Marcelo Paz explica por que Fortaleza virou SAF: 'Não dá pra fazer milagre'

Ex-presidente do Fortaleza, Marcelo Paz renunciou ao cargo para assumir como CEO da SAF do clube. Em entrevista ao De Primeira, ele contou que a inspiração para a transição de modelo de gestão no Leão do Pici é o Bayern de Munique, da Alemanha, cuja Sociedade Anônima do Futebol é controlada pelos sócios do clube.

'Fortaleza virou SAF porque o modelo facilita': "O Fortaleza está passando por uma mudança no seu regime, o Fortaleza virou SAF, foi aprovada pela Assembleia Geral de sócios com 94%, então a SAF é o futebol do clube. Todos os ativos do futebol vão ser transferidos para SAF, que são os contratos de jogadores, direitos de participar de competições, contratos de patrocínio, sócio-torcedor. Receitas e despesas serão transferidos para SAF, há um Conselho de Administração, que já foram escolhidos os nomes, e esse Conselho de Administração escolhe o CEO. O nome escolhido como CEO foi eu, acho que passei por um processo seletivo bem rigoroso, foram seis anos trabalhando e dando resultados para ser escolhido para essa função. É uma SAF, neste momento, sem nenhum investidor nem venda de ações, o Fortaleza Esporte Clube é o dono de 100% das ações da SAF, assim como é no América-MG, que já fez esse movimento. Então, o Alex Santiago, que era meu segundo vice-presidente, assume a Presidência da associação, do Fortaleza Esporte Clube, eu vou assumir CEO e o Geraldo Luciano, que era o primeiro vice-presidente, passa a ser o presidente do Conselho de Administração da SAF. É uma mudança para dar mais modernidade à gestão, o clube sendo SAF tem acesso mais fácil e mais barato a crédito no mercado, acesso a um modelo de governança mais atual e moderno, o modelo associativo tem entraves naturais da associação, na SAF isso já fica mais moderno. E olhamos para frente, para que o clube possa disputar com os gigantes, gigantes muito endinheirados, turbinados com muito dinheiro de suas SAF's, que foram diferentes porque houve venda de ativos, venda de controle. Então, a gente dá esse passo pensando no futuro. Qual o objetivo disso? É que nossa bola continue entrando, para que o Fortaleza continue competitivo".

'Não dá para fazer milagre todo ano': "O modelo mais interessante é o do Bayern de Munique, porque tem sócios na SAF em até 25% só, são as três grandes marcas que o patrocinam, Audi, Allianz e Adidas, e o clube permanece com o controle da gestão. A gente não vendeu nada ainda, não tem intenção de venda nenhuma, mas podemos, sim, negociar algum tipo de ação do clube no mercado. Todo movimento de venda de ação volta para o clube associativo aprovar, para a assembleia de sócios aprovar, a venda de ações não vai ser definida por mim como CEO ou pelo Geraldo como presidente do Conselho de Administração, volta para a Assembleia Geral de sócios, porque o Fortaleza Esporte Clube é o dono da SAF. Então, o Fortaleza e seus sócios precisam aprovar venda de capital ou de ações. Sim, temos interesse no capital para poder concorrer, não dá para fazer milagre todo ano, digo isso sempre aqui dentro".

'Queremos manter o nível de competitividade': "É difícil você concorrer tendo a pior logística, mais uma vez rodamos 86 mil km, enquanto o Bahia rodou 55 mil, que foi o segundo lugar, os times de São Paulo rodam 22 mil km, então é quatro vezes mais, eu rodo 400% a mais para jogar o mesmo campeonato. Nosso tíquete médio de bilheteria do estádio é o menor do Brasil, porque nosso sócio-torcedor entra de graça no jogo, então quando fecha a conta da renda com a quantidade de pessoas no estádio é o menor ticket médio. E o Fortaleza, em cinco temporadas, ficou quatro vezes entre os 10 da Série A. A gente sabe que isso é difícil, o Bahia já está anunciando um investimento milionário para o ano que vem de mais de R$ 200 milhões, o Vasco vai ter um aporte da 777 de duzentos e tantos milhões, como a gente vai concorrer com tudo isso, se não entrar nesse jogo? Então, queremos manter o nível de competitividade, isso é natural e aceitável, senão a gente não vai conseguir segurar por muito tempo o Fortaleza nos andares mais altos do futebol brasileiro".

