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Reinício do Alemão resgata futebol de alto nível, mas nada será como antes

Bundesliga
Imagem: Bundesliga

Fátima Lacerda

Colaboração para o UOL, em Berlim (ALE)

16/05/2020 00h01

Alemanha é o único país da Europa a reiniciar os jogos do campeonato, a Bundesliga. A vigésima sexta rodada entrará para a história do futebol alemão. As equipes do Fortuna Düsseldorf e o FC Paderborn darão o pontapé inicial para a largada dos famigerados Jogos Fantasma, sem público nos estádios em razão da crise do coronavírus.

O cenário de reinício poderia ser bem mais prestigioso: Fortuna, atualmente com 22 pontos, é recém-chegado na Primeira Divisão e ocupa o antepenúltimo lugar da atual tabela. O adversário do outro lado do campo, será o Paderborn, que bem antes do estourar do COVID 19 já tinha cadeira cativa na última posição (16 pontos). Em Berlim, o FC Union (30 pontos) enfrenta o Bayern, atual líder da tabela com 55 pontos. Para o clube que precisou de décadas para chegar na Primeira Divisão jogar contra o líder, o primo rico lá do sul do país, com arquibancadas vazias, quebra até mesmo para a equipe que se auto-define "União de Ferro" (Eisern Union).

Mudança de paradigmas

Com a invasão de um vírus mortal, todos os âmbitos da nossa convivência foram desconstruídos em velocidade Blitz. Como pensar em futebol, esporte que vive das aglomerações, dos cantos das torcidas, dos rituais de choro e euforia sem os protagonistas das arquibancadas?

Deslocamos o foco para a limitação da própria espécie Homo Sapiens, vimos de perto nosso limites. A dinâmica dos fatos foi se revelando em velocidade Blitz. A então questão de cunho existencial, sobre o lugar do amado time na tabela, se tornou mera nota de pé frente ao cenário apocalíptico de 2020 digno de um filme de Roland Emmerich.

Na temporada de 2018/19, quando o Borussia Dortmund acumulava 7 pontos a frente do Bayern, toda a segunda-feira era uma festa ver no Twitter, a foto da tabela com o time aurinegro no topo com os dizeres: "Bom Dia líderes da tabela! Era mais do que "somente" questão de honra e prestígio. Não havia melhor forma de enfrentar a segunda-feira. Éramos felizes e sabíamos!

Money, Dinheiro!

O que a maioria dos veículos de comunicação e alguns políticos planos de voos altos anseiam é ver a bola voltar correr no campo. Futebol como ópio do povo? Políticos de alto escalão querendo somar pontos e angariar popularidade são as principais vertentes de uma Tarefa de Hércules.

E o vídeo transmitido diretamente da cabine do Hertha Berlim pelas mãos do atacante Salomon Kalou? Vida que segue. O show precisa continuar.

Em sua página do Facebook, em uma live literalmente sem compromisso, o atacante fez a internet quebrar ao exibir o despreparo e a irresponsabilidade do time berlinense em cumprir os regulamentos de higiene e distanciamento exigidos pela DFL (Liga Alemã de Futebol).

Apertando as mãos dos colegas, zoando com os fisioterapeutas, mostrando o cheque com salário reduzido e perguntando "Eles estão nos sacaneando?", o Super Star do Hertha e Queridinho da torcida, foi o assunto mais comentado no Twitter alemão daquele dia. Porém, as imagens exibem muito além do óbvio, mas importantes questões no quesito lealdade, respeito e identificação corporativa.

A medida de repúdio da diretoria do clube berlinense foi a suspensão do atleta de todas as atividades esportivas o fazendo de único culpado. Imagens que mostravam explicitamente o fracasso de toda uma diretoria na Taskforce tiveram desdobramento zero no âmbito político. Não deixa de ser irônico que, exatamente um dia depois do sinal verde do governo para o reinício do campeonato, as imagens do atacante da Costa do Marfim terem vazado. Nunca saberemos o que teria acontecido, se as imagens tivessem vazado um dia antes.

Casos isolados?

Nem na Segunda Divisão, as medidas ficam devendo eficiência. Depois de dois jogadores da equipe do Dynamo Dresden terem sido testados positivo no Covid-19, o elenco todo foi enviado para a quarentena e não irá participar das duas primeiras partidas do campeonato. As manchetes em letras garrafais sobre os dois jogadores do time da cidade leste, foram interpretadas pelos poderosos do setor futebolístico como um acidente de percurso. Tem muito dinheiro em jogo e todo um mecanismo que precisa voltar a funcionar: os direitos de transmissão dos jogos, o passe dos jogadores, as janelas de transferência, as premiações em caso de vitória, para citar alguns.

Somando à lista dos "atropelos", o recém-empossado técnico do FC Augsburg, Heiko Herrlich, irá brilhar pela ausência no primeiro jogo do time sob o seu comando. Contrariando as orientações da DFL, ele burlou a quarentena ao sair do hotel, no qual está hospedada a equipe para ir ao supermercado comprar pasta de dente e creme para as mãos.

