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Pandemia força aproveitamento da base, e clubes investem menos em reforços

Caio Vidal, atacante do Inter, durante treinamento no CT Parque Gigante - Ricardo Duarte/Inter
Caio Vidal, atacante do Inter, durante treinamento no CT Parque Gigante Imagem: Ricardo Duarte/Inter

Thiago Fernandes

Do UOL, em São Paulo

26/02/2021 12h40

A pandemia de Covid-19 impactou diretamente a receita e o poder econômico dos clubes da Série A em 2020 principalmente no quesito contratações. Ao decorrer da temporada, a alternativa encontrada para a gestão e preenchimento dos elencos foi o aproveitamento das categorias de base.

Segundo um relatório divulgado pelo Observatório do Futebol do CIES (Centro Internacional de Estudos Esportivos), da Suiça, em 2020 as equipes do Campeonato Brasileiro recorreram mais aos times de base e usaram um maior número de atletas porque contrataram menos.

A promoção dos atletas mais novos ao profissional encheu os elencos das equipes da primeira divisão. Em média, os clubes da Série A usaram 35,5 atletas diferentes durante o ano, o que resultou em uma crescente de 12,6% em relação à temporada passada.

Esse aumento dos plantéis está relacionado à postura das comissões técnicas, e até mesmo diretorias, de recorrer à base no momento de necessidade. Em 2020, os atletas "crias da casa" jogaram 25,8% mais do que no ano passado e estiveram em campo por 18,5% do tempo, contra 14,7 minutos em 2019.

Um dos casos que melhor representa este cenário veio do postulante ao título nacional, o Internacional. Com uma campanha sólida no Campeonato Brasileiro, o Colorado aproveitou os atletas formados na base - que compõem 34% do elenco profissional, montou uma estrutura rentável e promissora e já obtém ëxito no âmbito esportivo e financeiro.

Na equipe principal, o atacante Caio Vidal, campeão da Copa São Paulo em 2020, e o meia Praxedes, da Seleção Brasileira de base, assumiram um papel importante para o Inter nesta temporada. Além deles, o capitão Rodrigo Dourado, já consolidado como um dos líderes da equipe, também foi vem da base.

O presidente Alessandro Barcellos já deixou claro a importância de apostar nas categorias de base, pensando a longo prazo, e pretende chegar no mínimo em 40% dos jogadores formados pelo clube compondo o plantel do profissional.

"Um dos nossos focos é a retomada do aproveitamento da base. Temos o objetivo de traçar metas para que isso saia na prática e os resultados aconteçam". Ele ainda completa. "Com os atletas da base, hoje temos condições de formar uma equipe de qualidade para todas as posições no profissional e queremos dar continuidade a isso. Esse é o internacional do futuro".

O ex-coordenador das categorias de base do Atlético Mineiro, Júnior Chávare, afirma que, no futebol brasileiro, já existia um movimento nos últimos anos de querer aproveitar mais atletas formados nos próprios clubes. "O fator pandemia acelerou esse processo. Hoje, o olhar para a base não é apenas de reposição, mas de solução. É necessário entender que jogador de base tem que dar retorno", explica.

Pelo Galo, Chávare liderou recentemente o trabalho de base e conquistou o inédito título de campeão brasileiro sub-20. Apesar do sucesso na categoria, ele entende que a base não é feita apenas para ganhar títulos. "O trabalho é para formar jogadores para a equipe principal. No Brasil, o retorno técnico traz o retorno financeiro. Com boas atuações no profissional, o atleta é vendido e isso ajuda os cofres do clube", esclarece.

Mudança de mentalidade

Segundo o levantamento do CIES, na Série A, a cada 90 minutos jogados por qualquer atleta, mais de 16 minutos foram de jovens revelados do time. Será que o efeito pós pandemia pode provocar uma mudança de mentalidade na cabeça dos dirigentes no sentido de aproveitar melhor a base?

O diretor executivo de futebol, Marcelo Segurado, entende que a cultura no Brasil não permite um novo modelo de gestão de base que seja melhor aproveitado no profissional. "A mentalidade continuará sendo de pressionar as categorias de base em função de títulos. Há uma preocupação de vaidade e pouco profissionalismo no projeto de formação dos atletas", argumenta.

Segurado entende que o processo de transição dos jovens ao profissional precisa acontecer de maneira planejada para não "queimar" certos talentos. "Quando acontece de subir vários jogadores de uma vez é porque deu tudo errado. Isso atropela o processo de formação. O jogador tem de ascender à equipe principal galgando planejamento", argumenta.

Um dos clubes emergentes na elite do futebol nacional, e que deve se manter pela terceira vez consecutiva disputando a série A, o Fortaleza entende que o aproveitamento nas categorias de base na gestão do presidente Marcelo Paz está bem consolidada.

Tendo como destaque a revelação do atacante Igor Torres, autor de um gol na vitória sobre o Vasco neste Nacional, o clube disputou pela primeira vez o Brasileiro de Aspirantes sub-23 nesta temporada, e viu alcançar sua melhor pontuação no ranking da CBF - pulando da 42a posição em 2018 para uma projeção de 16a em 2021. Isso vai fazer com que o clube dispute, também de forma inédita, das disputas dos Campeonatos Brasileiros sub-17 e sub-20.

"A base é e sempre será a aposta do presente e do futuro. Tivemos muitas perdas técnicas e financeiras nesta pandemia, mas com a retomada em 2021, pretendemos continuar olhando com bastante carinho para nossas categorias amadoras. Nosso trabalho vem sendo sustentável e de equilíbrio, mas que já representa algumas conquistas técnicas, que é a participação nos campeonatos nacionais sub-17, sub-20 e sub-23. A partir deste investimento, certamente teremos uma capacidade maior de aproveitar nossos meninos no time principal", explica o presidente Marcelo Paz.

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