Magia Scolari: Aos 75, Felipão tem paixão de garoto e não cansa de renascer

O Brasileiro foi marcado por um novo renascimento de Luiz Felipe Scolari. Com uma arrancada no Atlético-MG, ele terminou a competição em 3º lugar e por pouco não impediu o título do Palmeiras . Aos 75 anos, o pentacampeão esbanja empolgação e não cansa de se reinventar.

O que aconteceu

Felipão já foi taxado de ultrapassado algumas vezes ao longo da carreira, mas sempre mostrou que não é bem assim. Neste ano, a última resposta veio com a arrancada do Galo, numa trajetória de sete vitórias nos últimos 10 jogos.

Seja em sua saída do Chelsea (ING), a ida para o Uzbequistão, o 7 a 1 contra Alemanha, de todos os momentos adversos, Scolari conseguiu se recuperar.

A reportagem do UOL foi atrás da explicação. Como, mesmo aos 75 anos, Felipão ainda é perito em surpreender. Qual o segredo da 'magia Scolari'?

Apaixonado pelo trabalho

As fontes consultadas pelo UOL são unânimes na primeira resposta: Felipão é apaixonado pelo trabalho. Entre as atribuições do treinador, a que ele mais gosta e dá atenção é o treinamento de campo. Não que negligencie reuniões, organização do grupo, controle de regras ou criação de ambiente positivo, mas nada supera sua necessidade pelo treino. É onde está mais feliz.

Scolari sempre chega antes dos demais e prolonga as atividades o máximo possível. Quando ouve seus pares de comissão, argumenta, debate, mas nunca se afasta do comando do treino. Ainda que por vezes delegue funções, comece apenas observando, basta alguns minutos para ir entrando no gramado e, de repente, já está com apito na boca.

Felipão é do tipo que chama jogadores específicos para 'trabalhos particulares' depois do treino. Foi assim, por exemplo, no Athletico com Vitor Roque. Depois dos treinos, ele utilizava horas para mostrar ao jogador como se posicionar na área, como bater os zagueiros.

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A resposta para a pergunta é simples: Ele é o Felipão. Um cara com 32 títulos na carreira, pentacampeão, que revolucionou o futebol português, ganhou títulos em todos os continentes que passou, fez história. E é, acima de tudo, um cara super atualizado, interessado, humilde, que busca novos conhecimentos. Ele é o Felipão, e Felipão tem um só

Paulo Turra, técnico de futebol e ex-auxiliar de Scolari

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Imagem: Fernando Moreno/AGIF

A história prova

Felipão não teria qualquer razão para aceitar novos desafios, como comandar o Atlético-MG, não fosse a paixão por ser treinador. Com vida financeira resolvida, ele poderia muito bem usar o tempo para outras atividades. Mas não consegue.

Pouco antes de assumir o Cruzeiro, em 2020, Scolari dividia o tempo com a esposa entre ligações para decidir o futuro. Poderia ir para o Bahia ou mesmo para o clube mineiro, que acabou sendo uma investida sem sucesso.

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A preferência pelo gramado também foi notada no convívio com ele no Palmeiras, onde foi campeão do Brasileirão de 2018. Desde o momento em que chegava ao CT, o treinador mostrava o desejo de começar a trabalhar no campo.

Quando optou por virar dirigente, Scolari dizia estar 'aprendendo' os processos de fora de campo, mas ainda assim não media esforços para voltar à beira do gramado. Diariamente chamava Paulo Turra, técnico do Athletico na ocasião, para conversar e debater treinos. Sugeria, ouvia, detalhava, estava por dentro do que seria feito no time.

Ele simplesmente não consegue parar. É apaixonado pelo trabalho, pelo campo, pelo que ele faz

PVC, colunista do UOL

Humildade, lucidez e desejo de aprender

A 'magia Scolari' também se explica na vontade de aprender coisas novas. Felipão ouve e acolhe profissionais de todas as áreas. Dá atenção à análise de desempenho ao tratar de adversários ou atletas específicos, conhece detalhes e exige posicionamentos com a 'pegada' de quem está começando.

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Isso tudo nunca impediu, porém, as conhecidas estratégias de motivação. Felipão é especialista em criar o 'nós contra eles'. Fecha seu elenco como uma família, e qualquer depreciação externa vira 'briga de todos'.

Quando ele entra na sala, não é qualquer um, é o Felipão. A pessoa dele já tem liderança, autoridade, por tudo que já fez e o perfil que tem. Mas é um cara amável, compreensível, e que tem suas convicções. E mesmo que tenha vencido tanto, sempre busca evoluir. Ele sempre busca se aperfeiçoar, dá atenção a todos os detalhes, na palestra é totalmente atento a tudo. Para ver como ele está lúcido, ele lembra de coisas dos anos 70, se faz entender claramente pelos jogadores, fora a energia que tem. Parece que ele se entusiasma na palestra, é tudo que ele quer, é falar do que ele ama, é fazer o que dá prazer, que é treinar

Paulo Turra

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Imagem: Gilson Lobo/AGIF

Sempre o mesmo

Felipão não mudou nada. Seja na condução do time ou na relação com as pessoas, Scolari é o mesmo dos anos 90. É quem abraça o jogador com problemas, cobra regras com a firmeza de um militar, é sério e detalhista, mas gosta de uma brincadeira.

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Ex-dirigente do Grêmio e amigo de Felipão, Benhur Marchiori empilha histórias do comandante.

Ele poderia jogar contra um time pequeno, que ainda assim dava atenção e buscava informações sobre tudo. Ele é meticuloso, detalhista. Me lembro que ele perguntava sobre todos os times, sempre encontrava alguém que soubesse e montava sua estratégia. Ele colhia o maior número de dados possível sobre o adversário, sabia tudo, seja de qual time fosse

Benhur Marchiori

Um pai para os mais novos

Talvez pela idade, Felipão também se transforme naturalmente na figura paterna para muitos jogadores. Scolari se torna suporte para todos os momentos.

Na relação com os meninos, Felipão é responsável por 'segurar' a expectativa externa. Mesmo que perceba grandes qualidades em alguns, ele repete o mantra ao tratar de jogadores da base: "Tudo a seu tempo".

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Ele é um pai para os mais jovens, mas um pai como deve ser. Foi assim com o Emerson (ex-volante) no Grêmio, e era com todos. É aquele pai que dá carinho, afago, um beijo, mas quando tem que dar uma chegada mais forte, dá também

Benhur Marchiori

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Imagem: Reprodução

Idolatrado fora do país

Na Inglaterra, o fato de ter trabalhado no Chelsea acabou transformando a análise e trazendo um viés mais "resultadista". Ainda assim, é consenso entre os jornalistas ingleses que Felipão poderia ter feito um trabalho mais sólido no clube se o vestiário fosse mais dócil. Na época, havia jogadores importantes que se voltaram contra o estilo mais disciplinador.

Em Portugal, Scolari é sinônimo de uma era de ouro do futebol do país. É verdade que a Eurocopa perdida em casa contra a Grécia é uma ferida, mas o desempenho no Mundial de 2006 é um dos grandes orgulhos do futebol lusitano.

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É verdade que os grandes feitos de Luiz Felipe Scolari em âmbito mundial e europeu estão cada vez mais distantes no passado, mas ainda há uma reverência ao nome e à pessoa do treinador gaúcho

Thiago Arantes, colunista do UOL

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