Depois, arrependido, claro, Herrlich abdicou de estar presente no aquecimento final e na partida do FCA contra o Wolfsburg. Os regulamentos estipulados pela DFL são minuciosos. Nenhum jogador pode ter nenhum contato com funcionários dos hotéis onde as equipes estão hospedadas. Na hora das refeições, por exemplo, os funcionários deixam a bandeja na porta do quarto e assim fazem os jogadores depois de finalizá-las.

Allianz Arena: Bayern faz últimos retoques no estádio para a volta da Bundesliga - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Allianz Arena: Bayern faz últimos retoques no estádio para a volta da Bundesliga
Imagem: Reprodução/Twitter

Prós e Contras

Nas redes sociais, a maioria se expressa contra o retorno do campeonato de futebol, achando um absurdo que esse tema seja levado a baila enquanto em muitas cidades, os jardins de infância e as escolas primárias ainda se encontram fechadas. E quem pensa que só quem faz declarações azedas deste tipo é avesso assistir durante 90 minutos 11 caras correndo atrás de uma bola, se engana. O humorista e apresentador Jan Böhmermann, amante do futebol, escreveu em sua conta no Twitter: "Vocês vão se f. com essa Bundesliga de vocês".

A reportagem conversou com jornalistas esportivos de grande relevância na Alemanha. Um deles é Andreas Hoffmann, do tabloide Bild e que acompanha o Hoffenheim desde o seu início na Primeira Divisão, além de ser um declarado admirador do brasileiro Joelinton, hoje atuante no New Castle, Inglaterra.

Perguntado se acha correta a decisão de reinício do Campeonato, Andreas foi taxativo:

"Acho certo a retomada no âmbito esportivo. Também acho justo a luta pelos pontos e não a opção de fechar a temporada com a tabela da forma como está. Os procedimentos de quarentena e os rituais de higiene são muito eficientes na Alemanha, algo que torna esta decisão aceitável. Por exemplo, que as equipes foram colocadas em quarentena uma semana antes do início dos jogos. A forma de transporte do hotel para o estádio com a equipe do Hoffenheim, por exemplo. Cada jogador é transportado individualmente em um carro. Também acho justo que somente 10 jornalistas sejam credenciados para que não haja perigo de contaminação. Eu vejo isso, inclusive, como um modelo para outros países."

Sobre as imagens exibidas na Internet do jogador do Hertha Berlim, o jornalista não vê gravidade alguma, muito pelo contrário. Declara que o caso do Hertha Berlim tem potencial de "alerta e sensibilização" para outras equipes e acredita ter sido um "caso isolado". Também episódio do técnico do FC Augsburg, Andreas sai pela defesa: "Ele não lesou ninguém e, por si só, decidiu não estar presente no seu jogo de estreia". Quanto a equipe do Dynamo Dresden, ele não teria colocado "toda a equipe em quarentena, mas somente os dois jogadores testados positivo".

O jornalista esportivo Ronny Blaschke que colabora para os principais meios de comunicação da Alemanha, entre eles, o jornal Süddeutsche Zeitung e a rádio Deutschlandfunk e também autor de vários livros, o mais recente "Jogadores com o Poder: Futebol como Propaganda, Guerra e Revolução" (Editora Werkstatt) defende uma postura mais severa sobre o futebol e seus desdobramentos, especialmente de âmbito financeiro e político. Ronny também conversou exclusivo com a UOL Esporte e exibiu uma visão diametralmente contrária à do jornalista do tabloide Bild.

Meticuloso pesquisador da cultura dos torcedores e das arquibancadas, perguntado sobre a mudança de paradigma no palco do futebol, as arquibancadas, ele delineou diferentes formas em quais as torcidas organizadas agiram durante o período de quarentena, como por exemplo, fazer compras para pessoas que vivem sozinhas ou que pertencem ao grupo de risco. Sobre o questionamento do que será da cultura das arquibancadas no formato de Jogos Fantasma, ele acredita num antagonismo entre os torcedores entre os a favor e os contra, fala até mesmo de "segregação das torcidas".

Sobre o desdobramento da nova fase de estádios vazios, ele analisou:

"A cultura das arquibancadas, com suas coreografias e seu ativismo não será mais parte do jogo. Várias declarações de torcidas tiverem um denominador comum se posicionando contra os Jogos Fantasma. Quando eu vejo nas redes sociais, torcedores clamando: "Por favor tragam o futebol de volta!", vejo isso como uma estratégia da DFL e de veículos de comunicação de grande influência que lucram especialmente com o futebol, acima de tudo o tabloide Bild e a SKY (TV por assinatura) que sem a transmissão dos jogos tem queda vertiginosa de audiência."

Ronny ainda critica a pressão de dois políticos que tem grandes ambições em futuro próximo como Armin Laschet, Ministro Presidente da Renânia do Norte Westfália (região administrativa que abriga quatro times da Primeira Divisão: Borussia Dortmund, Borussia Möchengladbach, Bayer Leverkusen e Schalke 04) e Markus Söder, Ministro Presidente da Baviera (sul do país), região onde habita o FC Bayern, um dos clubes financeiramente mais potentes da Europa. Ronny cita as pesquisas e enquetes feitas nas últimas semanas e constata que não há uma maioria para a retomada dos jogos. "Eu não sinto falta dos jogos porque agora nos encontramos numa grave crise", revela.

