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Lucas Santos: "Não posso me alienar quando matam negros e pobres na favela"

Meia Lucas Santos está emprestado ao CSKA, da Rússia, até o fim desta temporada - Twitter / Lucas Santos
Meia Lucas Santos está emprestado ao CSKA, da Rússia, até o fim desta temporada Imagem: Twitter / Lucas Santos

Do UOL, em São Paulo

05/12/2019 12h12

Lucas Santos passou por ascensão meteórica nos últimos meses. Eleito o melhor jogador da Copinha, maior torneio de base do país, foi promovido ao time principal do Vasco, treinou com a seleção brasileira e se transferiu para o CSKA Moscou, da Rússia.

No entanto, o jogador disse em entrevista ao El País que não quer se desconectar das suas origens. "Saí da favela, mas não posso me dar ao luxo de ficar alienado enquanto matam negros e pobres", disse.

Lucas foi criado na Para-Pedro, favela do bairro de Irajá, zona norte do Rio de Janeiro. Ele contou que costumava cortar cabelo na mesma barbearia onde o mototaxista Kelvin Cavalvante, de 17 anos, foi morto a tiros durante uma operação policial, em outubro.

"Eu conhecia o Kelvin, um moleque do bem", disse. "A morte dele me deixou revoltado. Poderia ter acontecido comigo ou com algum familiar. Dizem que é por engano, mas morrem cada vez mais pessoas negras e pobres nas favelas. Cada vez mais o Rio é um lugar medonho para se viver, apesar das belezas naturais".

A Polícia Civil ainda não concluiu as investigações para determinar se as balas que atingiram Kelvin partiram, de fato, de agentes do Estado. Lucas criticou, no entanto, o que chama de "espírito genocida" do governador Wilson Witzel (PSC).

"Nenhuma pessoa deve comemorar a morte de um ser humano, independentemente do que estivesse fazendo. Entendo que é preciso ser duro com a criminalidade e o tráfico, mas não consigo ficar feliz com o assassinato de alguém. Essa postura do governador abala a confiança na polícia", refletiu.

Santos ainda comentou que "nunca morou em um lugar tão seguro quanto a Rússia". "Eu poderia muito bem ficar calado, mas, pela minha raça e pela minha cor, não tenho o direito de esquecer da minha origem", completou.

Lula e Bolsonaro

O jogador tampouco evita um posicionamento político, relatando que viu com bons olhos a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da prisão.

"Não sigo cartilha nem bato palma para tudo que a esquerda faz. Mas a gente, na favela, percebe a diferença entre um governo de direita e um de esquerda. Para alguns, o Lula poderia ter feito mais. Só que ninguém nega que ele deu dignidade aos negros e pobres. Já o atual Governo faz o que pode pra dificultar nossa vida", contou.

Nas últimas eleições, ele tentou convencer companheiros de clube a não votar no eventual vencedor, Jair Bolsonaro.

"Poucos buscam se informar sobre política. Resolvi me aprofundar porque muita coisa estava em jogo pra quem vem do mesmo lugar que eu vim. Os que escolheram a direita por querer uma mudança não pensaram nas consequências", definiu.

Funk e rap

Lucas Santos citou o gosto pelo rap como formador de sua consciência política. "No começo eu ouvia só por ouvir. Com o tempo, passei a estudar as letras e aí, sim, entendi a mensagem", comentou.

Já em relação ao funk, outro ritmo associado às favelas, ele lamentou que haja uma "tentativa de criminalização" do gênero.

"Algumas letras são pesadas, mas retratam a realidade da favela", disse o jogador. "Eu tenho amigos e até familiares que foram pro lado do crime, infelizmente. Nem por isso deixei de falar com eles. Quero que eles saiam dessa vida. E não é me afastando ou virando a cara que vou convencê-los".

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