - além de equipamentos e outras coisas", conta Alfio, que no fim da década de 1980 passou a investir em dois brasileiros que se tornaram lendas e abriram caminho para o país brilhar: Fabio Gouveia e Teco Padaratz.

Alfio - Arquivo pessoal/Alfio Lagnado - Arquivo pessoal/Alfio Lagnado
Alfio Lagnado (centro) posa com Fabio Gouveia e Teco Padaratz
Imagem: Arquivo pessoal/Alfio Lagnado

"Em 1988, por um acaso, o Fabio Gouveia, um daqueles raios que caem, foi campeão (mundial) amador. Ele já era da minha equipe. Eu falei: 'você é o melhor atleta amador do mundo e vai correr o circuito mundial'. Mas ele não falava inglês, tinha medo de viajar sozinho, não queria ir... Insisti muito com ele, mas ele não estava muito confortável. E tinha o Teco Padaratz que era um atleta que falava bem inglês, tinha morado nos Estados Unidos, corrido o circuito americano, e estava pronto para viajar. E eu falei para o Teco: 'eu quero te patrocinar, desde que você leve o Fabinho'. Foi formada a dupla dinâmica, e eles foram ganhando tudo. Eles foram os caras que quebraram essa barreira psicológica, mostrando que o Brasil poderia chegar", lembra.

A partir de 1990, Fabio Gouveia e Teco Padaratz mostraram, ainda de forma bem mais tímida que os dias de hoje, que o Brasil tinha potencial para não ser tão coadjuvante assim. Os dois ganharam seis etapas do Mundial entre 1990 e 1994 e alcançaram resultados expressivo. Teco bateu o astro Kelly Slater na final da etapa da França de 1994, em Hossegor, quando o americano já tinha um de seus 11 títulos mundiais, enquanto Fabinho foi quinto colocado do ranking em 1992. "E aí surgiu o talento do Medina, mas antes só o talento não era suficiente. Talento já tinha", diz Alfio.

Como é hoje: patrocínio e apoio na base

Gabriel Medina - Divulgação/Rip Curl - Divulgação/Rip Curl
Gabriel Medina é patrocinado pela Rip Curl desde a adolescência
Imagem: Divulgação/Rip Curl

Hoje, a história é outra, e a Brazilian Storm mostra cada vez mais que chegou para ficar. A força nas categorias de base - com eventos para revelar novos talentos como os tradicionais Hang Loose Surf Attack e Rip Curl Grom Search - somada aos investimentos em atletas promissores provavelmente manterá o surfe do país em alto nível.

Felipe Silveira, CEO da Rip Curl no Brasil, um dos patrocinadores de Medina, reforça a tese de Alfio sobre a importância do investimento nas categorias de base e destaca uma particularidade em relação à "ascensão fora do padrão" do bicampeão mundial.

"Contratação de atletas, assim como futebol, vem nas categorias de base. Eles são recrutados quando são jovens, 13, 14 anos. A marca vai apoiando o desenvolvimento do atleta durante um tempo. Foi assim que aconteceu com o Medina, com 14, 15 anos. Fomos apoiando o desenvolvimento dele, e a ascensão foi fora do padrão. Nós tivemos que antecipar um contrato profissional, porque o primeiro contrato era de surfe amador. Tivemos que antecipar todos os processos", recorda o ex-surfista, que chegou até a competir algumas etapas do circuito mundial em 1991 e 1992, antes de se aposentar. "Não era nem uma carreira, porque naquela época a maioria dos surfistas tinham outras atividades", lembra.

Felipe Silveira e Gabriel Medina - Divulgação - Divulgação
Felipe Silveira e Medina com a taça de campeão mundial de 2014
Imagem: Divulgação

"A estrutura do surfe nacional e mundial está melhor hoje. As premiações são maiores, existe um calendário, uma estrutura mais confiável para você se dedicar a uma carreira profissional ao invés de ser médico ou dentista. O maior diferencial hoje são os patrocinadores. Hoje, a maioria dos atletas no CT têm patrocinadores que garantem um valor para que ele possa se dedicar exclusivamente ao surfe. Esse seria o principal diferencial, que é uma despesa muito grande, são várias etapas", analisa Felipe Silveira. De acordo com ele, o custo para uma temporada na elite é de 100 a 150 mil dólares (R$ 400 mil a R$ 600 mil) apenas para cobrir as despesas com viagem, alimentação, hospedagem e equipamentos.

