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Ginasta diz que era humilhado por Ângelo Assumpção desde os 9 anos

O ginasta brasileiro Ângelo Assumpção, acusado de humilhar um colega de clube mais novo - Esporte Clube Pinheiros/Divulgação
O ginasta brasileiro Ângelo Assumpção, acusado de humilhar um colega de clube mais novo Imagem: Esporte Clube Pinheiros/Divulgação

Demetrio Vecchioli

Do UOL, em Tóquio (Japão)

25/07/2021 17h11

O ginasta Gabriel Alves, de 17 anos, acusou o ex-colega Ângelo Assumpção de humilhá-lo durante anos com comentários homofóbicos quando os dois treinavam no Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo. Em 2015, Ângelo foi vítima de racismo do ginasta olímpico Arthur Nory.

As trajetórias de Gabriel e Ângelo são parecidas. Os dois são negros, da Zona Leste de São Paulo e crias do Pinheiros. Gabriel, que segue no clube, conta que, por muitos anos, desde quando era uma criança de apenas 9 anos, foi tratado por Ângelo, já adulto, por dois apelidos pejorativos: Rebeca Blackout e Leona, ambos fazendo referência a um garoto negro, gay, que se prostituía nas ruas de Salvador e cujos vídeos viraram memes em 2010.

"Eu acho que ele quis mesmo que eu fosse humilhado e passasse vergonha na frente dos outros. Na frente dos meus companheiros, meus colegas. Comecei a ficar com vergonha, me sentia muito mal. Eu era o único diferente, porque para ele zoar só comigo alguma coisa tinha", conta o ginasta de 17 anos.

Essas acusações foram relatadas ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) da Federação Paulista de Ginástica, no processo que investigou as acusações de racismo na demissão de Ângelo pelo Pinheiros. O Olhar Olímpico noticiou isso em outubro do ano passado, mas só agora a vítima resolveu falar publicamente sobre o assunto, fazendo uma série de posts no Twitter.

Gabriel disse que sentiu necessidade de expor o caso depois de acompanhar as críticas a Arthur Nory, que praticou racismo contra Ângelo em 2015. O caso voltou à tona após a participação de Nory nas Olimpíadas de Tóquio-2020. "Percebi que o Nory estava sendo acusado de várias coisas. Sou contra racismo e contra homofobia, mas isso me trouxe gatilhos de coisas que eu já sofri. Me fez lembrar do que eu já passei, pela mesma pessoa, e isso me deixava mal", continuou.

A reportagem procurou Ângelo neste domingo para ele comentar as acusações, mas ele afirmou que só poderia falar na segunda-feira.

Os relatos de Gabriel, feitos também por telefone à reportagem do UOL, vão ao encontro do que já havia publicado a coluna Olhar Olímpico no ano passado, a partir de fontes que preferiam não dar as caras. Na época, a reportagem teve acesso a um vídeo, enviado por Ângelo a colegas de clube e treinadores, em que ele trancava um garoto menor de idade dentro de um armário e depois o fazia "sair do armário" — um eufemismo para se assumir gay.

"Ele falava que eu parecia o menino do vídeo, não só na aparência, mas no jeito de viado. Que ia demorar pouco para eu descobrir sobre ser viado. Ele começou a me chamar sempre por esses nomes. Nunca era meu nome de verdade, sempre pelos apelidos. A impressão que eu tenho é que ele fazia para me diminuir. Para se aparecer na frente dos outros e me diminuir", diz Gabriel.

O relato bate com o que apurou o Olhar Olímpico no ano passado: Ângelo costumava "crescer" sobre os garotos mais novos, inclusive na república onde ele morou com outros ginastas, incluindo Gabriel, no bairro de Pinheiros.

"Ele nunca pediu desculpas. Já cheguei para conversar com ele muitas vezes, ele dizia que eu precisava passar por isso, que estava me ajudando a me descobrir. Falei várias vezes, várias vezes. Ele dizia que eu precisava ser humilhado para me descobrir", diz Gabriel.

O ginasta afirma que não levou as queixas ao Pinheiros, de forma que essas ofensas, especificamente, não influenciaram na decisão do clube de demitir (ou não renovar o contrato de) Ângelo, no fim de 2019. Mas Gabriel afirma que não havia clima para Ângelo continuar no grupo.

"A gente evitava ao máximo o Ângelo. Ele causava muito dentro do ginásio. O ambiente ficava muito tóxico com ele lá dentro. Ele cobrava muito e não fazia. A gente estava parado descansando e ele vinha gritar, dizendo que a gente não ia ser nada. Ele sempre foi muito mal educado, indisciplinado, queria bater boca com os treinadores. Ele sempre queria ser o dono do razão", diz.

Desde o ano passado, quando passou a alegar publicamente que foi demitido do Pinheiros por reclamar de atos racistas, Ângelo repete que gostaria de saber por que nenhum clube o contrata. Gabriel tem uma opinião: "Se ele tivesse nível de atleta olímpico que agora dizem que ele tem, alguém já tinha procurado ele. Ninguém ia jogar fora o talento que dizem que ele tem. As pessoas da ginástica sabem sobre esses acontecimentos, que ele era desrespeitoso, tinha falta de educação, falta de comprometimento."

Dispensado do Pinheiros no fim de 2019, Ângelo está há um ano e meio sem clube e, consequentemente, sem um local para treinar adequadamente, uma vez que, na ginástica, as estruturas de treinamento ficam dentro de clubes.