Confira outros trechos da entrevista com Marcelo Paz

SAF do Fortaleza tem cláusula de barreira

Qualquer venda de ação, se for vender 1%, volta para a Assembleia Geral de sócios. Se o PVC, que entende tudo de futebol, quiser virar investidor de futebol e decidir investir no Fortaleza, a gente vai lá na assembleia e diz: 'Olha, tem o PVC, que é competente, honesto, sério, e quer comprar 1% das ações do Fortaleza por tanto, vocês querem ou não querem?' Aí vai ter a votação. Para a venda de controle, a cláusula é ainda maior, para venda comum, tem um percentual de dois terços, para vendas de ações abaixo de 49%, para mais disso, a cláusula é ainda maior, é mais difícil ainda para venda de controle, que é vender a alma. Se a gente entrega tudo do clube, quem compra passa a ser o dono, então a gente estabeleceu que, para venda de controle, a gente tem uma cláusula de barreira ainda maior."

Interesse do Palmeiras em Caio Alexandre

"Quanto ao Caio Alexandre, existe um interesse real do Palmeiras, existe uma conversa, mas não houve proposta formal, não houve papel timbrado. Então, se o Palmeiras vier fazer uma proposta formal, a gente vai ouvir. Tenho máximo respeito pelas pessoas que estão no Palmeiras, é um clube muito sério, o Anderson Barros é um grande profissional, a presidente Leila também é uma pessoa que admiro, a gente tem uma relação próxima, de trocar uma ideia e se falar. Eles já declararam um interesse, sim, falta a proposta formal. Se ela vier, a gente senta, conversa e vê a possibilidade."

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Ligação de Ceni após permanência do Bahia

"O legal dessa história é que remonta a 2021, quando o Fortaleza venceu o Bahia no Castelão e o Bahia foi rebaixado. Eu soube que muita gente do Bahia ficou chateada com o Fortaleza, ah, porque o Fortaleza foi com tudo para ganhar do Bahia e tal', e no jogo anterior contra o Cuiabá a gente tinha perdido, o Cuiabá era rival do Bahia naquela situação, mas a gente joga para ganhar. Ficou meio que um ranço, mas a bola girou e novamente o Fortaleza precisava ganhar porque a gente joga para ganhar. Ganhamos, nossa vitória causou a permanência do Bahia e foi muito comemorado lá isso. Foi legal viver isso porque ficou claro para todo mundo que o Fortaleza sempre vai jogar para ganhar, que esse é o nosso papel. Agora mais recente, vencemos o Goiás, fomos a 51 pontos, garantimos a Sul-Americana e eu disse ainda no vestiário do Castelão para os jogadores: 'eu sei que está todo mundo feliz, mas eu preciso de vocês mais três dias, eu preciso ganhar o jogo quarta-feira porque vale dinheiro para o clube, vale premiação, valem pontos no ranking da CBF, vale ficar entre os 10, que é muito importante, e vale premiação para vocês também. Se a gente ficar em 11º, vai ganhar menos dinheiro, se ficar em 10º, ganha mais, se ficar em 9º, ganha mais ainda, então eu quero todo mundo focado para ganhar o jogo'. Fomos lá, botamos o que tinha de melhor, jogamos, duelamos e ganhamos o jogo. Então, independente de qualquer contexto, esse vai ser o Fortaleza. A bola gira: em 2021, o Bahia caiu num jogo contra o Fortaleza, no Castelão, que nós ganhamos o jogo, estádio cheio, com 60 mil pessoas; em 2023, o Fortaleza ganha o jogo na última rodada e dessa vez o Bahia fica. O Rogério é um grande amigo, me ligou depois, não me ligou antes, ninguém do Bahia me ligou antes para pedir para ganhar o jogo. Ele sabe que a gente joga para ganhar, mas depois o Rogério me ligou e disse: 'Presidente, obrigado, vocês foram mais uma vez muito corretos, muito éticos, eu não esperava nada diferente de vocês, porque trabalhei e conheço, em função da vitória de vocês nós conseguimos permanecer, foi muito legal para o clube'. Então, é legal a gente contar essa história, o Bahia é um clube nordestino, pelo qual temos muito carinho, o presidente que está saindo, o Guilherme, é um amigo, o ex-presidente Marcelo Santana também é um amigo. A gente tem que fazer nosso papel dentro de campo, honrar nossas cores, e foi isso que fizemos."

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