Alfio Lagnado explica, porém, que fica difícil para as marcas brasileiras competirem com as gringas, que pegam os atletas já formados e os "levam embora". Para explicar o que acontece no surfe nacional, Alfio faz uma comparação com a Copa São Paulo de Futebol Júnior.

"A gente acaba perdendo força porque concorre com marcas globalizadas, que têm mais verba para competir com a gente. A Hang Loose, fazendo uma comparação com futebol, é mais ou menos uma Copa São Paulo. A gente forma os atletas, e vem um gringo, oferece um salário gigante e leva ele embora. Mas a gente tem ciência disso, é consciente e fica feliz. A gente pega um cara pobre que acaba fazendo um contrato novo. A gente fez a nossa parte, e segue a vida", diz.

Preparação física

Não há investimento que dê retorno se os surfistas não levarem a profissão a sério. Assim como atletas profissionais de outras modalidades, os surfistas também dão atenção à parte física. Mas não dentro d'água. A maior parte do trabalho é feita em terra firme, com aeróbico e fortalecimento muscular e atividades que vão do crossfit à meditação. Eduardo Takeuchi, da Personal Boards, trabalha com surfe desde 2012 e é o preparador físico de Filipe Toledo. Ele monta os treinos do atleta, que vive nos Estados Unidos, e o monitora à distância.

"O treinamento antigamente era muito voltado para simular o surfe na terra, e a gente foi contra. Os atletas mudaram a cabeça de alimentação e preparação física. Antes, eles achavam que só iam melhorar surfando. E é muito pelo contrário. Os atletas chegavam para a gente através de uma lesão. A gente não é profissional da doença, é da saúde. A gente consolidou nosso trabalho recuperando atletas, inclusive o Filipe. Eu o conheci em 2016, porque ele lesionou o quadril na Gold Coast (Austrália)", afirma.

A parte técnica

Luiz Pinga - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Luiz "Pinga" exibe troféu de Ítalo Ferreira após título de Bells Beach, em 2018
Imagem: Arquivo Pessoal

Luiz Campos "Pinga" é velho conhecido do surfe brasileiro, mas não necessariamente pelo que faz dentro d'água. Pinga é um "olheiro" responsável por descobrir novos talentos. Foi ele quem fez Ítalo Ferreira, entre outros, explodir e ser eleito o surfista de 2018, à frente até de Medina, em eleição da revista Stab com surfistas do mundo todo.

"A maturidade e equilíbrio são os pontos-chave. Acredito que o Ítalo vem amadurecendo, mas ainda tem bastante coisa para amadurecer, como força, técnica e tática, e isso é tudo uma soma de fatores para ganhar essa evolução. É o conceito desse trabalho. Cada atleta que vem aparecendo, o objetivo é que apareça com mais força que o anterior", conta.

O trabalho com o potiguar começou cedo, quando ele tinha 12 anos. Desde então, Pinga faz a dupla jornada de manager e técnico do atleta. A segunda função, inclusive, foi incorporada ao mundo do surfe profissional aos poucos. Hoje, os treinadores gravam os treinos, corrigem os erros e orientam os surfistas, na medida do possível, por meio de gestos nos campeonatos. Mas o que virou essencial para qualquer surfista de alto rendimento não era bem aceito.

"O mercado foi vendo a importância de ter uma pessoa acompanhando o atleta, ajudando a planejar, estar próximo, ganhando experiência também. Quando começamos nos anos 1980, era alguns. Alguns não eram nem bem vistos. Não era comum, não tinha essa cultura. Hoje, é uma função respeitada e valorizada", explica.