Um dos argumentos mais repetidos por políticos e por cartolas foi a situação financeira de penúria dos clubes menores, classificados como "perto da falência". O jornalista e autor vê essa linha argumentativa como um pretexto. "Já o fato dos clubes não terem feito um pé de meia é muito estranho".

O único denominador comum entre os dois jornalistas é o tratamento com times da terceira e quarta divisões, que os dois veem "em desvantagem". "A Terceira Divisão, por exemplo, só recebeu as instruções de higiene no dia 10/05", critica Andreas.

Sobre a falta de desdobramento depois das imagens do video de Salmon Kalou, Ronny vê uma estratégia amarrada e coerente dos meios de comunicação como das emissoras SKY, DAZN e da ARD e ZDF, esse último, um conglomerado de emissoras de rádio e TV abertas que "herdam" o direito cedidos pela Sky para exibir todos os jogos em TV aberta. Por isso, o julgamento sobre o comportamento de Kalou teria sido causado vista grossa, também por parte da chanceler Merkel e da classe política. Do outro lado, existe a cultura de repúdio das redes sociais. "Ela funciona", mas sem desdobramentos mais relevantes que pudessem mudar os planos da DFL.

12.mai.2020 - Policial usa proteção facial em Berlim, na Alemanha, em meio ao surto de coronavírus - Fabrizio Bensch/Reuters - Fabrizio Bensch/Reuters
Policial usa proteção facial em Berlim, na Alemanha, em meio ao surto de coronavírus
Imagem: Fabrizio Bensch/Reuters

Vitrine para o mundo

Karl-Heinz Rummenigge, o poderoso CEO do Bayern, declarou estar em grande expectativa de um interesse mundial ímpar, já que ó campeonato alemão é o primeiro a voltar a jogar no continente Europeu. Durante a primeira fase da pandemia, o campeonato da Rússia teve aumento vertiginoso no número de pedido de transmissão dos jogos.

A revista 11 Freunde (11 Amigos) nascida numa garagem na cidade de Bielefeld e proveniente das arquibancadas, zoou com o plano ambicioso da DFL: "Finalmente voltamos a ser alguém!", ironizando o status de primeiro país a reiniciar o campeonato. Essa alfinetada também é pela desclassificação precoce da Alemanha na Copa da Rússia (2018) depois de derrota amarga para a Coréia do Sul.

Normalidade 'fake'

A retomada do campeonato de futebol num país obcecado por esse esporte vem, em primeiro lugar, da motivação financeira e não da esportiva. A meticulosidade dos regulamentos exigidos pela DFL trará a tranquilidade para os jogadores dentro do campo? Infactível. Jogar futebol nunca foi tão perigoso e nunca foi tão letal o contato corporal. Como serão as disputas mano-a-mano? E muro da defesa? Cenas inesquecíveis do futebol alemão, como o ex-goleiro Oliver Kahn mordendo o pescoço do então jogador do Borussia Dortmund, Heiko Herrlich, o mesmo que burlou a quarentena e hoje consta na folha de pagamento do FC Augsburg.

Kahn saindo do gol, especialmente para pegar na manga da camisa do companheiro de equipe Sammy Kuffour, já apativo com o resultado, enquanto gritava "Continua, Continua!!". As memoráveis cervejadas de Elber, o eterno camisa 9 do Bayern em cima do terno de tecido italiano do então técnico Ottmar Hitzfeld. As tiradas de boxeadores de Steffen Effenberg e Carsten Jancker jogando na Nationalelf ou mesmo a cusparada do jogador holandês Rijkaard em cima de Rudi Völler no jogo em Milão durante a Copa de 1990 são momentos que nada combinam com o distanciamento ordenado pela DFL e com efeito letal de algum que pode ter um respingo de saliva.

A essência do futebol, as arquibancadas, os rituais, os cantos e as catarses estão suspensas por tempo indeterminado assim como as entrevistas na Zona Mista e coletivas de imprensa antes e depois dos jogos. Para o jogo em Berlim, entre o FC Union e o Bayern foram credenciados somente 10 jornalistas. Nenhum de mídia estrangeira. O estádio Die Alte Försterei que recebeu a Seleção Canarinho para treinos em março de 2018 para o jogo amistoso contra a Alemanha terá as portas fechadas e a polícia berlinense já anunciou o estrangulamento de tentativas de aglomeração ao redor do estádio.

Ao ver a bola rolar, depois de meses de secura poderia até suscitar um sentimento de alívio em torcedores, mas essa é uma pseudo-normalidade. No mais tardar, no momento de comemoração do gol, cai a ficha. Nada será como antes. Ainda durante muito tempo.

Teria sido melhor encerrar o campeonato sem que houvesse rebaixamento e, em 2021, começar de novo. Sem o grito entalado na garganta e com encontro marcado nonde mora a alma do futebol: Nas arquibancadas.

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