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Tóquio-2020 é diversa, mas direitos LGBTQIA+ ainda são ignorados no Japão

Direitos LGBTQIA+ ainda são pífios no país das Olimpíadas - Getty Images/via iStock
Direitos LGBTQIA+ ainda são pífios no país das Olimpíadas Imagem: Getty Images/via iStock

Juliana Sayuri

Colaboração para o UOL, em Tóquio

30/07/2021 04h00

Diz-se que a Tóquio-2020 vai entrar para história como as Olimpíadas da diversidade, com um recorde de atletas abertamente LGBTQIA+: 163, segundo levantamento do site Outsports. Entre eles, estão a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard, a primeira trans a conquistar uma vaga para os Jogos Olímpicos; o jogador de vôlei Douglas Souza, o primeiro atleta assumidamente gay do time brasileiro, que se tornou um fenômeno no Instagram, e a jogadora de futebol Marta Silva, a camisa 10 que dedicou gols à sua noiva, Toni Pressley, na partida Brasil x China.

Entre os 163, entretanto, não há nenhum japonês ou japonesa. Enquanto se celebra a diversidade dentro das Olimpíadas, do lado de fora das arenas nipônicas, a história é diferente: único país do G7 que não reconhece o casamento homoafetivo, o Japão tampouco tem leis nacionais contra discriminação a identidade de gênero e orientação sexual.

Às vésperas dos jogos, era esperado que o parlamento japonês aprovasse o Ato da Igualdade, a fim de alinhar a lei do arquipélago aos padrões internacionais de direitos humanos e aos princípios da própria Carta Olímpica, que veta "qualquer tipo de discriminação".

Além de décadas de pressões internas de ativistas japoneses para se aprovar a nova legislação, a Human Rights Watch e outras 115 organizações de defesa de direitos humanos endereçaram uma carta ao premiê Yoshihide Suga pedindo por mudanças.

"[As Olimpíadas] foram divulgadas como uma celebração 'da unidade na diversidade' [...]. Com uma audiência de bilhões no mundo todo durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, o Japão estará sob holofotes globais sem precedentes. Esta é uma importante oportunidade para mostrar o compromisso do governo na inclusão de pessoas LGBT na sociedade", dizia a carta, publicada em janeiro.

Bateu na trave: em junho, o projeto de lei foi engavetado, após um festival de declarações discriminatórias de integrantes do Partido Liberal Democrático, presidido por Suga. Koji Shigeuchi, consultor do comitê do PLD sobre identidade de gênero e orientação sexual, disse que a questão LGBTQIA+ estaria "saindo do controle" e que, se a lei fosse aprovada, alguém poderia mudar e dizer que é "um homem hoje e uma mulher amanhã".

Kazuo Yana, parlamentar do PLD, disse que pessoas LGBTQIA+ "vão contra a preservação da espécie", reportou a agência Kyodo. Para pessoas trans, por exemplo, a lei japonesa atual trata transexualidade como um transtorno e exige a esterilização de quem desejar alterar a identidade de gênero no registro civil e, para tanto, não pode ser casado ou ter filhos menores de 18 anos.

"Celebrar a diversidade, a igualdade e a inclusão nas Olimpíadas é lindo, mas é uma ilusão. É muita maquiagem do que realmente acontece no Japão, onde não há proteção a direitos de minorias", diz a ativista queer e drag queen Labianna Joroe, 28, que participa de movimentos LGBTQIA+ e é aliada do movimento Black Lives Matter Tokyo.

A ativista queer e drag queen Labianna Joroe - Juliana Sayuri/UOL - Juliana Sayuri/UOL
A ativista queer e drag queen Labianna Joroe
Imagem: Juliana Sayuri/UOL

"É lindo o discurso de diversidade e destacar Naomi Osaka [que acendeu a pira olímpica na cerimônia de abertura] e Rui Hachimura [que foi porta-bandeira do Japão], mas quem vive aqui sabe que a sociedade não os vê como japoneses 'de verdade'. Vale para o recorde de atletas LGBTQIA+: é ótimo que eles estejam participando, mas é preciso lembrar que, se eles forem alvo de discriminação ou discurso de ódio, não há nenhuma lei para protegê-los aqui."

Recentemente, personalidades japonesas que assumiram a própria sexualidade vêm conquistando mais visibilidade. Na política, pela primeira vez, foram eleitos parlamentares declaradamente homossexuais, como Kanako Otsuji, em 2017, e Taiga Ishikawa, em 2019. No universo esportivo, nos campos de futebol, a jogadora Shiho Shimoyamada se assumiu lésbica em 2019, e o jogador Kumi Yokoyama se declarou um homem trans em 2021.

No fim de junho, o ex-esgrimista Sugiyama Fumino se tornou o primeiro atleta trans a entrar no Comitê Olímpico do Japão —que, num ato falho, divulgou a inclusão de Fumino na lista feminina de novos integrantes.

"O mundo todo está de olho nas Olimpíadas e é como se uma máscara estivesse caindo: para quem imaginava o Japão como um modelo de país, sem crime e sem discriminação, agora pode ver que não é bem assim. Que é um país conservador, que precisa avançar na garantia de direitos humanos e no combate a homofobia, transfobia, racismo, sexismo e xenofobia", avalia Labianna, que nasceu no Brasil, mas desde os três anos de idade vive no Japão.

"Pode não ter violência física brutal contra minorias, como em outros países, mas há uma violência simbólica que interfere em todas as dimensões da vida, desde a busca por um emprego até o aluguel de uma casa."

a ativista queer e drag queen Labianna Joroe - Juliana Sayuri/UOL - Juliana Sayuri/UOL
A ativista queer e drag queen Labianna Joroe
Imagem: Juliana Sayuri/UOL

Nas Olimpíadas, a torcida dela não é exatamente no esporte. Labianna, que defende a aprovação de leis para criminalizar ações e discursos discriminatórios, diz que não se considera uma ativista radical "do tipo 'vamos queimar a bandeira do Japão'" e prefere priorizar o diálogo para promover mudanças.

"É como se parte da sociedade japonesa tivesse os olhos vendados para o diferente. É preciso tirar essa venda para ver que há questões problemáticas no país, sim. Torço muito para que o Japão aprenda, avance, melhore." Como diz o lema olímpico, mais rápido, mais alto, mais forte —e juntos.