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"Carille esqueceu a humildade na Arábia": os bastidores que geraram a queda

Fábio Carille mostra descontentamento durante jogo do Corinthians nesta temporada - MARCOS LIMONTI/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Fábio Carille mostra descontentamento durante jogo do Corinthians nesta temporada Imagem: MARCOS LIMONTI/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

Samir Carvalho

Do UOL, em São Paulo (SP)

04/11/2019 12h00

Resumo da notícia

  • Era unânimidade no clube que existiam "dois Carilles": um antes e outro depois da Arábia
  • Diretoria não suportava mais Carille e passou a semana esperando ele pedir demissão
  • Internamente muitos consideraram que Carille desdenhou da dívida do clube em coletiva
  • Carille "perdeu vestiário" de vez quando disse que tinha "tinha vergonha" do time

A queda de Fábio Carille era uma espécie de "tragédia anunciada" no Corinthians. O curioso é que a demissão foi muito provocada pelo próprio treinador. Uma das frases que a reportagem do UOL Esporte mais ouviu dentro do clube, apurando a situação do técnico nas últimas semanas, resume bem o desfecho do caso: "Carille esqueceu a humildade na Arábia".

Além de "perder o vestiário" de vez, como revelou a reportagem no último sábado, Carille já havia perdido a confiança da diretoria e da maioria dos departamentos do clube. É unanimidade entre os profissionais que trabalham no Corinthians, principalmente no CT Joaquim Grava, que existem "dois Carilles": um antes e outro depois da Arábia.

Carille deixou o Corinthians no primeiro semestre do ano passado para defender o Al-Wehda. Ele voltou ao clube seis meses depois, com outro status, carregando no currículo os títulos do Campeonato Brasileiro de 2017 e do bicampeonato paulista de 2017 e 18 pelo Timão. Este ano, mesmo jogando um mau futebol, o time de Carille ainda conquistou o tri paulista.

Para muitos, o técnico perdeu a humildade, e isso era observado no trato com atletas e companheiros de trabalho.

A diretoria já não suportava mais Carille no clube. Muitos até torciam para que ele pedisse demissão nesta semana. Como o treinador havia "perdido o grupo" na visão deles, a cúpula tinha esperanças de que o técnico pedisse demissão para que o clube não precisasse pagar a multa de R$ 3,6 milhões, valor revelado pela Coluna De Primeira esta semana.

A multa, aliás, começou em R$ 6 milhões, mas baixou com os dez meses de Carille no cargo. O valor reduzia conforme a proximidade do vencimento do contrato, que terminava no fim de 2020.

No entanto, a goleada sofrida para o Flamengo por 4 a 1 fez a diretoria acelerar o processo e decidir pagar a multa para demitir Fábio Carille. Eles tinham convicção de que Carille não consertaria mais o time e que a chance de vaga no G6 e participar da Copa Libertadores em 2020 acabaria de vez em mais uma ou duas rodadas.

O "Carille antes e depois da Arábia" também foi avaliado no clube em relação ao estilo de jogo. A maioria entende que o treinador nunca foi ousado, mas que ele não era tão "medroso" em 2017, quando conquistou dois títulos.

Entrevista foi estopim

A entrevista da última sexta-feira foi o estopim em relação a Carille e, por isso, o treinador entrou em campo contra o Flamengo, no Maracanã, com a obrigação do resultado positivo para não ser demitido. Na visão da diretoria, Carille desdenhou da dívida do clube, quando citou que sua multa não era nada demais para quem deve milhões, além de transferir para a diretoria a culpa

Mas entrevista serviu mesmo para Carille "perder o vestiário" de vez ao dizer que sentia "vergonha" do time. Os atletas ficaram decepcionados, tristes e até revoltados. A reportagem ainda havia apurado que a maioria alegava que iria correr hoje porque é obrigação [são profissionais], mas não pelo treinador.

O que mais mexeu com os atletas é, que na visão deles, o treinador deixou a entender que eles são incapacitados ao afirmar que os jogadores não conseguem executar o que ele passa no dia a dia e nos jogos.

"Vergonha. Não preciso olhar como torcedor, não, tenho que olhar como comissão e ser ciente daquilo. Vergonhoso, não parece um time treinado, parece que se junta no vestiário e vai para o jogo. Você passa informações e depois tá na beira do campo e isso não é feito. Não está faltando raça, mas tecnicamente a gente tem que ser melhor", disse Carille.

Os jogadores entendem que ficaram ainda mais pressionados após a declaração de seu comandante. A maioria do elenco alega que assume a responsabilidade e reconhece os erros, mas entende que a declaração de Carille o isentou de toda culpa, transferindo esta "carga" para o elenco. Além do desgaste com jogadores, diretoria e torcida, Carille não conseguiu mais acertar o time taticamente. O treinador tentou ser ofensivo nos últimos jogos após a "enxurrada" de críticas sobre a retranca que utiliza, mas não conseguiu os resultados.

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