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Último Brasileiro finalizado no ano seguinte teve tragédia e SBT na Globo

Eurico Miranda (ao fundo), Romário e Viola erguem o troféu da Copa João Havelange, vencida pelo Vasco - Ormuzd Alves/Folhapress
Eurico Miranda (ao fundo), Romário e Viola erguem o troféu da Copa João Havelange, vencida pelo Vasco Imagem: Ormuzd Alves/Folhapress

Rubens Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Campeonato Brasileiro de 2020 terminará apenas em fevereiro de 2021
  • Desde a Taça Brasil em 1959, em nove edições o nacional terminou no ano seguinte
  • A última vez em que o Brasileiro não terminou no mesmo ano foi em 2000
  • Taça Brasil de 1968 vencida pelo Botafogo foi a mais longa e durou 14 meses
  • Durante a ditadura militar, inchaço devido a convites impossibilitou fim no mesmo ano
  • São Paulo venceu seus dois primeiros títulos nacionais no início do ano seguinte

A CBF anunciou na quinta-feira o seu novo calendário alterado devido à pandemia do novo coronavírus, com o Campeonato Brasileiro sendo disputado até fevereiro de 2021, o que deverá fazer com que o campeão brasileiro deste ano só seja conhecido no ano seguinte, situação inusitada, mas não incomum na história dos campeonatos nacionais.

Desde a Taça Brasil, primeira competição nacional do futebol brasileiro a partir de 1959, e reconhecida como Campeonato Brasileiro pela CBF em 2010, em nove oportunidades o campeão brasileiro só foi conhecido no ano seguinte ao do seu início — em alguns casos, bem mais tarde que o 24 de fevereiro previsto para a última rodada do Brasileirão-2020. A última vez em que este tipo de situação ocorreu foi há 20 anos, na Copa João Havelange.

O atraso na definição do campeão brasileiro ocorreu outras vezes, em diferentes formatos, por diferentes motivos em conquistas de clubes como Bahia, Botafogo, Palmeiras, Santos, São Paulo e Sport — justamente no caso que até hoje é discutido.

Queda do Alambrado em São Januário

A Copa João Havelange, criada após um problema jurídico que impediu a CBF de organizar o Brasileirão, foi um torneio com quatro módulos em que todos se cruzavam na disputa de um mata-mata na fase final. O São Caetano foi a surpresa da competição ao avançar à final depois de eliminar Palmeiras, Fluminense e Grêmio, para enfrentar o Vasco.

Depois de um empate em 1 a 1 no antigo Palestra Itália, em São Paulo, o estádio de São Januário recebia a partida decisiva no dia 30 de dezembro de 2000, quando ocorreu a queda do alambrado, vários torcedores ficaram feridos e o jogo foi suspenso. O jogo acabou remarcado para o dia 18 de janeiro, quando o time vascaíno de Romário, Juninho Pernambucano e Juninho Paulista venceu por 3 a 1 para ficar com a taça.

A curiosidade: o Vasco jogou com um "patrocínio" do SBT na final por provocação do presidente Eurico Miranda à Globo, que transmitiu a decisão e, entre o jogo da tragédia do alambrado e a partida remarcada, criticou muito o clube.

Desde a adoção do formato de pontos corridos o Brasileirão, a definição mais tardia do campeão ocorreu em 2004, quando o Santos foi campeão na última rodada, disputada no dia 19 de dezembro. Nas últimas oito edições, a definição do título havia sido no mês de novembro, o que se tornou impossível neste ano com a pandemia a paralisação do futebol por meses no país.

Bicampeão mundial jogou Taça Brasil com atraso

Em 1962, o regulamento previa que o Santos só jogasse a Taça Brasil a partir das semifinais. Com o calendário apertado com a disputa do Mundial Interclubes contra o Benfica, além do Campeonato Paulista e de amistosos na Europa, o Santos só estreou no nacional de 1962 no início de 1963, se sagrando campeão do torneio iniciado em setembro de 1962 apenas no dia 2 de abril de 1963, quando derrotou o Botafogo.

A situação se repetiu no ano seguinte, quando jogou o Mundial com o Milan e só participou da Taça Brasil em janeiro de 1964, derrotando o Grêmio nas semifinais e o Bahia na final, decidida no dia 28 de janeiro.

