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F. Jonatan trabalhou na feira antes do futebol e hoje sonha com Olimpíada

Felipe Jonatan comemora gol do Santos contra o Grêmio  - Jeferson Guareze/AGIF
Felipe Jonatan comemora gol do Santos contra o Grêmio Imagem: Jeferson Guareze/AGIF

Eder Traskini

Colaboração para o UOL, em Santos

18/06/2019 04h00

Ele morou em uma das maiores favelas de Fortaleza, vendeu frutas na feira da madrugada e ganhava um salário mínimo até o ano passado. Tudo em nome do sonho de ser jogador de futebol. Hoje, Felipe Jonatan veste a camisa do Santos, um dos grandes clubes do país.

E não é só isso. O lateral fez o time da Baixada Santista desembolsar, depois de muita novela, R$ 6 milhões para pagar a multa rescisória e tirá-lo do Ceará.

Felipe Jonatan teve de superar inúmeros obstáculos para chegar até onde está hoje. O primeiro deles foi logo no nascimento, quando precisou fazer um procedimento com agulhas na cabeça para evitar que tivesse problemas.

"Eu quase nasci com problemas e, ainda na maternidade, passei por um procedimento com agulhas na minha cabeça de maneira emergencial. Graças a Deus conseguimos reverter o quadro. Com um mês e meio de vida fui internado novamente com outra doença. Foi bem complicado, mas superei", contou o jogador em entrevista exclusiva ao UOL Esporte.

De família humilde, o lateral morava na favela de Bom Jardim e para ajudar a família vendia frutas na feira do bairro. Anos mais tarde, Jonatan se mudaria do local, mas seguiria acompanhando os pais na feira da madrugada de Fortaleza.

"Desde os 8 anos eu trabalhava na feira com eles. Meu avô comprou uma caixa de maçã e minha família estava necessitando. Eu peguei em um carrinho de mão e sai andando pela feira para vender. O povo ficava comovido por ser uma criança e conseguia vender bem rápido e aí dava o dinheiro para minha mãe. Com 13 anos comecei a trabalhar na feira da madrugada, chegava 1h da manhã e saia meio-dia", lembrou.

A história no futebol começou aos 8 anos no Fortaleza, clube pelo qual a família do jogador torcia, mas acabaria cedo. Felipe Jonatan pediu uma ajuda de custo de R$ 150, mas não foi atendido e deixou o clube. Passou pelo Bahia e parou no Ceará, clube pelo qual fala com carinho e gratidão.

Antes de subir ao profissional do clube cearense, em janeiro do ano passado, Felipe Jonatan recebia apenas um salário mínimo e chegou a passar dificuldades em casa.

"Passei por momentos muito difíceis na minha carreira, ganhava um salário mínimo até fevereiro do ano passado e chegou a faltar água em casa. Joguei o Brasileiro do ano passado recebendo 3 mil reais. Consegui dar a volta por cima", comemorou.

No Santos, Felipe Jonatan conquistou a confiança do técnico Jorge Sampaoli e vem tendo oportunidades mesmo diante da contratação do também lateral-esquerdo Jorge, com passagens pela seleção brasileira e que está emprestado pelo Monaco (FRA). Aos 21 anos, o camisa 36 do Peixe também sonha em vestir a amarelinha, mas no ano que vem, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio.

"Tinha disputa entre Santos e Atlético-MG, mas foi decisão minha mesmo (vir para o Santos) pela estrutura e pelo Sampaoli, que é um treinador europeu e poderia me ajudar com meu sonho de disputar as Olimpíadas no ano que vem. O Jorge é um excelente lateral esquerdo, já gabaritado, seleção brasileira e tudo mais. Procuro esse caminho também, chegar à seleção e ser um ídolo do clube, como o Léo, por exemplo. Com a chegada do Jorge o time evoluiu também, mas já mostramos que podemos jogar juntos, como fizemos nos últimos jogos", disse.

Confira a entrevista completa de Felipe Jonatan ao UOL Esporte:

UOL Esporte: Como está a adaptação à cidade? Facilita por vir de Fortaleza que tem características semelhantes?

Felipe Jonatan: Estou muito feliz na cidade. Me acolheram muito bem e já me sinto adaptado. Cidade praiana e quente, facilitou a adaptação, sim, e com isso o rendimento vem crescendo.

UOL Esporte: Sua chegada ao Santos foi conturbada pela novela do pagamento da multa rescisória ao Ceará. Você já estava em Santos treinando e isso rendeu polêmica. Como foi essa história?

Felipe Jonatan: Foi bem conturbado. Tudo foi com o aval do Ceará, não posso sair do clube que tem meus direitos econômicos e vir para outro sem o pagamento da multa rescisória. Foi tudo de acordo, com liberação do presidente do clube. O Santos se comprometeu a pagar a multa rescisória na data, mas teve o problema das contas bloqueadas. Mas graças a deus deu certo.

UOL Esporte: Essa novela te abalou a ponto de atrapalhar sua estreia?

Felipe Jonatan: Atrapalhou um pouco porque eu estava com ritmo de jogo, jogando quarta e domingo, e quando passa tempo só treinando acaba perdendo um pouco. Fiquei quase três semanas sem jogar e isso atrapalhou meu rendimento no começo. Depois tive uma sequência boa e consegui evoluir.

UOL Esporte: Antes da oficialização da contratação você fez uma festa de aniversário e vazou um vídeo seu praticamente anunciando que viria para o Santos. Teve bronca na família depois?

