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Doda deixa Clube Hípico de Santo Amaro após chamar presidente de cachaceiro

O cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, medalhista olímpico por equipes - Pascal Le Segretain/Getty Images
O cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, medalhista olímpico por equipes Imagem: Pascal Le Segretain/Getty Images

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Tóquio

31/07/2021 14h00

O cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda, renunciou a seu título benemérito do Clube Hípico Santo Amaro (CHSA), em São Paulo, antes que fosse expulso. Essa situação aconteceu durante as Olimpíadas, para as quais ele nem tentou classificação, uma vez que não tinha montaria com nível para a disputa. E essa é só a ponta da meada da guerra surda que envolve o hipismo brasileiro.

Doda e o CHSA entraram em rota de colisão nos últimos meses, depois que o cavaleiro passou a organizar competições profissionais em seu haras em Itatiba, no interior de São Paulo, concorrendo com torneios promovidos pelo clube. Especialmente incômoda foi a situação de esvaziamento do tradicional concurso que marca o aniversário do CHSA, porque a premiação do evento do haras de Itatiba atraiu mais cavaleiros.

De forma concomitante, também houve um afastamento político, com Doda apoiando a candidata de oposição Barbara Laffranchi à Confederação Brasileira de Hipismo (CBH), contra Kiko Mari, que é membro do conselho de administração do CHSA e também já foi seu presidente. O grupo de Doda e Barbara investiu muito, mas Kiko venceu a eleição para a CBH em janeiro.

A história da eleição não ficou por aí, transformando-se em uma milionária guerra jurídica por poder. Por ora, Kiko está conseguindo se manter no posto.

De longe, a Federação Equestre Internacional (FEI) observa e "pede" — porque não pode interferir diretamente em Federações Nacionais — para que seja encerrada a judicialização do processo. No hipismo, temeu-se mesmo por uma intervenção, que poderia ter tirado a equipe brasileira dos Jogos de Tóquio-2020.

Milhões em prêmios, criação, compra e venda de cavalos são o pano de fundo da discórdia. Em determinado momento da carreira, Doda passou a frequentar mais a Hípica Paulista, onde foram realizados, por exemplo, os concursos internacionais com o nome de sua ex-mulher - à época, Athina Onassis. Houve maior promoção de eventos nessa hípica concorrente, em contraponto ao CHSA, onde Doda foi criado como atleta.

Agora, frequentadores do CHSA se sentem incomodados com a presença de seguranças do cavaleiro, a ponto de a polícia ter sido chamada a intervir, dentro do clube, ao menos em uma ocasião. Também consideram que o medalhista olímpico exagera em provocações grosseiras.

Doda, cavaleiro olímpico, tem duas medalhas de bronze por equipes no salto, conquistadas pelos brasileiros em Atlanta-1996 e Sydney-2000.

Expulsão ou cassação?

No processo disciplinar aberto contra o cavaleiro, o CHSA diz que havia um "descontentamento em massa, oriundo de comportamento não compatível com o título honorário" de Doda, que teria, desde fevereiro, "denegrido" o clube e seu presidente em críticas feitas nas redes sociais. O termo "denegrir", usado pelo clube, tem conotação racista, porque relaciona o negro a uma atitude negativa. O parecer que orientou a expulsão usa o termo seis vezes.

Em uma live em maio, de dentro do clube, onde ocorria uma competição, Doda teria dito, segundo o clube: "Esse imbecil desse presidente Alexandre [Leonor], ele... quase que baixou as calças para mim, para eu poder convencer o conselho de ele ser presidente. (...) E é isso que aconteceu, é um presidente que não tem culhão nenhum, é um imbecil total, fica bebendo o dia inteiro aqui, um cachaceiro que não consegue administrar o próprio banheiro dele, o toalete da casa dele não conhece, deve faltar papel, deve limpar a bunda com a mão, deve ser isso entendeu?". As frases estão em notas taquigráficas, no documento do Conselho.

No processo em que discutia a expulsão, o CHSA lembrou que seu estatuto prevê que é dever do associado "abster-se, nas dependências do clube, de atividades, movimentos ou manifestações ostensivas de natureza política, religiosa, racial ou de classe", entendendo que Doda se manifestou politicamente, uma vez que havia a eleição da CBH como pano de fundo das críticas.

Dos 12 conselheiros, dez votaram pela expulsão, um se absteve e um votou contra.

Em uma nota à comunidade equestre, Doda se posicionou: "Venho sendo alvo de atitudes por parte da atual diretoria, onde, por razões políticas e pessoais, procuram atacar minha imagem através de provocações indevidas, sendo que recentemente fui alvo de provocações dentro das dependências do clube, que me levaram a reações das quais resultaram em uma abertura de sindicância com processo disciplinar objetivando a minha exclusão do quadro de sócios".

"Apesar de ter apresentado uma defesa fundamentada com diversas provas e declarações de apoio de sócios e atletas do meio hípico, inclusive com uma manifestação do ex-presidente do CHSA, Sr. Manoel Valtevar Poladian, dirigida aos conselheiros do clube, em repúdio à iniciativa de minha exclusão do quadro de sócios, entendi por bem evitar maiores discussões e desavenças em torno desse tema, tendo, nesta data, solicitado a minha exclusão do quadro de sócios, com a entrega do título honorário a mim concedido", informou.

Em resposta ao UOL, o presidente do CHSA, Alexandre Leonor, confirmou que houve a reunião. E, sobre o título honorário de Doda, disse: "Foi cancelado e posteriormente ele solicitou sua retirada".