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"Meu crime foi ser professor", diz irmão de Zico torturado na ditadura

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

31/03/2019 04h00

No aniversário dos 55 anos do golpe que implantou uma ditadura militar no país, o ex-jogador Nando Antunes, irmão de Zico, não terá motivos para comemorar. Na época, mesmo sonhando com uma carreira no futebol, resolveu aventurar-se no magistério. Em 1963, foi aprovado em um concurso do Ministério da Educação para dar aulas no Programa Nacional de Alfabetização, idealizado por Paulo Freire. Foi o suficiente para entrar no radar do regime que se instalaria um ano depois.

O próprio educador acabou preso, e o programa idealizado por ele foi extinto.

Cria das categorias de base do Fluminense, Nando passou pelo Santos de Vitória (ES), América e Madureira, e se tornou ídolo do Ceará, mas sua carreira não decolou. Muito, conta ele, por causa da perseguição que sofreu pelos militares.

No final dos anos 60, depois de uma passagem frustrada pelo Belenenses de Portugal, foi preso por quatro dias, suspeito de ter ligação com grupos então considerados subversivos.

Nando foi levado junto com outros primos durante uma reunião na casa de uma tia. "Botaram a gente no camburão algemados", conta ele sobre o caminho até os porões do Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, no zona norte do Rio. "Botaram a gente num corredor onde tinha meia dúzia de jaulas, ficamos a noite inteira com a mão na cabeça, com a cara na parede. Quando o braço descia de cansaço, vinham com um mosquetão e diziam: 'Filho da p... vou furar você, levanta esse braço'. Falavam mil abobrinhas, me esculachavam."

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Nos interrogatórios, os militares tentavam arrancar daquele a confissão de que ajudava células terroristas, o que ele sempre negou.

Nando e os primos foram soltos, mas sua prima Cecília Coimbra, que na época tinha ligação com o MR-8, grupo que lutava contra o regime, ficou meses presa e foi violentamente torturada. Nando é o terceiro dos seis filhos do português José Antunes Coimbra, que se estabeleceu em Quintino, na zona norte do Rio. Cinco deles viraram jogadores de futebol, o mais famoso acabou se tornando Zico, o caçula.

Após voltar para casa, Nando ficou anos sem contar o que tinha passado nos porões da ditadura e não revelou sua história publicamente por medo de prejudicar a carreira dos irmãos. Mesmo assim, Edu, artilheiro do torneio Roberto Gomes Pedrosa, o campeonato nacional da época, acabou não sendo convocado à Copa de 70. Zico, que fez o gol que levou a seleção olímpica a Munique-72, acabou sendo cortado da lista final.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Nando acredita que o fato de ter sido considerado subversivo pelo regime explica o desapreço que os militares (ocupantes de cargos altos na estrutura esportiva da época) nutriam pelos irmãos Coimbra.

"O Edu não foi convocado e deixou de ser campeão do mundo porque os milicos cortaram ele só por ser meu irmão. O Zico era principal jogador da seleção olímpica e foi cortado porque eu tinha sido preso", afirma o aposentado, hoje com 73 anos. Em 2011 ele recebeu o perdão formal do Estado brasileiro depois que os trabalhos da Comissão da Verdade atestaram a perseguição.

No começo dos anos 90, Nando já havia retomado seu emprego no Ministério da Educação, que tinha perdido em 1964.

"Meu crime foi ser professor. E tem gente que defende essa p... Vão comemorar com cara amarela de vergonha", diz ele em referência a notícias de que o presidente Jair Bolsonaro recomendou aos militares que "comemorem" o aniversário do golpe militar.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A informação foi passada pelo general Otávio do Rêgo Barros, porta-voz do governo, que na segunda-feira (26), afirmou que o presidente havia determinado "comemorações devidas" neste 31 de março. Na quinta-feira seguinte, o próprio presidente recuou e afirmou que os militares não devem "comemorar", mas "rememorar" a data. Na sexta, a Justiça proibiu Bolsonaro de comemorar o golpe.

Nando afirma que nos anos 60 teve o contrato em dois clubes encerrados por pressão de militares, mesmo que nunca tenha se engajado em movimentos políticos contra o governo. "A única coisa de que eu participei era passeata de estudante, que ia com meus primos, e shows de bossa nova, e neles tinha protesto de artista. Mas nunca participei de nenhum grupo revolucionário", diz o ex-jogador.

O irmão de Zico chegou a lançar um livro em que relata com detalhes suas memórias dos anos de chumbo.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que foi informado anteriormente, a Rua Barão de Mesquita não fica no centro do Rio de Janeiro. Está localizada na zona norte.
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