Favoritos às vagas olímpicas

Medina - WSL / ED SLOANE - WSL / ED SLOANE
Imagem: WSL / ED SLOANE
Gabriel Medina estreou na elite do surfe em 2011, aos 17 anos. Desde então, foi campeão mundial duas vezes e se tornou o principal surfista do mundo a ser batido. Natural de Maresias, ele é o maior favorito a ficar com uma das vagas em Tóquio e, inclusive, já vem treinando no centro de treinamento do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

Filipe - WSL / SEAN ROWLAND - WSL / SEAN ROWLAND
Imagem: WSL / SEAN ROWLAND
Filipe Toledo também fez sua estreia no circuito aos 17 anos, em 2013. Teve em 2018 a melhor temporada da carreira até aqui e era o favorito ao título, mas acabou superado por Medina nas últimas etapas. Filipinho, que saiu de Ubatuba e foi morar na Califórnia, é o maior especialista em aéreos do circuito e filho de Ricardo Toledo, bicampeão brasileiro de surfe.

Italo - WSL / KELLY CESTARI - WSL / KELLY CESTARI
Imagem: WSL / KELLY CESTARI
Ítalo Ferreira faturou o título de calouro do ano em 2015 e vem em plena ascensão desde então. Ao lado de Medina, venceu três etapas em 2018, mas não brigou pelo título após mesclar performances impressionantes com resultados abaixo do esperado. Aos 24 anos, o potiguar vive o melhor momento da carreira e encanta com seu surfe extremamente progressivo.

Adriano Mineirinho - WSL / KENNETH MORRIS - WSL / KENNETH MORRIS
Imagem: WSL / KENNETH MORRIS
Adriano de Souza, o Mineirinho, é o mais velho da geração e ganhou o apelido de "Capitão Nascimento". Atualmente com 32 anos, ele está na elite desde 2006 e viveu o auge da carreira com o título mundial de 2015, mas ainda dá trabalho aos mais novos. O surfista de Guarujá deixou a desejar no ano passado, mas sofreu lesão grave no joelho e não tem data para retornar.

Tatiana Weston-Webb - WSL / ED SLOANE - WSL / ED SLOANE
Imagem: WSL / ED SLOANE
Tatiana Weston-Webb nasceu no Brasil, mas cresceu e vive no Havaí. Ela surgiu no circuito feminino em 2014 defendendo a bandeira havaiana, mas se naturalizou no ano passado e passou a vestir a bandeira brasileira. Em 2018, foi a quarta colocada do ranking mundial, assim como em 2016, nos melhores resultados da carreira até aqui.

Silvana Lima - WSL / ED SLOANE - WSL / ED SLOANE
Imagem: WSL / ED SLOANE
Silvana Lima é uma veterana no circuito mundial. Aos 34 anos, a cearense foi vice-campeã mundial em 2008 e 2009 e desde então é figura constante na elite feminina. A surfista teve um 2018 difícil, com resultados pouco expressivos, e terminou o ano lesionada. Agora, se recupera de cirurgia no joelho, mas retornará nesta temporada.

Como os gringos veem o Brasil hoje

Meus enormes parabéns a essa lenda absoluta. Gabriel Medina, você mereceu! Também gostaria de dizer o quanto me inspiram o Brasil e o domínio competitivo de seus surfistas! Esse ano vai para os livros de História. Eles ganharam o título mundial, a Tríplice Coroa, o título mundial júnior, 9 de 11 eventos do World Tour.
Owen Wright, surfista da elite, após bicampeonato de Gabriel Medina

Eu sempre falei isso dele. Desde jovem eu achei isso. É um dos melhores que já vi, se não é o melhor que já vi sobre uma prancha. Você viu a primeira bateria dele? Foi demais. Eu sou um fã do Gabriel. Amo vê-lo surfar. Eu falo para o Mick e para todo mundo. Ele é o melhor que eu já vi.
Joel Parkinson, campeão mundial em 2012, durante etapa no Havaí que marcou a sua despedida do surfe profissional, no fim do ano passado

Será uma grande honra para mim competir contra três surfistas brasileiros pelo título mundial. Eu os respeito muito. Eles são grandes surfistas, muito trabalhadores, mas o mais importante é que são pessoas incríveis. Os surfistas brasileiros ajudam e apoiam uns aos outros para conseguir grandes resultados. Eles também são realmente ambiciosos.
(Mick Fanning, tricampeão mundial, em entrevista ao jornal Lance!, antes da etapa do Havaí em 2015)

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi publicado, Gabriel Medina levantou o troféu de campeão mundial em dezembro de 2018, e não em dezembro de 2019. A informação foi corrigida.

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