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Liga dos Campeões - 2021/2022

Agressão e ameaças: bastidores da confusão após eliminação do PSG pelo Real

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Thiago Arantes

Para o UOL, de Barcelona

12/03/2022 04h00

A eliminação do PSG pelo Real Madrid na Liga dos Campeões na última quarta-feira (9) foi um baque para o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaifi. Segundo relatos, o catari protagonizou cenas de descontrole, ameaças e violência no Santiago Bernabéu. O UOL Esporte conversou com testemunhas dos momentos de caos que envolveram Al-Khelaifi e o brasileiro Leonardo, diretor de futebol da equipe, depois da derrota. Foram instantes de tensão em que houve gritos, insultos, ameaças e até agressão a um funcionário do clube merengue.

O comportamento de Al-Khelaifi já era descrito como estranho nos minutos finais do jogo. Como de costume, o presidente do PSG assistiu à partida na mesma tribuna do mandatário do Real Madrid, Florentino Pérez —apenas o prefeito de Madri, José Luis Martínez-Almeida, estava entre eles. O catari ficou praticamente em silêncio depois do segundo gol madridista, limitando-se a gesticular.

Segundo relatos ouvidos pelo UOL, com o duelo chegando ao fim, os guarda-costas de Al-Khelaifi perguntaram a funcionários do Real Madrid qual era o caminho mais rápido até os vestiários. Após o apito final, o dirigente cumprimentou Florentino Pérez já a caminho da porta da tribuna e pegou um elevador para os vestiários, acompanhado pelos guarda-costas e por Leonardo. "Ele já tinha o caminho aberto para fazer isso, a sensação é que tudo foi programado", disse uma testemunha que estava na saída da tribuna de honra.

O ex-jogador Emilio Butragueño, vice-presidente do Real Madrid, percebeu a tensão e tentou acalmar os ânimos, mas foi ignorado. Al-Khelaifi e seu grupo chegaram à área dos vestiários antes mesmo dos jogadores das duas equipes e dos árbitros.

Gritos e agressão

Ao ver a equipe de arbitragem, o presidente, segundo testemunhas, gritou com o holandês Danny Makkelie. "Você apitou o jogo com a camisa do Real Madrid". A principal reclamação do dirigente dizia respeito a uma falta de Benzema sobre Donnarumma no lance do primeiro gol.

Surpreso, Makkelie limitou-se a pedir "mais respeito" e, depois de entrar nos vestiários com seus auxiliares, voltou a ser alvo de Al-Khelaifi e Leonardo. Presidente e diretor forçaram a entrada na sala. Na confusão, segundo testemunhas, o mandatário pegou a bandeira de um dos auxiliares e jogou no chão, danificando o objeto. Um porta-voz do PSG afirmou à agência AFP que os dois queriam apenas conversar com o árbitro, mas a situação saiu de controle.

A cena era observada pelos guarda-costas do catari, por funcionários do Real Madrid e do estádio, e pelo delegado da Uefa para a partida. Um assessor do clube espanhol também foi alvo da ira da dupla do PSG e, de acordo com relatos, acabou agredido pelo presidente. Testemunhas afirmam que o dirigente pensou que o homem estava filmando a confusão com um celular e deu um tapa no aparelho, atingindo também o funcionário.

"Eu vou te matar", teria gritado Al-Khelaifi. Segundo outro trabalhador do Real Madrid, o colega estava com o celular na mão enviando uma mensagem, não gravando um vídeo.

Uma fonte do clube francês disse ao jornal L'Equipe que não houve agressão, e que o telefone do assessor do Real Madrid foi apenas apreendido por um dos funcionários da equipe parisiense. Assessores de Al-Khelaifi também negaram qualquer tipo de ameaça verbal ao colaborador do clube espanhol.

Com a confusão tomando proporções maiores, mais pessoas —da segurança do estádio e colaboradores do clube— tentavam conter Al-Khelaifi. Os guarda-costas repetiam "ninguém toca nele, ninguém toca nele", enquanto o presidente parecia, aos poucos, se acalmar. Leonardo, por sua vez, tinha uma postura "bipolar", nas palavras de testemunhas. "Às vezes parecia calmo, depois voltava a ficar agressivo".

Com a situação mais controlada, o presidente do PSG chegou a dizer que estava arrependido, mas que "havia sido provocado". Um funcionário do Real Madrid aproximou-se do delegado da Uefa, que acompanhava a cena desde o início, e disse que o clube tinha todas as imagens registradas em vídeo pelas câmeras de segurança do Santiago Bernabéu. O mesmo funcionário aconselhou o representante da entidade esportiva a incluir o que havia visto no relatório da partida. O árbitro também relatou os fatos na súmula.

Vai ter consequência?

Apesar da confusão, as primeiras informações são de que o Real Madrid não pretende levar a história adiante. Segundo o clube, nenhuma denúncia será feita, nem à polícia de Madri, nem à Uefa. Os vídeos das câmeras de segurança também não devem ser divulgados oficialmente, a menos que a Uefa peça evidências do ocorrido. Segundo fontes do clube madrilenho, "não há a intenção de criar uma guerra com o PSG".

A entidade máxima do futebol europeu já anunciou a abertura de um processo disciplinar contra o PSG, por incumprimento dos artigos 11 e 15 do código disciplinar da Uefa, que falam sobre "princípios gerais de conduta" e pune o "comportamento incorreto de jogadores e dirigentes". Ainda não há prazos definidos para o desfecho do caso.

Nasser Al-Khelaifi é um dos membros do Comitê Executivo da Uefa como representante da ECA, a Associação dos Clubes.

Em contato com o UOL Esporte, a assessoria do PSG afirmou que o clube não se pronunciará de forma oficial sobre os incidentes.