Apagão, W.O. e campeão após 14 meses

Botafogo conquistou o título nacional de 1968 apenas em 1969 - Site oficial Botafogo - Site oficial Botafogo
Botafogo conquistou o título nacional de 1968 apenas em 1969
Imagem: Site oficial Botafogo

A edição de despedida da Taça Brasil, em 1968, embora seja de glória para os torcedores do Botafogo, não foi exatamente um exemplo de organização. O torneio que daria vaga na Libertadores de 1969 só terminou em outubro daquele ano, 14 meses depois de seu início de disputa, e teve as desistências de Palmeiras e Santos após a CBD decidir passar as duas vagas na competição continental para o Torneio Roberto Gomes Pedrosa.

Houve problemas no calendário, atraso na definição dos confrontos da região Norte e uma confusão na disputa entre o Botafogo e o Metropol, de Santa Catarina, nas quartas de final. A equipe oriunda de Criciúma havia surpreendido o Grêmio, mas foi goleada por 6 a 1 na primeira partida pelo alvinegro e forçou um jogo extra ao vencer em casa por 1 a 0.

O novo jogo levou meses para ser realizado, ocorrendo apenas em abril, mas em General Severiano, sede do Botafogo. E já no segundo tempo, quando o empate em 1 a 1 estava perto de classificar o Botafogo, uma forte chuva e um apagão nos refletores paralisaram o jogo, remarcado para o dia seguinte, quando os catarinenses já haviam retornado a Criciúma. O imbróglio durou meses, mas o Botafogo seguiu na competição e ficou com o título ao vencer o Fortaleza na final no dia 4 de outubro.

Política de convites na ditadura militar

São Paulo foi campeão nos pênaltis em março de 1978 pelo Brasileiro de 1977 - Arquivo Histórico SPFC - Arquivo Histórico SPFC
Waldir Peres, ex-goleiro do São Paulo, durante a decisão do Campeonato Brasileiro de 1977, contra o Atlético-MG
Imagem: Arquivo Histórico SPFC

O Palmeiras havia sido campeão brasileiro em dezembro de 1972, em competição com 26 clubes, mas durante a ditadura militar, a CBD decidiu abolir a segunda divisão e adotou a política de convites para os clubes, aumentando o número de participantes para 40. O Campeonato Brasileiro que se iniciou em agosto de 1973 só foi terminar no dia 20 de fevereiro de 1974, novamente vencido pelo clube paulista

Em 1977, a frase "Onde a Arena vai mal, mais um time no Nacional. Onde vai bem, outro também" ganhou força e o Campeonato Brasileiro, que já havia tido 54 clubes em 1976, chegou a 62. O modelo de disputa alargou o período da competição, que teve duas fases de grupo, uma repescagem e outra fase de grupos até a semifinal, seguida por uma final em jogo único, em março de 1978, vencida pelo São Paulo nos pênaltis, com o Atlético-MG vice-campeão invicto.

A confusa Copa União

Bahia foi campeão brasileiro de 1988 em fevereiro de 1989 - Vidal Cavalcante/Folha Imagem - Vidal Cavalcante/Folha Imagem
Bobo em ação na final entre Bahia e Internacional em 1988
Imagem: Vidal Cavalcante/Folha Imagem

O Brasileiro voltou a ser concluído apenas no ano seguinte em 1986, quando mais uma vez houve um aumento no número de participantes por parte da CBF, que ainda criou um regulamento confuso que causou briga jurí­dica e culminou na criação do Clube dos 13, que realizou no ano seguinte a Copa União. O São Paulo foi o campeão ao vencer o Guarani no dia 25 de fevereiro de 1987.

A organização da Copa União em 1987 ficou por conta do Clube dos 13, que criou uma competição com 16 clubes, que seria vencida pelo Flamengo em dezembro daquele ano em disputa com o Internacional no Módulo Verde. Houve o desagrado a clubes como o Guarani, vice-campeão no ano anterior, que estava no equivalente à segunda divisão no Módulo Amarelo, e então houve mudança no regulamento para um cruzamento juntando os finalistas de cada módulo. Flamengo e Internacional se recusaram a jogar o quadrangular, que virou uma final entre Guarani e Sport, vencida pelos pernambucanos em fevereiro de 1988.

A última edição da Copa União foi em 1988, quando o Bahia foi o campeão ao vencer o Internacional. Mas, como nas duas edições anteriores, o campeão também só foi conhecido após a virada do ano, no dia 19 de fevereiro de 1989. A competição se iniciou no dia 2 de setembro de 1988, sem que o regulamento tivesse sido definido pela CBF, que até a véspera havia divulgado apenas os grupos e os jogos da primeira rodada, conforme informava a Folha de S. Paulo no dia da abertura do campeonato. Dois dias depois da final, os finalistas se reencontraram em jogo válido já pela primeira fase da Libertadores de 1989.

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