Felipe Jonatan: Foi complicado esse dia (risos). Estava muito feliz, presentão de aniversário que eu tive ser contratado pelo Santos. Tinha disputa entre Santos e Atlético-MG, mas foi decisão minha mesmo (vir para o Santos) pela estrutura e pelo Sampaoli, que é um treinador (de futebol) europeu e poderia me ajudar com meu sonho de disputar as Olimpíadas no ano que vem. Para ser sincero eu nem sei quem foi que filmou, tinha vizinhos na festa também, mas um dia eu vou pegar essa pessoa aí.

UOL Esporte: Você chegou para resolver o problema da lateral esquerda, mas pouco tempo depois o Santos anuncia o Jorge. Ficou algum sentimento de tristeza por trazerem outro jogador para a posição?

Felipe Jonatan: Eu levo pro lado positivo. Nossos rivais têm laterais de grande qualidade, por exemplo o Palmeiras, que tem o Diogo Barbosa e o Victor Luís. Para o clube ganhar títulos, precisa ter um elenco. Claro que estou brigando pelo meu espaço dentro do clube. O Jorge é um excelente lateral-esquerdo, já gabaritado, Seleção Brasileira e tudo mais. Procuro esse caminho também, chegar na seleção e ser um ídolo do clube, como o Léo, por exemplo. Com a chegada do Jorge o time evoluiu também, mas já mostramos que podemos jogar juntos, como fizemos nos últimos jogos.

UOL Esporte: Como é a orientação do Sampaoli nesses jogos que o Jorge foi o titular e você entrou durante a partida para atuar ali pelo mesmo lado dele?

Felipe Jonatan: O professor sempre diz que não temos apenas uma função dentro de campo, mas sim várias. Contra o Ceará, o Jorge foi um terceiro zagueiro pela esquerda e eu entrei como um ala na linha de cinco. Ele pediu para que eu fosse bem ofensivo e conseguimos o gol. Já contra o Atlético-MG eu entrei como um meia, formando um 4-4-2, para fechar os espaços porque estava entrando algumas bolas para o Cazares. Estou feliz por estar encontrando outras posições também.

UOL Esporte: Quando você saiu do Ceará, você pensava que estaria preparado para assumir a lateral esquerda do Santos?

Felipe Jonatan: Vou ser bem sincero: acho que sim. Eu disputei o Brasileiro ano passado em uma equipe que briga mais para não cair, que é a realidade do Ceará hoje, se manter na Série A. Ano passado disputei com quase todos os clubes da Série A e mostrei meu potencial. Acho que minha decisão foi correta e estou muito feliz aqui. A cobrança aqui é até maior, camisa do Santos é mais pesada, um clube que briga por título e no mínimo tem que estar na Libertadores.

UOL Esporte: Acha que se soltou depois do gol contra o Grêmio?

Felipe Jonatan: Sim. Me soltei no treinamento e entrei melhor nos outros jogos. Costumo falar que não cheguei ainda ao meu ideal, por que nunca podemos nos acomodar. Nunca podemos estar 100%, temos que estar 90% porque assim sempre temos a evoluir. Se estagnar, nosso futebol cai. O Jorge tinha marcado o gol da classificação contra o Vasco na quarta, e no domingo eu marquei o gol na estreia. O clube só tem a crescer com dois laterais de qualidade.

UOL Esporte: Como você começou no futebol?

Felipe Jonatan: Eu quase nasci com problemas e, ainda na maternidade, passei por um procedimento com agulhas na minha cabeça de maneira emergencial. Graças a Deus conseguimos reverter o quadro. Com um mês e meio de vida fui internado novamente com outra doença. Foi bem complicado, mas superei.

Sou um cara que sempre quis ajudar meus pais. Desde os 8 anos eu trabalhava na feira com eles. Meu avô comprou uma caixa de maçã e minha família estava necessitando. Eu peguei em um carrinho de mão e sai andando pela feira para vender. O povo ficava comovido por ser uma criança e conseguia vender bem rápido e aí dava o dinheiro para minha mãe.

Com 13 anos comecei a trabalhar na feira da madrugada, chegava 1h da manhã e saia meio-dia. Sou muito orgulhoso de tudo que vivi. Nasci na favela de Bom Jardim, um dos bairros mais perigosos de Fortaleza, e morei lá até os 10 anos.

Com 8 anos comecei no Fortaleza, pedi uma ajuda de custo de 150 reais aos diretores para ajudar minha família, mas eles me negaram. Pedi para ir embora, fui para o Bahia, mas o clube teve problemas de segurança e voltei para Fortaleza. Tive oportunidade no Ceará em 2016 e fui muito feliz lá também. Sou muito grato ao Ceará. Eu gostava muito do Fortaleza por causa da minha família, mas sou muito magoado por eles não terem me dado condições de ajudar minha família. A mágoa que tenho do Fortaleza é a gratidão que tenho com o Ceará.

Passei por momentos muito difíceis na minha carreira, ganhava um salário mínimo até fevereiro do ano passado e chegou a faltar água em casa. Joguei o Brasileiro do ano passado recebendo 3 mil reais. Consegui dar a volta por cima. Tive lesão no joelho e vi muitos desistirem, mas eu segui porque era meu sonho. É só o começo de uma história que quero construir dentro do clube, passar vários anos aqui, conquistar títulos e o carinho da torcida.