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Japoneses jogam capoeira em memorial olímpico de 1964

Juliana Sayuri

Do UOL, em Tóquio

26/07/2021 09h41

De uma das alas do arborizado parque Yoyogi, uma área verde impressionante no distrito de Shibuya, às vezes é possível ouvir uma música vibrando em um dos ginásios. Uma letra familiar para nós, brasileiros: "Oiá iá iá iá, traz o nêgo sinhá. Paranauê, paranauê paraná. Paranauê, paranauê paraná..."

Quem canta é o japonês Kotaro Suzuki, 37, que lidera o grupo Abadá (Associação Brasileira de Apoio e Desenvolvimento da Arte da Capoeira) em Tóquio. Conhecido como "Choque", o instrutor dá aulas no Centro Juvenil do Memorial Olímpico Nacional, o local que foi a Vila Olímpica da Tóquio-1964 e que, antes da pandemia, concentrou os primeiros treinamentos de voluntários para a Tóquio-2020.

Toquiota, Suzuki se interessou por capoeira ao notar uma personagem de um jogo de fliperama que trajava abadá branco e gingava golpes que ele, praticante de taekwondo, nunca tinha visto. Ele e o irmão se interessaram e logo começaram a procurar onde praticar na capital japonesa. "Para mim, Brasil era só samba e futebol. Quando descobri a capoeira, abriu meu mundo", conta.

Eles encontraram um centro de treinamento, mas Suzuki queria mais. Em 2003, aos 19 anos, viajou pela primeira vez ao Brasil. Em 2005, voltou para ficar por um ano, em um tipo de intercâmbio, trabalhando como office boy no Rio.

Na volta, cursou literatura inglesa na universidade e começou a trabalhar pensando em guardar dinheiro para poder investir na capoeira. Ao todo, já foi oito vezes ao Brasil: estudou folclore maranhense, aprendeu tambor de crioula, morou junto a seus mestres nas favelas cariocas, da Pavuna à Rocinha. Estava lá na época da Rio-2016 e trabalhou para a agência pública NHK como "tradutor e faz-tudo", inclusive carregando equipamentos das equipes de TV.

Japonês Kotaro Suzuki conheceu a capoeira no fliperama e virou instrutor no que foi a Vila Olímpica de 1964 - Juliana Sayuri - Juliana Sayuri
Japonês Kotaro Suzuki conheceu a capoeira no fliperama e virou instrutor no que foi a Vila Olímpica de 1964
Imagem: Juliana Sayuri

Em março de 2019, depois de mais uma temporada no Brasil, ele voltou de vez ao Japão e decidiu começar a ensinar capoeira na capital. Em março de 2020, viria a pandemia e ele precisou adaptar as aulas para o digital e às vezes encontros presenciais, reduzidos.

"Capoeira é a arte da adaptação. Dá pra praticar num quartinho de 1 metro quadrado ou num ginásio imenso, sozinho ou junto, jovem ou idoso, alto, baixo, magro, gordo, sem uma perna, sem duas pernas", diz ele. Capoeira, vale lembrar, foi inventada por africanos escravizados e seus descendentes na época colonial - graças a ela, muitos conseguiram fugir para os quilombos, marcos de resistência.

"Não há nada igual. Capoeira é música, arte, atividade física, história e filosofia", define. "Não basta só soltar pernada, não. Tudo o que aprendemos para jogar capoeira vale para a vida, porque a vida também é um tipo de jogo, né? Ela te ensina a derrubar, mas principalmente a se levantar."

Foi isso que também atraiu Hiroshi, 33, que prefere ser lembrado pelo apelido de capoeira, "Espeto". "Ela nos ensina a improvisar", diz ele, que estudou em Nagoia, capital da província de Aichi, onde há muitos brasileiros, e hoje vive em Tóquio.

Yoko, 69, que também prefere o apelido "Dente de Leão", se interessou tanto pela capoeira que também quer aprender o português. "Estou estudando", diz ela, mostrando o livro amarelo que carrega consigo, com a palavra "Burajiru" (Brasil) na primeira página.