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Drica vai às Paralimpíadas aos 43 para filho autista ter acesso a educação

Drica Azevedo, da canaogem, com os filhos e o marido - Divulgação
Drica Azevedo, da canaogem, com os filhos e o marido Imagem: Divulgação

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em São Paulo

27/08/2021 16h00

Drica Azevedo aprendeu com os pais que lugar de criança com deficiência é na escola. Infectada pelo vírus da poliomielite quando tinha apenas 11 meses de vida, ela foi rejeitada como estudante em um colégio tradicional de Natal (RN) por causa da deficiência física e só se tornou uma nadadora campeã mundial no esporte paralímpico porque um dia a mãe bateu o pé e exigiu que a filha, que tinha dificuldades motoras nos membros inferiores, também tivesse direito a aprender a nadar.

Aos 43 anos, agora também acometida da síndrome pós-polio, que obrigou sua aposentadoria compulsória como atendente em uma cooperativa de saúde, Drica dá um novo passo no esporte chegando à sua primeira Paralimpíada, em um novo esporte, a canoagem. Avó de um bebê de seis meses, ela vê na profissão de atleta um caminho para poder oferecer melhores condições de tratamento e educação ao seu filho, Benício, de 7 anos, diagnosticado no espectro autista.

"Quando busquei o diagnóstico do Benício, em 2018, quando ele tinha três anos, eu já imaginava que ele estava no espectro do autismo. Mas era muito complicado para conseguir consultas, era muito caro. Quando veio esse diagnóstico, o que mais escutei foi que: 'Agora você vai ter que parar de treinar, porque vai ter que se dedicar exclusivamente ao Benício'. E eu não aceitava. O diagnóstico dele não era o destino nem dele nem meu. Decidi então que queria progredir no esporte, porque o esporte poderia me dar os meios de cuidar do Benício e melhorar a qualidade de vida dele e da minha família", contou Drica ao UOL Esporte, por telefone, já na Vila dos Atletas de Tóquio.

Nascida em uma família de mulheres fortes, como descreve, Drica trava hoje uma luta que foi também dos pais dela: por educação de qualidade para uma criança diferente das outras. Criada em uma casa repleta de espelhos baixos, para que ela pudesse se enxergar e se aceitar como deficiente, Drica foi rejeitada na escola católica tradicional, cara, onde os pais queriam que ela estudasse.

"Eles [a família] protestaram, colocaram em rádio, mas não deu nada. A escola colocou mil e uma barreiras. Falaram que não tinha quem fosse no banheiro comigo, mas eu não precisava, porque eu havia sido criada para ser independente. Depois disseram que os outros alunos não iam se sentir à vontade comigo. Meu pai se ofereceu para pagar mais pela mensalidade, para pagar uma pessoa para me ajudar, mas não aceitaram", ela conta.

Drica Azevedo treina para a Paralimpíada - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Acabou estudando na escola de uma amiga do pai, onde voltou a sofrer preconceito quando uma professora recomendou que ela não usasse as saias que eram padrão do uniforme para não expor as pernas atrofiadas e não ter que responder perguntas de outros colegas. "Eu não entendia por que a discussão, não era problema eu ter aparelho".

De aluna a mãe de aluno

Também houve resistência para Drica ser aceita como aluna de uma escolinha de natação de Natal. Os pais dela precisaram assinar um termo de responsabilidade, para o caso de qualquer incidente com a criança. Valeu a pena, porque Drica se tornou nadadora paralímpica, tendo sido campeã mundial em 1996, aos 18 anos, quando o movimento paralímpico ainda engatinhava no Brasil.

A potiguar não chegou a disputar uma Paralimpíada na natação, mas alcançou feitos importantes e disputou, por exemplo, o Parapan de 2007, no Rio, onde conheceu um voluntário que se tornaria seu marido, Carlos Rodrigo. O casal teve dois filhos. Primeiro, Carlos Henrique, que tem 11 anos. Depois, Benício, que mudou a vida de Drica exatamente quando descobriu que estava com síndrome pós-polio, um desordem neurológica, consequência da poliomielite da infância, que a fez perder rendimento na natação e se aposentar pelo INSS.

Enquanto migrava para a canoagem veio o diagnóstico de Benício e a decisão de que o esporte seria seu caminho. "Enquanto outros falavam: 'Vai ter que parar', eu pensava: 'Agora que vou ter que continuar'. Por ele e por mim. Pelo meu amor a ele e por eu querer o melhor para ele." Professor de educação física, Carlos Rodrigo largou os dois empregos, a família fez as malas e se mudou do Rio para Curitiba, base do técnico Cleberson Santos, que Drica diz ser o melhor do país.

"Fomos no início de 201 e eu busquei na mesma hora uma escola para o Benício, uma escola regular, a 300 metros da nossa casa. Com sete dias que estávamos em Curitiba ele já estava frequentando a escola com o acompanhamento de uma tutora, uma estagiária pedagoga, que ficou com o Benício junto com a professora dele. Com acesso a sala de recursos multifuncionais. O Benicio ficou muito bem adaptado e quando começou a ter progresso, começou a falar bem, houve a pandemia, que acabou rompendo a evolução dele", relata a atleta.

Drica Azevedo com o filho Benício - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Drica considera "bizarro" que o filho, aos 7 anos, no segundo ano do ensino fundamental, ainda não esteja alfabetizado. Ela diz que a adaptação do garoto a uma escola regular é difícil, cheia de percalços, trabalhosa para os pais, para a criança e para os professores, mas que, ainda assim, é a melhor alternativa para uma criança do espectro autista. Assim, rechaça a postura do ministro da Educação, Milton Ribeiro, que vem afirmando que crianças com deficiência "atrapalham" a educação de outras crianças e que o governo não quer o que ele chama de "inclusivismo" dessas crianças.

"Sou a favor que seja feita uma rede de preparo para os professores e o governo tenha cuidado de implantar nas escolas os tutores, os auxiliares que vão organizar com o professor e o pedagogo a rotina do aluno dentro da sala de aula. Não é tão simples, não é conto de fadas. Vão ser muitos erros, muitos acertos, mas inclusão é o melhor remédio para tudo isso. O preparo não pode deixar de ser feito. É necessário ter a ressignificação pelos professores, pelos pais também", afirma Drica.

Sam Gardner, personagem que protagoniza a série Atypical, da Netflix, que está no espectro autista e frequenta a universidade, é um bom exemplo para Drica. "Para [de socialização] uma pessoa chegar naquele patamar, ela tem as terapias necessárias, os recursos, os estímulos... Ele vai ter as individualidades dele, vai ter aversões extremas, e isso vai ser tratado com terapia, para que ele seja cada vez mais socializado. Infelizmente a gente não consegue ter isso o tempo todo, a não ser que a gente custeie. E por isso estou na Paralimpíada, em busca de visibilidade. Para que eu possa ter recursos financeiros para custear o tratamento do Benício. Esse é um dos motivos que me movem a continuar no esporte. Para que o Benicio cresça e ande junto comigo."

Enquanto Benício segue em Curitiba, apegado a uma boneca de pano de cabelo roxo que a quem dorme abraçado como se fosse a mãe e sempre carregando com ele uma foto de Drica, a atleta sonha fazer uma final A em Tóquio. Ela compete no KL1 200m (caiaque adaptado para uma pessoa) a partir de quinta-feira, quando acontecem as baterias eliminatórias. As semifinais e a final acontecem no sábado que vem.